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Tema do Mês

Maio 2009 - Ano XI - nº 124

Sumário

Mãe do ouro

O mito da mãe da lua

O marido da mãe-d'água

A mãe de São Pedro

Praga de mãe

Mãe preta

 

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Mãe

Mãe do ouro

Ademar Vidal

A terra esconde todas as fortunas desejadas pelo sertanejo. Na terra se acha o segredo da vida, o começo e o fim do mundo. Ninguém poderá viver sem a sua ajuda benéfica. E por este motivo se torna necessário ajudá-la no florescimento, no amanho cuidadoso – e ter paciência, suportar os dissabores, enfrentar as tempestades, certo de que, afinal, a compensação virá multiplicadamente. É a sua verdadeira amiga, a sua única amiga. Por isto há mister em conservá-la, não deixar que passe às mãos de outros sem amor, indiferentes à sua sorte de bem-servir. Jamais o homem do sertão abandona de voluntário gosto aquilo que veio dos seus antepassados ou que adquiriu através dos maiores sacrifícios. Se a fortuna de momento não lhe sorri (basta a visita da seca periódica ou das chuvas avassaladoras, carregando tudo e deixando o proprietário mendigo) é ter paciência e coragem, esperar ou sair, mas voltar logo que as coisas se normalizem: o sol fique novamente brando e os invernos regulares.

De dentro da terra de Deus é que vem aquilo tão agradável e também doce e belo, cheio de lindezas animadoras: os recursos materiais para se conseguir a realização das vontades que o espírito alimenta. De dentro da terra dura e ressequida é que vem a sua subsistência, o calor de vida telúrica, o entusiasmo ou o desânimo, a segurança, todavia, de que ela encerra no seio pródigo e fecundo a razão de ser da própria existência humana. De dentro da terra procede o conforto silencioso de quem se sente em sua casa, mandando e vendo-se obedecido, respeitado, íntimo dos ambientes que se levantam na superfície – e que se modificam apenas momentaneamente quando chega a seca ou quando vem a água dos invernos fartos. Pois a terra, como se vê, é tudo para o sertanejo, constitui aquilo de mais sagrado, coisa que só se possui com os selvagens afetos da carne.

Somente quem viveu ao seu contato é que poderá fazer idéia justa de quanto se revela adorada e sentida pelo homem com profundidades insondáveis.

Montanhas e rios, áreas enxutas e seivosas, cinzentas e vermelhas, pretas também, pequenos serrotes, grutas abertas na pedra, sítios misteriosos na escuridão ou na luz meridiana, vegetações ralas ou grossas enfeitando o chão, os humildes riachos, as pedras roladas, os pássaros e os bichos de caça, as colheitas da lavoura, a terra, enfim, é isso tudo e mais ainda: guarda no seu ventre as riquezas que o sonho alimenta firmemente, por maneira inabalável, certo se acha o povo de que "lá em baixo" se esconde uma realidade extraordinária, impossível de imaginar-se na extensão e na grandeza da sua importância. Ainda porque ela é a mãe do ouro. Assim denominam-na os mais crentes. Aquelas coisas todas que vivem em cima estão apenas disfarçando a existência do interior fabuloso. São quase enfeites. Seu caráter verdadeiro nos propósitos é este: unicamente esconder o que se encontra em baixo, guardado no silêncio, sem falar, esperando que o homem vá buscar um dia, desde que tudo lhe é dado sem troca da menor compensação. Mãe do ouro. A terra tem a sua legítima designação. Não pode ser denominada por outra forma. Mãe do ouro.

