Muito importante no mundo vegetal é o tabaco, o fumo. Os portugueses conheceram seu uso com os índios, o petum, e o chamaram delícia da terra. O padre Nóbrega o considerou um presente do céu, porque facilitava a digestão das comidas locais, difíceis de desgastar. Diziam, então, beber fumo. A história do tabaco é toda ela misturada de elementos folclóricos, mas não é do passado que temos de cuidar, e sim da sua importância na vida popular, mais variada do que na civilizada. Pode bem acontecer que haja peculiaridades no modo de dizer ou conceituar certos aspectos do fumo.
Como se sabe é utilizado em três formas. Pondo mechas na boca para mascar, que já foi muito da gente do povo no interior, mas tenho a impressão, de que cai em certo desuso, e convém verificar. As formas de fumar, em charuto ou cigarro, o cigarro de palha de fumo preto em folha de milho, é tradicional, com o seu preparo especial, que vai desde amansar a folha com o canivete até picar o fumo de rolo. E por fim, o fumo pilado, o rapé, ou torrado, que decaiu completamente em sociedade, mas ainda continua no meio do povo. Era trazido nas caixas ou bocetas, que podiam ser rústicas, de chifre, ou elegantes de prata e marfim. Se a sua região for fumageira, observe como tratam o fumo, como o secam, se o manocam, como o enrolam, bem assim o fabrico popular do charuto, do rapé e do cigarro de palha embora este cada fumante comumente o faz na hora.
Na vida familiar (não mais hoje, na cidade, em que as meninas já fumam sem escandalizar), fumar era uma espécie de iniciação; quando o pai dava o primeiro cigarro ao filho e permitia que fumasse em sua frente, era sinal de emancipação, de maioridade. No interior, por muito tempo, fumavam as senhoras, até cachimbo, ou pito, mas às escondidas. Hoje, o tabu do fumo, isto é, não se fumar diante de pessoas de respeito e em certas solenidades, vai desaparecendo nas cidades e convém verificar se, no interior, ainda perdura, mas acredito que se vai diluindo também. Em alguns cultos fetichistas, o charuto (sempre presente nos despachos), o cachimbo, a marca, têm importância, de que já falei, nos catimbós. Os cachimbos são de barro ou de taboca e há alguns de feitura artística apreciável.
Das raízes indígenas de petum, petana, petina, pitura fizemos o verbo pitar, como sinônimo de fumar.
Com tão intensa utilização na vida comum, é natural que o fumo apareça em numerosas superstições, ditados, adágios, adivinhas e quadras, sendo muito conhecida e divulgada aquela do pedinte de cigarro:
Adão foi feito de barro, amigo,
dai-me um cigarro.
a que o outro responde:
De barro foi feito Adão
amigo, não tenho não.
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