Dizem que a mãe de São Pedro foi para o inferno. Foi porque era malvada e sovina. Tão sovina e tão malvada, que não se salvou. Quando o velho pescador soube que ela estava no inferno, chorou, chorou, e tanto pediu, tanto pediu, que o mestre, condoído da sua. mágoa, disse:
– Pedro! Procure alguma boa ação que ela tenha praticado. Talvez se possa salvá-la...
Pedro pegou o livro da vida e procurou. Procurou com cuidado. Procurou dias e dias, procurou, procurou. E, por fim, humílima, entre o negror daquela vida, luziu um raiozinho de bondade. Um só. Veio radiante falar ao Amigo:
– Senhor! Encontrei! Um dia, quando uma formiguinha gemia, presa sob uma folha de cebola, minha mãe ergueu a folha e a deixou sair.
– Bem, Pedro, – disse o Senhor, magnânimo – atire a folha de cebola ao inferno. Segure uma ponta. Por ela a alma perdida subirá ao céu.
Assim se fez. A mãe ia subindo, ia subindo. Em meio do caminho, lembrou-se de olhar para trás e viu, embaixo, muitas almas esperançosas, agarradas à folha e que iam também subindo. Porque era muito egoísta e achava que só ela deveria subir – o merecimento foi só seu – e também porque tinha medo que aquela frágil folha se arrebentasse, ia empurrando para baixo, com os pés, cada alma que chegava ao seu alcance. E então, ao peso de sua maldade, a folha partiu-se e ela foi precipitada, desta vez para sempre, às trevas inferiores.
Numa coletânea de contos populares recolhidos por Aurélio M. Espinosa, na Espanha, figuram várias versões desta nossa história, que foi recolhida no Vale do Paraíba do Sul, Estado de São Paulo. Menciona-se aí a mãe de Santa Catalina ou Catarina. A variante recolhida em Jaraiz de la Vera é exatamente igual à nossa lenda obre a mãe de São Pedro
Malba Tahan reconta também a história. Só que não diz que foi à mãe de São Pedro que aconteceu isto. Nem seria cabível num cenário oriental e com um deus chamado Alá.
Luís da Câmara Cascudo registra uma versão, em Os melhores contos populares de Portugal. O final é diferente. A mãe de São Pedro ficou entre o céu e a terra. O autor cita ainda o dito popular português "estar como a mãe de São Pedro". Estar entre o céu e o inferno.
São ainda de Luís da Câmara Cascudo estas verificações:
Há uma versão registrada por Ortoli, na Córsega, em Contes populaires de l'ile de Corse, transcrita em Contes des princes de France, XLII – La mére de Saint-Pierre.