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Folclore dos vegetais

A magia vegetal

Renato Almeida

Não tenho idéia de que exista no Brasil a dendrolatria, ou seja o culto das árvores, que haja quem as venere e lhes faça ofertas e lhes dirija súplicas, embora considerem a gameleira como árvore sagrada, pois, cortada, sua seiva vira sangue, morrendo o audacioso que nela tiver ousado tocar. Mas esse culto aos vegetais foi conhecido outrora, a tal ponto que concílios tiveram de condená-lo com veemência. No entanto, há plantas e flores que têm relações com a religião. As flores encarnadas são da devoção do Coração de Jesus, as rosas estão ligadas à Santa Terezinha, o lírio, símbolo da pureza, a São José, a flor do maracujá é roxa e tem na corola os espinhos da coroa de Jesus, porque ele a teria recebido debaixo de um pé de maracujá. E, com a feitiçaria, de forma mais direta, porque na parte religiosa tudo é símbolo, e naquela tudo é crença. Assim o dendezeiro cujo fruto, o ifó, é um orixá adivinho e é tabu, a figueira, amaldiçoada desde o tempo de Judas, onde o diabo tem assento e as feiticeiras e bruxas marcam encontros, as cajazeiras mal assombradas que mudam de lugar à meia-noite? sim, porque há também a crença de que as árvores passeiam de noite e ao sol nascer voltam para seus lugares.

Quem quiser ficar invisível deve colher a flor da figueira na meia-noite de sexta-feira santa ou o fruto da samambaia - (que não existe) - que nessa mesma hora se desprende e cai; quem deseja aprender a tocar viola duma hora para outra é ficar à meia-noite de qualquer sexta-feira debaixo da figueira que o diabo vem e ensina, porém o melhor mesmo é na sexta-feira santa.

Observe se o povo, com que estiver lidando, acredita que haja árvores boas e más, amigas e inimigas e até mesmo algumas criadas por Deus e outras obra do diabo. E se há vegetais oraculares, através dos quais as forças sobrenaturais dão avisos, entendidos pelas próprias vozes ou por uma linguagem cifrada de galhos, folhas, e flores? E outras que nos dão presságios, como é o caso do bem-me-quer, que desfolhado revela se nosso amor é correspondido ou não. E o simbolismo vegetal, de enorme riqueza, que nos diz que o lírio é a flor da pureza, as flores de laranjeira indicam a virgindade, as de cor roxa se destinam ao culto funerário? A linguagem atribuída às flores, está muito divulgada e inúmeros folhetos a explicam. Assim, o namorado para dizer uma coisa à namorada basta colocar à lapela certa flor. Ela entenderá e responderá usando uma outra e assim conversam nessa criptografia florida. E ainda os vegetais simbólicos, como a maçã e a banana. E os afrodisíacos, como o abacate e o amendoim, e os anti-afrodisíacos, como o chuchu, o coentro, além de outros que têm tais efeitos apenas por serem vistos ou cheirados.

As simpatias com os vegetais são inúmeras, inclusive aquela em que se pode passar para uma planta qualquer doença. Para curar-se de rendidura (hérnia) deve o doente riscar com uma faca nova o contorno dos pés numa casca de bananeira, quando a casca cair, sarou a rendidura. Outras vezes, a doença passada para o vegetal, acaba por matá-lo. E também o azar, há meios de transferi-lo para as plantas.

Os talismãs vegetais são muito numerosos, pois há os que resguardam da infelicidade, como a arruda, o pau de guiné, o alecrim, a alfavaca, o manjericão, e os que propiciam boa sorte, como o trevo de quatro folhas. Há o costume de se abraçar o comigo-ninguém-pode, três vezes, em jejum, a fim de que o dia nada apresente no setor de adversidade. Mas há também os que dão azar, por exemplo, a acácia ou o cipreste que ultrapassa a altura da casa. E outros que são protetores, sobretudo contra as tempestades, acreditando muita gente do povo que, abrigado debaixo de um deles, nada sofrerá, pois repelem os raios. Protegem também contra a tempestade palmas bentas do domingo de ramos, ou folhas secas que enfeitaram o altar, queimadas nas horas de trovoada.

