Chega a grande data do levantamento do mastro do Divino: a quinta-feira da Ascensão num florido dia de maio. O sítio, barraca, barracão, engenho de onde partiu a iniciativa de tirar as esmolas com a coroa do Divino, amanhece em reboliço. O terreiro varrido, limpinho, colorido pelos crótons e roseiras, sombreado pelas mangueiras, enche-se de convidados matutinos que não desejam perder o menor detalhe dos festejos. De quando em quando uma montaria despeja no porto saias de cores berrantes, calças engomadas dos devotos mais íntimos da casa, pressurosos por dar a sua "ajudazinha" à festa do santo.
O buraco do mastro é aberto em seguida, para proporcionar durante a parte da tarde a presença de todos os homens na pragmática da escolha do lenho na floresta. Ao tombar o pau de melhor prumo, o seu ruído cavo reboa longe avisando os devotos femininos, lá no barracão a preparar as comidas e bebidas, de que chegou a hora do cortejo ir em demanda do objetivo alegórico de plantar o estimado lenho no terreiro da casa.
Uma romaria parte para a mata sobraçando frutos, a bandeira com a pomba do Espírito Santo, velas das promessas, coroas, guirlandas de folhas e flores. Ao chegar no local, o madeiro já está livre dos galhos, e logo o enfeitam com mil requintes de folhagens e artifícios flóreos, de mistura aos cachos de bananas, de bacaba, de açaí, de pupunha, aos feixes de cana, aos paneiros de laranjas, de limas, de graviolas, de murucuís, numa evocação milenária das Cerialias romanas.
O mastro é carregado sobre os ombros de dezenas de homens, serviço que almejam prestar numa tal azáfama e em tal número que se torna impossível a ajuda de todos. Por isso, amarram-lhe longas enviras a fim de puxá-lo simbolicamente, cumprindo o dever imposto pela fé e gozando os instantes de prazer.
A procissão silvestre chega ao terreiro. Os foguetes atroam nos ares, os cânticos desafinados e as rezas em desalinho, criam um ambiente de excitação religiosa afervorado pelo cerimonial dos "juízes" ou "mordomos", responsáveis pelo brilho da festa. Eis que se finca o mastro em cujo topo a bandeira do Espírito Santo movimenta sob o fundo do céu avermelhado pelo crepúsculo, a branca pomba no anseio de vôo às alturas do Senhor... Tiros, rezas, gritos, cantos, risos confundem-se num só hosana ao Divino Espírito Santo.
A orquestra rompe no salão os sons dançantes, anunciando o início da folia. Escurece já, e entra a noite folgazã com as danças, as brincadeiras dos jogos de prenda: boca de forno é forno, tome este anel e não diga nada a ninguém, por que fulano está na berlinda? no terreiro iluminado pelo clarão da lua ou das fogueiras. Os namorados cochicham e andam abraçados na cumplicidade dos lugares sombrosos e os festeiros mais gastrônomos saboreiam as cuias de mingau, os copos de aluá, os pés-de-moleque, as canjicas, os bolos de macaxeira. Por detrás de algum arbusto, a cachaça é distribuída com menos estardalhaço e mais apetência aos entusiastas de Baco.
Às vezes, uma briga, uma faca brilhando rápida na luz, interrompe por instantes a divertida função, na qual o ciúme, a rixa, a vingança encontraram momento oportuno para o desabafo. Mas logo o episódio é superado pela intervenção de amigos, esquecido na volúpia da noite morna do trópico rescendente a álcool, a suor, a ervas e flores do mato.
A respeito do ritual do levantamento do mastro, eivado do espírito pagão do falo, é propício mencionar que a adoração deste símbolo existiu nos cultos religiosos dos gregos, dos romanos, dos povos orientais, distinguindo-se as dionisias campestres na Grécia, onde as procissões das falofórias apresentavam em desfile portadores de falos, ao som dos cantos alusivos entoados pela multidão, louvando o símbolo criador, a força produtiva da natureza. O falo chegou a ser na Idade Média uma espécie de amuleto muito usado na fachada das casas e das igrejas dos séculos XIII e XIV.
