Como vimos, cada vegetal, podemos dizer, possui o seu folclore, ou está cercado de elementos folclóricos, conforme a região, a serventia, as condições eventuais e as suas ligações com outros fatos da vida coletiva. Mas quero chamar a sua atenção para a existência de um folclore em conjunto de certas plantações de mandioca, do milho, do mate, de algodão, da borracha, do cacau, da cana-de-açúcar e muitas outras, que incluem aspetos mágicos e religiosos, quer na própria cultura, quer nas decorrências da utilização que vai ter depois. Naturalmente, quanto mais se aperfeiçoam as técnicas e se tende à mecanização agrícola, tanto mais diminuem, mas nem sempre desaparecem, porque as novas maneiras de trabalho vão criando novas mentalidades folclóricas ou reinterpretando as antigas. Como não se trata de uma pesquisa, a conversa com a gente do campo, com os roceiros, lhe dará imediatamente indicações, capazes de lhe permitirem dizer, senão quais são, ao menos que existem tais elementos a serem pesquisados. Naturalmente, deverá indicar os que tiver podido colher.
Não há no Brasil diferenciação de estações, afetando a vegetação, de sorte que o nosso povo não teve de criar explicações para o outono, quando as árvores começam a ficar peladas, para o inverno quando lhes caem as folhas, nem para a primavera quando reflorescem, fatos que se ligam ao complexo morte-ressurreição, criando um ciclo folclórico muito rico, inclusive com as festas do mês de maio, mês das flores.
Entre nós, a seca nordestina é um fenômeno de tal generalidade, que não tem modalidade particular nos vegetais, e, no tocante à geada, não conheço como a gente do povo a vê, nem sei como o povo a explica, ou a considera. Se você estiver coletando em região onde ela caia, será muito útil investigar. Conheço entretanto quadras de nordestinos, vindos para a plantação de café no Paraná, como esta
Vamos embora
Lá pro Rio de Janeiro
Corre da geada, irmão,
Vamos pra outro terreiro.
Como cada região tem seu ambiente vegetal, condicionado ao meio ecológico, só através de coletas prolongadas e continuadas poderemos conhecer o folclore vegetal do Brasil, cujos fenômenos não decorrem apenas da planta, mas de sua utilização pelo homem como alimento, matéria-prima, ornato, medicina, abrigo. Por isso são tantos os mitos e as lendas vegetais.
E o povo criou mesmo o espírito da árvore, nela incorporando ou representando, em formas vegetais, figuras humanas, como aparece na figura de Foirá, todo coberto de folhas, nos bumbas, ou em festas de colheitas em Minas Gerais. É personagem comum no folclore de vários países e com os mais variados nomes. Nos cultos africanos tem certa correspondência com Ossãe, "a dona das folhas". Resulta da afinidade profunda entre o homem primitivo e a origem dos ritos agrários, de tanta importância na vida do povo. Para ele não só o vegetal, sobretudo a árvore, tem o seu espírito, como abriga gênios hostis ou favoráveis aos destinos humanos.
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