Não vou insistir em superstições e tabus vegetais, que disso nos temos ocupado em outros capítulos e já lhe recomendei que a coleta de superstição deve ser feita em qualquer atividade que investigue. Onde, porém, precisa dar atenção, é no campo mágico que cerca os vegetais, não só nas formas de crenças religiosas, de sortilégio de vários deles, do seu aproveitamento em ritos, como ainda na própria cultura e na sua utilização particularmente alimentar.

Muitas plantações são feitas consoante velhos ritos, geralmente em processo de desagregação, mas que ainda subsistem, sobretudo naqueles que devem servir de alimento ou remédio. Por exemplo, a plantação de mandioca, em certas regiões amazônicas, se faz dentro de fórmulas mágicas, do mesmo modo a de milho e de feijão.

Verifique, portanto, se na sua região de coleta, o povo planta, semeia, ou colhe, utilizando tais processos ou se, por outro lado, faz invocações católicas, com rezas, ladainhas, aspergindo água benta nos roçados ou com bênçãos de padres ou de qualquer rezador. E quais as funções dos símbolos agrícolas? proteger contra aves e insetos, afastar os malefícios e propiciar resultados favoráveis? Veja quais são os usados na região onde coleta, chifre de boi, espantalho, ferradura, signo de Salomão? Informe se a ereção de mastros a santos tem apenas função religiosa, ou se se liga também à vida agrícola. E porque nesses mastros colocam frutos, não será para que o santo nele invocado abençoe as suas colheitas? E há o hábito de oferecer as primícias aos santos: primeiros frutos, primeiras raízes, pri¬meiras fôlhas? E se fazem procissões atravessando as plantações para abençoá-las? a que santos? Sei de Santo Isidro, veja se há outros protetores das plantações.

Muitas árvores estão cercadas de lendas e crendices, como o umbu, a seringueira, o castanheiro, a carnaúba - "árvore providência", o pinheiro, a gameleira, o jatobá, a ingazeira, o ipê, o piquiá, e tantas mais, muitas das quais você deve anotar, na sua coleta, além das frutíferas, a jaqueira, a laranjeira, para dizer como o povo as vê e de que sortilégios as faz portadoras. E o mundo das palmeiras, dos cipós, dos bambus, com tantas utilidades não só alimentares, nas primeiras basta citar o coco, como ainda artesanais, como o surucuri, a canarana, o jupati, o guaraná; as parasitas de rara beleza ou venenosas e mortíferas, a que nenhum pé de pau resiste, as plantas aquáticas, dentre todas a soberba vitória-régia, os liarbes, os cipós, os matinhos, quantos deles têm suas estórias e suas biografias populares? Muitos são medicinais, venenosos, entorpecentes, decorativos, e as flores e os frutos, alguns com destino funcional ou simbólico. Na imaginação popular é imenso o valor e o sentido do mundo vegetal, que a povoa de almas protetoras ou adversas.

Uma das árvores mais importantes, senão a mais importante, na magia vegetal, a jurema, de cujas folhas e raízes se faz uma bebida com muitos sortilégios, em todos os ritos fetichistas. Também a árvore tem poderes mágicos e ficar debaixo dela é muito significativo. Jurema se tornou mesmo sinônimo de feitiçaria, havendo várias formas decorrentes, adjunto de jurema, juremado, beber jurema, etc. Em catimbós, candomblés de caboclo, o seu uso, quer como beberagem, quer de uma de suas partes, como talismã, é comum e, quando falar de tais ritos, a cada momento você verá referência à jurema. Há versos, orações, linhas de catimbó. Numa linha de Mestre Carlos se diz:

Três dias levou caído
na raiz do juremal.
Quando ele se levantou
foi pronto pra trabalhar,
triunfando em todas as mesas.

 

(Almeida, Renato. Manual de coleta folclórica. Rio de Janeiro, Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, 1965, p.119-122)

 

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