Persistiram vestígios do culto fálico reunido a todos os elementos politeístas, durante os primeiros séculos da igreja cristã, envoltos nas lendas populares dos Evangelhos apócrifos que, no expressar de Teófilo Braga, no seu notável livro Lendas cristãs [1] são "tradições vulgares e eruditas que deram força à expansão da religião proselítica e contra as quais a Igreja teve de reagir, desprezando-as como apócrifas e retirando-lhe a sua autoridade canônica".
Pertence aos Evangelhos apócrifos a lenda de São José, narrando como foi escolhido o santo varão para esposo de Maria. Entre os virtuosos homens da casa de Davi, José veio à presença do grande sacerdote; depois de casa um ter recebido uma varinha, na do carpinteiro manifestou-se a pomba do Senhor que foi pousar sobre a sua cabeça, indicando ser o escolhido de Deus para receber a Virgem Maria e tê-la sob sua guarda.
No Evangelho apócrifo da natividade de Maria, a lenda está vazada nos mesmos detalhes, o que fez concluir Teófilo Braga, na obra citada: "No seu estudo sobre o mito do fogo, ao qual se liga a lenda da natividade, Adalbert Kuhn demonstrou a evidência que a vara ou bastão é o arani, o órgão másculo que produz a vida. Sobre este dado, interessa-nos aproveitarmos para interpretação das lendas de São José dos resultados acumulados por Gubernatis: o falo, principalmente foi assemelhado em dificuldade a uma espécie de bastão animal".
Na Hungria e na Bretanha, segundo Gubernatis [2], os mediadores de casamentos quando vão à casa das moças pedi-las em matrimônio, levam uma vara enfeitada de laços e flores, revelando o forte acento fálico do costume.
Amenizado na cerimônia do mastro do Divino, que duplamente fálico na vara e na "pomba" guarda porém a essência da arte e poesia cristãs, nas quais a pomba simboliza a alma propagando-se na vida. Reminiscência de indiscutível cunho pagão, o mastro nas comemorações amazônicas não tem entretanto o sentido cultual primitivo, traz somente a sombra do simbolismo, do rito embebido na mitologia, na lenda, nos costumes populares antigos, porque a prática hediorna é repassada de ma singeleza espiritual, puramente cristã.
A festa do Divino é uma tradição açoriana trazida até nós pelas naus portuguesas. "A festa do Espírito Santo era chamada outrora a Páscoa Rosada", diz em Portugal, Teófilo Braga, "e na linguagem litúrgica, o Pentecoste. Adora-se o símbolo fálico da pomba". E mais adiante: "Como muitos se lembrarão, era costume pela Páscoa levantarem-se um mastro com uma pomba no tope, ou uma pequena bandeira do Espírito Santo no meio do largo onde havia de ser o arraial". [3]
São João está do mesmo modo ligado a essas tradições vulgares e eruditas dos Evangelhos apócrifos que haviam se surgir nas primeiras eras da Igreja, acompanhados pelos "elementos politeístas, os ritos da prostituição sagrada nos banquetes dos ágapes e nos costumes das agapetas, nas lendas de Ana, de São João Batista e nos emblemas da pomba fálica e na pedra de Pedro". (Teófilo Braga, Lendas cristãs)
Muitos costumes juninos na Amazônia emergem também raízes nas usanças pagãs e no proselitismo religioso dos séculos iniciais da Cristandade. As fogueiras, dizem os hierólogos, porvêm das pras ardentes nas festas eneanas orientais onde queimavam a efígie do sol. Valemo-nos de novo da pena de Teófilo Braga que vem ajuntar estes interessantes comentários: "A festa de São João sobretudo tem um caráter acentuadamente solar. E liga-as a uma antiga festa pagã que parece ter tido como objeto conjurar a estiagem, representando o disco de Cushna precipitado nas águas". (O povo português nos seus costumes, crenças e tradições)
Sobre a tendência hidromântica das sortes e adivinhações joaninas tão frisantemente praticada na Amazônia, a mesma coisa Petrarca entrevia há 608 anos, no correr do século XIV em Colônia, o que consignou em sua Epístola ad posteros. Véspera de São João as mulheres debruçadas nas águas do Reno, emergiam mão e braços, recitando preces de felicidade e pedindo que o rio levasse todos os malefícios e desgraças.
