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Tema do Mês

Junho 2010 - Ano XII - nº 137

Festa joanina ou Festa junina?
Entre na quadrilha e festeje São Pedro
Bacamarteiros do Bonito
Quitutes e costumes folclóricos do mês de junho
A criança no folclore do São João
Santo Antônio: padroeiro dos namorados
Canela da serra; contribuição mineira ao folclore das festas juninas

 

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Festas Juninas

Canela da serra; contribuição mineira ao folclore das festas juninas

O professor Aires da Mata Machado Filho, que mora numa rua de professores: A rua Siderose, desde 1931, vem publicando uma série de livros de excelente aceitação.

Cronologicamente, temos Educação dos cegos no Brasil, Escrever certo (duas séries), Ortografia oficial, Problemas da língua, O negro e o garimpo em Minas Gerais, Arraial do Tijuco; cidade de Diamantina, Araxá (de parceria com Sebastião Afonseca e Silva), Em busca do termo próprio, História de Castro Alves (para crianças), Tiradentes: herói humano, Português & literatura e o mais recente, Curso de folclore, o único manual sobre o assunto existente em língua portuguesa. [1952]

Além de autor consagrado, é ainda o professor Aires da Mata Machado Filho, catedrático de Filologia românica da Faculdade de Filosofia da Universidade de Minas Gerais e professor de Filologia portuguesa, na Faculdade de Filosofia Santa Maria, da futura Universidade Católica de Minas Gerais.

E é o secretário da Comissão Mineira de Folclore, seção regional da Comissão Nacional de Folclore, do Ibecc, Instituto da Unesco.

Ninguém melhor do que ele, muito embora a existência entre nós de eminente folcloristas, como o senhor João Dornas Filho, por exemplo, para uma conversa, com intenção a entrevista (apenas por parte do repórter, esclareça-se), a respeito das festas juninas e seu folclore em Minas Gerais, principalmente.

Com esse intuito o procuramos e, frisando bem que não queria dar uma entrevista sobre o assunto, mas sim conversar sobre algumas observações que tem feito sobre essas festas populares, o professor Aires da Mata Machado Filho nos recebeu em sua residência, ou melhor, no seu escritório, uma dependência no fundo de sua casa, guardada por uma cachorrinha nervosa e agressiva que simpatizou muito com nossa calça e por certo teria ficado, entre os dentes afiados, com um souvenir de minha elegância de foca assalariado, não fosse a intervenção providencial do professor.

Mês de junho, mês de festas populares

Entre livros e mais livros, o professor Aires Filho começou:

"O mês de junho é todo ele um mês de grandes festas populares, muito do agrado dos brasileiros, urbanos ou não, festas essas centralizadas nas figuras de Santo Antônio, São João, que hoje iniciamos as comemorações, São Pedro, estendendo-se até a festa de Santana, em julho.

A parte fundamental da festa de São João é a fogueira e as naturais comidas típicas, como a batata assada, a mandioca, o mangarito com melado e as iguarias de milho com pamonha, milho cozido e assado, canjica e o corá, o delicioso mingau de milho verde, um dos melhores pratos que conheço.

Há ainda, uma outra particularidade: a sorte. O homem não resigna em viver sem saber o que virá amanhã. Daí os mais variados processos de sorte que na noite de São João, de hoje para amanhã, todo o mundo tira num anseio de esperança verdadeiramente comovedor, que seduz até os céticos e os materialistas.

Como nestas festas se reúne muita gente, natural que se cantem modas de viola, desafios em Minas Gerais, e as crianças brincam de roda, o brinquedo mais poético e inesquecível da infância de todo o brasileiro.

Já a quadrilha é uma dança de salão de influência e procedência francesa, que se adaptou ao gosto do brasileiro. O erudito promenade, por exemplo, já se batizou muito brasileiramente "caminho da roça". Tenho para mim que no interior não se dança a quadrilha nestas festas; creio mesmo tratar-se de um elemento das comemorações urbanas do São João. Todavia, os entendidos e observadores que se manifestem, pois, de minha parte ainda não cheguei a uma conclusão positiva sobre o assunto.

Como as festas juninas na Europa coincidem com o solstício de verão, desde a Antiguidade se acendem fogueiras nessas comemorações populares. Sem dúvida, que tais festas nos chegaram de Portugal, como quase tudo do nosso folclore."

Prossegue o professor Aires da Mata Machado Filho:

"Das observações que tenho feito a respeito das festas de São João, todas elas ainda na fase específica, acredito que a utilização da "canela da serra", um vegetal que possui um azeite muito próprio, perfumoso e volátil, e dá um fogo muito bonito, a utilização desse vegetal nas fogueiras me parece a única contribuição genuinamente mineira às festas de São João. O resto não varia essencialmente das comemorações das demais regiões do Brasil.

O que acontece, todavia, é que as festas juninas são as festas mais caracteristicamente brasileiras e se revestem todas elas de um espírito poético que lhes empresta uma sedução muito particular e inesquecível.

Desde meninos e a idade não nos rouba o prazer, participamos das figueiras de Santo Antônio, São João, São Pedro e Santana.

São elas, em todas as suas inúmeras variantes, uma manifestação da alma popular e por isso mesmo constituem parte intrínseca do nosso folclore que tem nelas um manancial rico e revelador de muitas características do nosso povo", terminou o professor Aires da Mata Machado Filho.

Quando deixamos sua casa, já era quase noite e a cidade toda, por todos os seus bairros e parte urbana, acendia fogueiras nos terreiros e nos lotes baldios. E estourava suas bombas e soltava seus foguetes, povoando ainda mais o estrelado céu de junho de luzes rápidas e terrenas.

("Canela da serra; contribuição mineira ao folclore das festas juninas". Tribuna de Minas. Belo Horizonte, 24 de junho de 1952)

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