Outra planta da maior projeção na vida popular brasileira é o milho, de cultivo intenso em todo o país, com períodos diferentes de colheita e cercado das maiores implicações folclóricas. Os seus grãos são alimento, a palha serve para trançados, flores, tecidos e para mortalha de cigarro de fumo de corda, as barbas são diuréticas e a espiga, além de muitas utilidades artesanais e caseiras, é ainda elemento decorativo e simbólico, aparecendo nos mastros de santos como fator propiciatório de boas colheitas. Várias lendas explicam o aparecimento do milho, como aquela dos apinaié. Contam que uma estrela feminina desceu do firmamento para fazer companhia a um jovem viúvo. Certo dia mostrou à sogra, "uma árvore à beira do riacho que estava carregada de espigas de milho de muitas qualidades e explicou que era aquilo que os índios deviam comer, dali por diante, em lugar de pau puba". E aconselhou que abrissem uma roça e plantassem o milho, o que foi feito, enquanto a estrela que tomara forma de rã e de gambá, tendo morrido o índio por quem descera à terra, voltou para o céu.
Do que se faz com o milho para alimentação, falaremos no capítulo das Comidas e doces, aqui trataremos apenas do vegetal, que aparece em várias espécies, branco, amarelo, vermelho, pipoca, etc. Deve verificar na região as plantações de milho, que podem fornecer aspectos folclóricos, dadas as condições de seu plantio, trato e colheita, que recrutam muita gente.
Para a plantação há determinadas regras, onde superstições e crendices são incluídas. Assim, não presta olhar para trás, quando se jogam os grãos na cova, porque é atraso; quando a espiga de milho começa a ter sua palha amarelada, o "lavorista" leva uma para casa, a fim de que as restantes amadureçam mais depressa; se alguma praga ataca o pé de milho, tira-se um, que será passado na fumaça do fogão.
Durante o plantio e colheita, observa-se de um tudo, pois são contados casos, estórias, cantam-se modas, atiram-se quadrinhas, promovem desafios. Por ocasião da colheita, verifique como a fazem. Costumam escolher um pé de milho que será o depósito das espigas dos pés ao seu redor? que nome dão a ele? em São Paulo chama-se bandeira. Quando o catador entra em ação, não tem mais que se dirigir à bandeira, porquanto os demais pés, à medida que se retiram as espigas, são quebrados. Como são transportadas as espigas para o terreiro? que nome dão a quem enche os cestos e coloca no jacá, um cesto de cada vez em cada jacá, para contrabalançar o pêso no lombo do animal? Como se chama o lugar para onde é o milho transportado: tulha? paiol? Depois de recolhido todo o milho se procede à desfolha ou descasca; esse trabalho é feito por homens e mulheres? que destino dão às palhas? Como é malhado o milho: no terreiro? em estaleiro? quem procede à revisão dos sabugos (batuera, no norte) para retirar os grãos que ainda ficaram? Costumam contar o número de carreiras de grãos a fim de encontrar a de 13 carreiras, sinal de muita sorte? Como são debulhadas as espigas: com os dedos? friccionando-se com sabugo? como é abanado? Quem o ensaca? Registar não apenas o sexo mas também a idade dos que labutam nesse trabalho, pois algumas tarefas são confiadas, em certos lugares, às crianças. A moagem é feita geralmente por uma só pessoa, mas para a colheita é até costume fazer-se mutirão, com muita cantoria e comidas.
Há também uma técnica especial para se preparar o milho destinado à canjica. Em geral, colocam o milho em um pilão, cobrem-no com cinza de fogão, cerca de meio litro, depois rasga-se a palha do milho em tirinhas bem finas e coloca-se sobre a cinza e então se "chamusca" a palha com água e deixa-se em repouso uns 10 minutos para que a água penetre bem na cinza e esta possa segurar o milho para não pular muito e amolentar a casca, tornando-a mais fácil de sair. Depois de socada por algum tempo, retira-se tudo, abana-se, leva-se à bica, lava-se bem e depois deixa-se secar ao sol. Observe as denominações usadas na venda do milho: duas espigas se diz atilho no sul, e no norte, caibro; mão, 25 espigas; em São Paulo, 60 e, no Rio Grande do Sul, 64.
O milho ponteia um sem número de fatos folclóricos, e, na boca do povo, significa mesmo dinheiro. E, sobre ele, muitas adivinhas, como esta sobre a espiga:
Tem barba
Mas não tem queixo.
Tem dentes,
Mas não tem boca.
Entra em cantigas:
Coa, ouro, coa ouro,
peneira de coar ouro,
orelé,
não pode coar fubá.
Em provérbios:
de grão em grão, galinha enche o papo.
Em parlendas:
rebenta pipoca,
Maria sapiroca
filho de ferreiro,
caiu na barroca,
menino teimoso,
ladrão de paçoca.
Em brinquedos:
Tira-se o coração (parte central branca), de quatro grãos de milho, passando-se carvão nesse lugar. Cada criança escolhe um número de 1 a 4; jogam-se os grãos de milho e ganha a criança cujo número escolhido coincidir com o dos grãos que tenham a parte pintada voltada para cima. Se os quatro grãos ficam com essa parte virada para baixo, ninguém é ganhador e as crianças saem gritando:
tá tudo branco, tatu, tatu, tatu...
Em estórias:
Marcando caminho no meio da mata para as crianças não se perderem, o que aconteceu quando uma ave comeu os grãos.
Enfim, o milho está intimamente ligado à vida do homem e à sua sobrevivência e, como tal, é elemento que ressalta em certas comemorações, como as de São João, na Bahia, onde a colheita coincide com os festejos da época, quando os alimentos à base do milho se tornam característicos.
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