Tanto nas capitais como no interior amazônico, a devoção ao apóstolo de Jesus Cristo é cercada de igual intensidade na fé, de igual ritmo nos folguedos, de igual rito nas crendices em que inúmeras adivinhações, banhos para tirar a panemice, a urucubaca, produzem anseios de fé e de esperança. E o foguetório pirotécnico, a sedução das fogueiras, dos balões, o apreciado batismo "São João disse, São Pedro confirmou", as danças pitorescas dos bois-bumbás, espalham nessa movimentada quadra junina ruídos, curiosidades, alvoroços, risonhas perspectivas, luzes, sons, perfumes.
Nas doze badaladas que anunciam a passagem do dia 23 para o dia 24 de junho, em todas as casas o banho de cheiro derrama-se pelo corpo num eflúvio de felicidade, tonificando o espírito, assegurando dias venturosos, perfumando o físico.
A flora prodigiosa acode para que o povo tenhaa sua "cuiazinha de cheiro" ou a sua "cachaça cheirosa", rescendentes a fragrâncias sublimes de que só é capaz a timiatétcnica cabocla. Cumaru, pau rosa, patchuli, pripioca, pataqueira, chama, baunilha, manjerona, casca preciosa, vinde-cá, macaca-poranga, pau cravo, japana, são aromas que acariciam e deleitam a olfação numa onda magnética e sutil.
As adivinhações preditas nas facas enterradas nos troncos das bananeiras, na clara de ovo, no copo d'água, na bacia d'água ao sereno, na cabeça de alho junto ao pote, revelam o casamento, a morte, a fortuna, o destino, enfim, do consultante lido nas formas e figuras vistas mais com a imaginação do que com os olhos. Cada um dá interpretação pessoal, conveniente aos seus desígnios, às feituras e visões que o mistério e o sortilégio da cálida noite de São João imprimem na mente humana, em todos esses augures de preferência hidromânticas como se a vaticinação estivesse presa à água desmedida e infinita da planície.
Quando o pai do autor destas linhas foi prefeito do município de Muaná, na ilha de Marajó, no primeiro ano de seu mandato, os organizadores do boi-bumbá estavam indecisos "se o seu prefeito se importava que o boi dançasse no salão da moradia". Era, por certo, uma singela homenagem ao novo chefe da comuna e uma tradição que devia ser obedecida. Instruídos sobre a maneira acolhedora com que o prefeito os receberia, na noite de São João o boi-bumbá veio até a nossa residência.
Avivam-se-nos na memória os personagens de vestimentas vistosas de onde pendiam fitas, lantejoulas e penas. O boi armado de papelão recoberto de papel pintado, encobria o homem que lhe carregava a "pele", em piruetas. Certo momento, ao som das cantigas e duetos, o boi morre, mandam a Chico tirar-lhe a língua e distribuir as partes bovinas aos apaniguados. Mas alguém se lembra de chamar o pajé e pronto, o animal ressuscita aos gestos e rezas cabalísticas, e aos pulos e volteios burlescos reacende a animação do grupo, evocando os ditirambos da tragédia grega.
Depois de generosamente recompensado pelo dono da casa, foi-se o boi-bumbá, colorido, esdrúxulo, barulhento, a entrudar pela rua com destino a outras casas onde oferecer espetáculo e ganhar dádivas para reaver os gastos dos apramentos.
