No Nordeste todos conhecem a história da mãe da lua. Porém varia bastante de Estado a Estado. Quanto à Paraíba, podemos dizer que a versão corrente não se mostra muito diferente das outras. Encerra mais ou menos quase tudo que existe a respeito desse mito por excelência popular.
Toda culpa do que é ruim é logo atirada à mãe da lua. Ela tem largas preocupações vingativas. Outros acham que não. Faz o que faz por causa de meros caprichos. Não quer prejudicar ninguém com as suas iniciativas. Mas o fato é que prejudica – e muito. Se a água do nascedouro secou, a culpa vai direto para ela. Chegou lá, bebeu o precioso líquido e – quem sabe se egoísta? – não se lembrou que havia um mundo de necessidades para fazer igual coisa. Acontece isso invariavelmente nas propriedades de criação. O gado sofre a falta de água, tem-se que mandar buscá-la onde tiver, às vezes muito distante. Vem em barris nas costas de burros.
O que chama a atenção: os prejudicados não atiram a menor palavra que signifique insulto ou irreverência. Só dizem isto:
– Essa mãe da lua, porque ela fez isso, é medonha, não dorme.
E as conversas correm nesse tom cordial em que se divisa respeito pelas providências que de súbito ela toma.
A conformação é geral. O fantasma pode fazer o que bem quiser, porque ninguém levantará sua voz para um impropério menos doce. A sua ação não se faz notada somente em secar água. Quando tem sede é natural que deve saciar-se mas não tanto que prejudique os demais.
- "Ela não se lembra", – afirmam todos num como gesto de defesa.
A sua ação, como ia dizendo, se faz sentir também no sentido de alimentar-se, pois, embora de origem celestial, mantém desejos materiais de quem vive entre os homens. Apenas não come nem bebe pouco. O que come e o que bebe é sempre dentro de estúpida medida e escala incrível. Gigantesca, a sua voracidade não tem limites. Então, por água, é uma coisa de chamar atenção, coisa mesmo doida. Os coqueiros do litoral são em número de milhões e milhões. Coitados, sem defesa, vivem à sua disposição voraz.
A mãe da lua vive refestelada de satisfação na zona em que domina. Se é o Sol, esquenta e faz secar a terra, enquanto os meses se amontoam sem cair pingo de chuva. E, desde que exista dificuldade em encontrar água, nos poços e nascedouros, o mito não se perturba por isso. Já resolveu a situação desde séculos. Corre para os coqueiros e bebe toda a água dos cocos.
É interessante e freqüente observar-se passagem como esta: abre-se um coco na cozinha e não se acha dentro dele nem lembrança de água, e, então, diz logo o empregado:
– Foi a mãe da lua.
Prejuízo sem jeito. De modo que o grave problema da água no Nordeste está resolvido no interesse do avejão, mesmo porque pode faltar o líquido em toda parte mas nunca dentro do coco – e diga-se: é para se louvar o bom gosto de quem o bebe, pois que ostenta em 99% um sabor característico, parente próximo do bom ou do melhor açúcar.
Quanto à alimentação se opera idêntico fato. Constata-se facilmente a presença da mãe da lua. As frutas, por exemplo, recebem a sua freqüente visita noturna: são chupadas ou comidas no próprio galho. Amanhecem murchas ou estragadas. E ninguém discute qual o autor daquele arraso de mau gosto. Sabe-se logo que foi obra da mãe da lua. Ela só se serve de frutas. É vegetariana. Água e frutas – eis em que consiste a sua manutenção. Abre-se uma laranja, uma graviola, um mamão, qualquer outra fruta, e, lá dentro, está faltando qualquer pedaço (às vezes nada têm, estão ocas, estragadas ou com um defeito qualquer) ninguém discute, sai a frase por uma boca só:
– Foi a mãe da lua.
Até o caju sofre a sua perturbação. Afirmam que ela não aprecia o fruto silvestre que faz o encanto dos "passamentos de festa". É um tanto adstringente e nem sempre é doce. Na dúvida prefere não se utilizar do caju. Demais, existe fruta em abundância. A região onde vive se eleva como um verdadeiro pomar Poderá escolher o que bem lhe aprouver. Apenas não come ariticum. E, porque tudo se acha nas suas mãos, mantém preferências particulares e também horríveis luxos, pois alimenta a petulância de detestar o caju e o cajá. Mas quando a mãe da lua passa por perto eles, no dia seguinte podem procurar que acharão no cajueiro, ou na cajarana, alguns frutos assados ligeiramente. Há dúvidas quanto ao autor desse defeito. Alguns sustentam que se deve à passagem por perto do andejo fantasma; outros, porém, atribuem o fato ao relâmpago. Este queima e, com o fogo, tempera o caju, tornando-o melhor, mais doce.
Na mata existe um pássaro conhecido por mãe da lua. O povo criou a imagem material do mito. É pássaro noturno, parecido com o bacurau. Tem boca larga, bonita, e durante o dia, se esconde nos tocos de pau. O cântico que sai de sua garganta é rápido e muito igual, sem a menor variação, mas, não obstante delicioso, cheio de uma tristeza que não se descreve. Dá idéia de gargalhada de doente misturada com o canto dos namorados. Nas noite: de luar se amiúda a mãe da lua no seu dolente cantar. Como que se mostrasse seduzida pelo astro que esplende no alto, boiando em céu azul e, às vezes, entre nuvens. É pássaro sagrado. Todos demonstram ter por ele um respeito exagerado. Os caçadores evitam de matá-lo. Seria azar certo: a caça jamais se deixaria pegar.
Mãe da lua aparece, quando não é pássaro, em todo lugar – e com o prestígio do fantasma que ninguém vê, mas que todos imaginam.