Folclore dos vegetais
As frutas
As frutas no Brasil, além das silvestres, constituem uma das fontes da
alimentação do povo: a banana, a jaca, a fruta-pão, a melancia, o abacate, o
mamão, o abacaxi, o coco e tantas mais; outras são regalos, para serem chupadas
ou para refrescos e sorvetes, caju, o cupuaçu, o umbu, cujo suco misturado com o
leite é tão apreciado, a laranja, etc.
A cana-de-açúcar
Não lhe vou falar da importância da cana-de-açúcar, determinante de um ciclo
na história do Brasil, e que, sendo econômico e social, também é densamente
folclórico. Não é a planta em si, é tudo que motiva, o banguê, o engenho e a
usina. É o centro da vida colonial, a casa grande e a senzala, e, além do mais,
o açúcar, alimento básico de nossa vida e de toda a doçaria. A industrialização
do fabrico do açúcar tirou à cana esse imenso prestígio popular, mas o que vem
dela e o que lhe é devido, é imenso.
O milho
Outra planta da maior projeção na vida popular brasileira é o milho, de
cultivo intenso em todo o país, com períodos diferentes de colheita e cercado
das maiores implicações folclóricas. Os seus grãos são alimento, a palha serve
para trançados, flores, tecidos e para mortalha de cigarro de fumo de corda, as
barbas são diuréticas e a espiga, além de muitas utilidades artesanais e
caseiras, é ainda elemento decorativo e simbólico, aparecendo nos mastros de
santos como fator propiciatório de boas colheitas.
O tabaco
Muito importante no mundo vegetal é o tabaco, o fumo. Os portugueses
conheceram seu uso com os índios, o petum, e o chamaram delícia da terra.
O padre Nóbrega o considerou um presente do céu, porque facilitava a digestão
das comidas locais, difíceis de desgastar. Diziam, então, beber fumo.
A erva-mate
Com a sua origem cercada de lendas, inclusive a que atribui a Sumé,
identificado com São Tomé, ter revelado sua utilidade aos índios, como aconteceu
com a mandioca. Quando os espanhóis chegaram ao Prata, pareceu-lhes que o mate
era erva do diabo, coisa viciosa e portanto condenável. Mas, viram depois que o
mate não era tão prejudicial, ao contrário, uma bebida agradável e estimulante e
podia ser também considerável fonte de renda. Talvez tivesse impressionado aos
jesuítas o folclore do mate, as crendices em seu derredor e possuir também
poderes oraculares para inspirar os feiticeiros.
O coco
Numa terra de imensos coqueirais de uma variedade incrível de cocos, é
natural que o folclore o tome como grande motivo. Desde logo é o nome de uma
dança nordestina de sapateado, de que já se falava em 1829. Dançar o coco se diz
quebrar coco. Às vezes, os versos aludem ao coco
A mandioca
Na base da alimentação de nosso povo está a mandioca e a cultura dessa raiz,
que nos ensinaram os índios, desenvolveu-se por toda parte.
O algodão
Foi Heródoto, o célebre historiador grego, que viveu no século V antes de
Cristo, quem se referiu a uma planta da Índia, que, em vez de fruto, produzia
lã, melhor do que a do carneiro, com a qual se faziam vestimentas. Essa árvore
era o algodoeiro. Ela aparece também na América, onde já era conhecida quando
chegaram os conquistadores. Os indígenas o fiavam e teciam.
A maconha
O fumo de Angola, liamba ou diamba, é a maconha, que constitui um dos mais
terríveis entorpecentes, contra o qual as autoridades sanitárias movem guerra de
morte. Teria sido trazido para o Brasil pelos negros angoleses e aqui se adaptou
no norte e nordeste.
A magia vegetal
Não tenho idéia de que exista no Brasil a dendrolatria, ou seja o culto das
árvores, que haja quem as venere e lhes faça ofertas e lhes dirija súplicas,
embora considerem a gameleira como árvore sagrada, pois, cortada, sua seiva vira
sangue, morrendo o audacioso que nela tiver ousado tocar. Mas esse culto aos
vegetais foi conhecido outrora, a tal ponto que concílios tiveram de condená-lo
com veemência.
O homem e o vegetal
No Brasil, como a terra é cheia de florestas, e há mato em toda parte, o
homem do campo tem, por assim dizer, mais intimidade com o mundo vegetal de que
em outras terras, nem por isso deixa de lhe infundir terror, tanto que muito
matuto nele não penetra sem fazer uma oração especial...
O mundo folclórico vegetal
Como vimos, cada vegetal, podemos dizer, possui o seu folclore, ou está
cercado de elementos folclóricos, conforme a região, a serventia, as condições
eventuais e as suas ligações com outros fatos da vida coletiva.
O mundo vegetal e a mentalidade primitiva
Além de constituírem uma das bases de alimentação do povo e de
serem sua mais bem sortida botica, os vegetais têm para ele importância
considerável, ligados a crenças e a superstições, a mitos, lendas e estórias. O
mistério das florestas, povoadas de fantasmas e duendes, a vida e o destino de
árvores, flores, ervas, raízes e frutos são elementos infrangivelmente
associados à existência dos primitivos e da gente do povo.
Os mitos vegetais e as lendas
São numerosos os mitos, quer referentes aos vegetais, quer à floresta, bem
assim as lendas, sobretudo as etiológicas que explicam o aparecimento de vários
deles, como mencionarei a seguir.
Plantas medicinais
Aliás, nas casas de ervas e nos curandeiros, você
encontrará não só uma grande quantidade de ervas medicinais, como ainda
aprenderá o modo de usar.