O boi-bumbá, criação tipicamente brasileira que incorporou motivos ários, índios, afros, sem similar em Portugal ou na África, não mais sai nas ruas de Belém. As surtidas pelas vias públicas degeneravam em conflito ao se depararem dois bois de currais diferentes, e as facadas, pauladas, navalhadas porfiavam o prestígio dos dois competidores. Fez época na metrópole paraense a rivalidade entre os bois Pai do Campo e Canário, explodida nos encontros sangrentos em plena rua, insuflados ainda mais pelos embiricicas (a gente que acompanha o desfile) das duas partes, até que a polícia proibiu o cortejo.
Na noite de Natal é que se nota na Amazônia um sentido mais cristão, mais religioso, menos profano. Parece que a suave e mística noite do nascimento do Salvador arrefece o impulso de alegrias dionisíacas. Os cultos natalinos prescreveram a missa do galo, o presépio, as pastorinhas, as ceias familiares num ambiente de paz, de confraternização que bem raro é destoado por algum sucesso menos recomendável à grandeza espiritual da data. Os divertimentos são inocentes: sugestionados sempre pelos motivos da natividade de Cristo.
As árvores de Natal que deveriam ser profusas pelo incentivo da natureza, deixam aquém a popularidade gozada em outras partes. Poucas as famílias que engalanam o pinheiro europeu artificial, mas em compensação as fartas ceias no bom estilo português propiciam iguarias tanto européias como regionais, logo após a missa do galo.
No dia 25 começam as visitas aos presépios nas igrejas, nas casas particulares, artisticamente arranjados, encantando a imaginação das crianças. Nessas casas encenam as pastorinhas, concebidos na mais pura tradição portuguesa, cada conjunto querendo sobrepujar os outros na beleza dos cenários, nas maviosas canções, no vestuário de cetineta e arminhos dos anjos e santos, nas túnicas e cajados dos pastores, no provocante colorido dos colares, brincos e saias das ciganas, que representam com pureza e graça vários fatos em torno do nascimento do Menino deus. As peças de tão apreciadas e aplaudidas chegaram a ir aos teatros da cidade, seduzindo multidões.
Provêm as pastorinhas dos autos pastoris de Gil Vicente, durante o reino do venturoso dom Manuel, quando a rainha dona Maria, filha dos reis católicos Fernando e Isabel, em resguardo de parte ouviu o poeta luso recitar em espanhol o Monólogo da Visitação, diante de toda a corte reunida na câmara real. A inventiva de Gil Vicente logrou enorme sucesso, e passando para os domínios populares encontrou dramatização e enredo musical em louvor do divino acontecimento. O povo a denominou pastoril ou lapinha e a tradição cruzou o Atlântico para crismar-se entre nós de pastorinhas.
Belém, a cidade pórtico do vale, cujos princípios sociais originaram-se no pequeno Forte do Presépio, acentua na sua onomástica a água lustral da outra Bethlem. Quiçá por um suave milagre do nome célebre com menos irreverência, menos traços de mundanismo a noite de Natal... O contrário acontece nas outras capitais brasileiras, estrepitosas nos bailes pastoris, nas marujadas, nas cheganças e reisados, nos fandangos da barca, desconhecidos da alma popular paraense que é escassa de influxos negros.
Esta doce transparência da psicologia social amazônica, rescendendo a incenso e mirra, vem recordar-nos uma quadrinha singela, a única retida pela memória nestes anos de separação da meninice das felizes pastorinhas de Belém:
Eu sou o pastor Ezequiel
Que caminha noite e dia
À procura do menino
Filho da Virgem Maria
Notas
1. Teófilo Braga. As lendas cristãs. Porto, Livraria Internacional
de Ernesto Chardron, 1892
2. Angelo de Gubernatis. La mythologe des plantes. Paris, C. Reinwald
Editeurs, 1878, tomo 1
3. Teófilo Braga. O povo português nos seus costumes, crenças e tradições.
Lisboa, Livraria Ferreira, 1885