Por todas essas razões há estrita necessidade de adotar normas adequadas à consideração em que justamente é tida pelo povo. Por quantos vivem da agricultura, sobretudo. É preciso agradá-la e ser bom no trato dos leirões de plantação de roça e batata, nos movimentos de areia, na retirada dos obstáculos, remoções e abertura das levadas: tem-se que fazer tudo isso sem maiores violências. Nada de atacar os trabalhos submetidos à vontade de ação nefasta. Têm de ser eles realizados com propósitos humanos para não "desgostar a terra". Se não for assim, virá a reação, enfurecendo-se. As demonstrações desagradáveis não tardarão a pronunciar-se: a terra fica "diferente". Por exemplo, a seca é obra direta de sua zanga. Relâmpagos e trovões aparecem como sinais – e as vozes de seu monstruoso organismo se refletindo no espaço infinito. Nenhum descuido no tratamento. Toda delicadeza será pouca com a mãe do ouro que gosta de ser respeitada.

E o sertanejo antigo sabia muito hem desses luxos. Por isso os tempos ruins eram espaçados, não se faziam sentir com a freqüência de agora.

Nestes últimos anos, posto em prática o sistema de construção das Obras Contra as Secas, o negócio tomou outras direções, rumando-se pelo caminho em que os processos violentos se faziam mais recomendáveis. A engenharia atacou a terra com o firme desejo de realizar barragens e monumentos de concreto só com o intuito de prender a água. Fazer com que esta não corresse para se perder toda no oceano. A mãe do ouro ressentiu-se. Não teria gostado de sofrer tanta desconsideração, vendo-se-lhe rasgar o ventre e, dentro dele, erigir-se barreiras de cimento intransponíveis. Ficou de cara amarrada, cheia de raiva, inquieta como cascavel de quatro ventas. E era necessário que manifestasse a seu jeito como se achava contrariada. Então passou a reagir: as secas, ao invés de diminuírem, aumentaram, amiudando-se e determinando graves conseqüências. Afinal, o povo foi quem pagou o pato, como sempre. Teve de suportar o diabo.

Por mais que o governo fizesse no sentido de minorar os males, estes se multiplicavam: eram os movimentos migratórios para regiões amazônicas ou para os cafezais de São Paulo, eram os campos de concentração de incrível imundície, era a ausência de água por toda parte, era a fome dominando o sertão devastadoramente.

Mas. diante de tanta desgraça, a mãe do ouro teria se condoído. Viu, afinal, que o povo não tinha culpa do que sofrera em silêncio, sem poder protestar aos gritos e por forma pacífica. Recomendável quanto antes que pusesse em prática a melhor maneira de compensar as melancolias de gente tão abnegada. É senão quando toma a resolução histórica: adotou a política de beneficiar. Porém como?

Sabe-se de sua extrema prodigalidade em fazer surgir em seu amplo seio quente os veios de ouro do melhor quilate. :Foi uma sensação extraordinária. Notícia que atravessou o sertão em todos os quadrantes, fazendo-se romaria e agitando-se a população frenética, sóbria e pugnaz. Decerto que não poderia encontrar óbices maiores na extração do precioso metal.

As conseqüências materiais desse ato generoso da mãe do ouro são notoriamente conhecidas. Em vários lugares do interior nordestino, de preferência na Paraíba (áreas do Piancó e da serra do Teixeira) o ouro aflorou como novidade, saindo das entranhas da terra e trazendo alegria geral entre os pobres que entraram nos serviços de bateiar e lavrar. A fartura fez com que o povo melhorasse as condições materiais. Pés-rapados viraram repentinamente plutocratas. E em torno das minas os núcleos sociais que se formaram foram inopinados: do dia para a noite vilarejos se ergueram numa movimentação de comércio florescente. Construções – e boas iniciativas particulares. Prosperidade por todos os cantos. Muito maior teria sido se não fora a interferência direta e perigosa dos judeus farejantes que logo trataram de instalar as suas tendas de arrecadação. Ganharam bastante, do limite permitido. E os bancos não ficaram atrás.

A intenção da mãe do ouro foi a melhor possível. Pretendeu amparar os pobres – e amparou, é verdade que não se dizer "muito". Mas fez o que pôde dentro de seus impulsos maternais de solidariedade.

(Vidal, Ademar. Lendas e superstições; contos populares brasileiros. Rio de Janeiro, Empresa Gráfica O Cruzeiro, 1950, p.519-522)

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