Além de constituírem uma das bases de alimentação do povo e de serem sua mais bem sortida botica, os vegetais têm para ele importância considerável, ligados a crenças e a superstições, a mitos, lendas e estórias. O mistério das florestas, povoadas de fantasmas e duendes, a vida e o destino de árvores, flores, ervas, raízes e frutos são elementos infrangivelmente associados à existência dos primitivos e da gente do povo. Possuem as plantas as mais diversas serventias e utilidades, umas da vida normal - alimento, casa, fogo, remédio, proteção, ornato - outras valores mágicos. O folclore vegetal é de excepcional riqueza e lhe daremos algumas indicações para a coleta que nele tiver de realizar.
A árvore do Bem e do Mal, do Paraíso, é a Árvore da Sabedoria, donde nasceu a existência. E, em vários folclores, a árvore da vida é a origem universal. Há um mito em tribo das Guianas que fala de uma tal árvore. Continha ela tudo quanto era espécie de vegetais alimentícios e foi descoberta por um tapir que se esforçou para guardar o segredo. Não o conseguiu e acabou revelando-o. Derrubou a árvore, as plantas se dispersaram pelo mundo e o seu tronco, cheio de água, inundou as terras. Em outras versões as águas estavam cheias de peixes. Estou recordando esse mito para você ver e sentir, em toda sua extensão, a importância do folclore vegetal.
O animismo, que domina a mentalidade primitiva, consiste em dar alma às coisas. É natural que os vegetais encarnem espíritos, quer em espécie, quer em conjunto: florestas, matos, capoeiras, plantações. Desde logo, para proteger a vida vegetal, existem e existiram sempre ritos de fecundação, pelos quais crê o povo que as sementes fecundarão, as colheitas serão fartas e se afastarão as pragas, os insetos, os passarinhos e bichos daninhos. As fogueiras de São João, por exemplo, são revivescências de cultos do fogo, feitos no solstício de junho, quando acreditavam que os tições atirados aos campos os fecundavam.
O folclore vegetal é um dos vastos capítulos da sabedoria popular, a que grandes mestres se têm consagrado, interpretando suas manifestações, suas formas, suas crenças e sua mítica. Os grandes símbolos etiológicos são siderais, aquáticos, animais e vegetais e, através deles, se sente como reage o espírito do povo e como a eles se condicionam várias normas do seu comportamento.
A floresta, a árvore, o arbusto, o matinho, a flor, o galho, a folha, a relva, o cipó, a raiz podem ser animados por almas desconhecidas e a imaginação primitiva e popular, além da realidade, neles vê um mundo de coisas viventes e atuantes.
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