Era uma vez um moço pescador muito destemido e bom que lutava com as maiores dificuldades para viver. Ultimamente o vento mudava e quase não havia peixe. Passava horas e horas na praia, com a pindaíba na mão e os peixes fugiam dele como o diabo da cruz. O rapaz estava mesmo desanimado e dormia com fome o mais das vezes.
Numa noite de luar estava ele querendo pescar e o peixe escapulindo depois de comer a isca. A noite foi avançando, avançando, o luar ficando alvo como a prata e caindo mesmo a friagem. O rapaz não queria voltar para sua casinha sem levar nem que fosse um peixinho para matar a fome.
Já ia ficando desanimado quando começou a ouvir vozes cantando tão bonito que era de encantar. As vozes cantando foram chegando para mais perto, mais perto, e rapaz principiou a olhar em redor para ver quem estava cantando daquele jeito. Numa ponta de pedra apareceu uma moça bonita como um anjo do céu, cabelos louros, olhos azuis e branca como uma estrangeira. Ficou com o corpo meio fora d'água cantando, cantando, os cabelos espalhados, brilhando como ouro.
O pescador ficou todo arrepiado mas criou coragem e disse:
– Que desejais de um cristão, alma penada?
A moça respondeu:
– Não sou alma penada, cristão! Sou a mãe-d'água Nunca uma pessoa me perguntou alguma coisa e sempre eu dei, e jamais me ofereceram auxilio. Tens coragem?
– Tenho, declarou o rapaz.
– Queres pegar peixe?
– Quero!
– Pois sacode o anzol onde eu estou. Deve vir todas as noites até quarto-minguante e só pescar de meia-noite até o quebrar-da-barra.
Abanou a mão e mergulhou, sumindo-se.
O rapaz fez o que ela tinha aconselhado e pegou tanto peixe que amanheceu o dia e não pudera carregar tudo para casa.
Nunca mais viu a mãe-d'água mas, no tempo da lua, vinha pescar e foi ficando mais aliviado da pobreza. Os meses iam passando e ele ficando com saudade daquela formosura. Uma noite de luar, estando na pesca, ouviu o canto da mãe-d'água e largando tudo correu na confrontação da cantiga. Quando a mãe-d'água botou as mãos em cima da pedra o rapaz chegou para junto e assim que ela se calou, o pescador agradeceu o benefício recebido e perguntou como pagaria tanta bondade.
– Quer casar comigo? – disse a mãe-d'água.
O rapaz nem titubeou:
– Quero muito!
Mãe-d'água deu uma risada e continuou:
– Então vamos casar. Na noite de quinta para. sexta-feira, na outra lua, venha me buscar. Traga roupa para mim. Só traga roupa de cor branca, azul ou verde. Veja que não venha alfinet, agulha ou coisa alguma que seja de ferro. Só tenho uma condição para fazer. Nunca arrenegue nem dos entes que vivem no mar. Promete?
O rapaz que estava enamorado por demais, prometeu e deixou a mãe-d'água que desapareceu nas ondas e até sumir.
Na noite citada o pescador compareceu ao lugar, trazendo roupa branca, sem alfinete agulha ou coisa que fosse de ferro. Antes do galo cantar, a mãe-d'água saiu do mar. O rapaz estava com um lençol bem grande, todo aberto. A mãe-d'água era uma moça tão bonita que os olhos do rapaz ficaram incendiados. Enrolou-a no lençol e foi para casa com ela.
Viveram como Deus com os Santos. A casa ficou beleza de arrumada, com um-tudo, roupa, mobília, dinheiro, comida, água, nada faltava. O rapaz ficou rico da noite para o dia. O povo vivia assombrado com aquela felicidade que parecia um milagre.
Passou-se um ano, dois anos, três anos. O rapaz gostava muito da mãe-d'água mas de umas coisas ia se aborrecendo A moça não tinha falta mas, na noite de quinta para a sexta-feira sendo luar, ficava até o quebrar da barra na janela olhando o mar. Às vezes cantando baixinho, que fazia saudade até às pedras e aos bichos do mato. Às vezes chorava devagarinho. O rapaz tratava de consolar a mulher mas, com correr dos tempos, acabou ficando enjoado daquela penitência e principiou .a discutir com ela.
– Deixe essa janela, mulher! Venha dormir! Deixe de fazer assombração!
A mãe-d'água nem respondia, chorando, cantando e suspirando, na sina de Deus lhe dera.
Todo mês sucedia o mesmo. O rapaz ia ficando de mal a pior.
– Venha logo dormir, mulher presepeira! Que quizila idiota é essa? Largue essa mania de cantiga e choro virada para o mar! Você é gente ou é peixe?
E como a mulher já possuía em casa, deu para procurar vadiações do lado de fora, chegando tarde. A mãe-d'água recebia-o bem, não se queixando de nada e tudo ia correndo com satisfação e agrado da parte dela.
Numa noite o rapaz foi a um baile e ficou a noite inteira dançando. animado como se fosse solteiro. Nem se lembrava da beleza que esperava por ele em casa.
Só voltou de manhã e foi logo gritando pelo café, leite, bolos e mais coisas para comer. A mãe-d'água, com paciência, começou fazendo mais-que-depresea o que ele dissera mas não vinha na rapidez do corisco.
O mal-agradecido, sentando-se numa cadeira, de cara franzida, não tendo o que dizer, começou a resmungar:
– Bem feito! Quem me mandou casar com mulher do mar em vez de gente da terra? Bem feito. É tudo misterioso, cheio de histórias. Coisas do mar... hi... eu te arrenego!
Logo que disse essas palavras, a mãe-d'água deu um gemido comprido e ficou da cor da cal da parede. Levantou as duas mãos e as águas do mar avançaram como um castigo, numa onda grande coberta de espuma roncando como bicho feroz. O rapaz, morrendo de medo, deu uma carreira de veado, subindo um monte perto da casa. Lá de cima se virou para ver. Casa, varanda, cercado, animais, tudo desaparecera. No lugar estava uma lagoa muito calma, pegada a um braço de mar. Ao longe ouviu uma cantiga triste, triste como quem está se despedindo do mundo.
Nunca mais viu a mãe-d'água.