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Tema do Mês

Junho 2009 - Ano XI - nº 125

Sumário

Noite de São João

Junho, o mês das tradições: fogueiras, balões e quadrilhas

Festas de junho

Bacamarteiros do Bonito

Adivinhas e tradições das festas juninas

Vida e morte da festa do povo

Santos festejados

Centelhas do folclore sulino matogrossense

 

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Festas Juninas

Centelhas do folclore sulino matogrossense

Arlinda Garcia

Passando uns tempos no sertão, em Mato Grosso, no Distrito do Ivinheima, tive o ensejo de assistir diversas festas sertanejas, dentre as quais a festa de São João, realizada na Fazenda Rego d'Água, foi a que mais interesse e atenção despertou-me.

À tarde, os convidados foram chegando. Uns chegavam de carreta, outros de carros de boi, alguns a cavalo e os moradores mais próximos chegaram a pé.

As moças – em maior número – com cabelos compridos, soltos e em cima na cabeça, ostentavam laços de fita, botões de rosa, presilhas douradas ou outros enfeites.

Por último, chegou uma turma de cavaleiros, dando uma salva de tiros de revólveres, em sinal de saudação ao dono da casa.

 Depois de desarrearem a tropa ou descansarem os bois, iam chegando até o caramanchão, aonde os convidados se iam acomodando. Em seguida, vinha o chimarrão. Umas três cuias, as quais eram entregues a três convidados para cevarem o mate.

Um pouco antes do jantar, levantaram o mastro de São João, deram vivas ao santo, acenderam a fogueira e rezaram um terço. Em seguida, todos se prepararam com novas roupas e água de cheiro, para o jantar que foi servido em uma mesa improvisada com tábuas compridas, arranjadas de modo que coubesse muitas pessoas.

Depois que todos jantaram, o sanfoneiro e dois rapazes com violão, deram início à música.

Havia também violeiros para o cateretê. E o baile foi começado.

As moças retocaram o carmim e foram entrando na sala do baile. Em dados momentos, a dança estava em plena animação. E em sala separada, dançavam o catira... O baile atingira a animação geral.

De quando em vez, um senhor gritava:

– Viva o dono da casa!

Todos respondiam:

– Vivaaaaa!

Houve a brincadeira da vassoura, do chapéu e uma dança de nome arara. Esta dança constitui de um modo gentil de cada cavalheiro e dama escolher um par, por sinal. Depois dos pares formados, um rapaz começa a dançar sozinho, mas, em seguida, bate palma perto de um dos pares que está dançando e este cede-lhe a dama, porém, procede da mesma forma que o primeiro e assim vão trocando os pares. Quando para a música, o cavalheiro que estiver sem dama é o arara, e precisa imitar, no meio do salão, o canto desta ave.

À meia-noite, foi rezado mais um terço, todo cantado e depois deste, foi posta uma mesa com doces e bolos. Havia doce de batata, de mamão, de cidra, doce de leite e arroz doce. Biscoitos de polvilho, bolo de mandioca e um gostoso bolo feito de milho saboró.

Depois da mesa de doces, quase todas as pessoas pularam a fogueira, ficando compadres, ao dizer as seguintes palavras:

São João dormiu
São João acordou
Fiquemo compadre
Que São João mandou

As moças encheram pratos com água, acenderam velas, pingando-as sobre a água, para formar as iniciais do eleito. Tiraram também a sorte com o ovo quebrado no copo de vidro cheio de água, que dizem formar uma igreja se a moça vai casar-se antes de um ano; se, no entanto, aparecer um navio, ela vai viajar; e se aparecer um caixão, é sinal que morrerá antes de haver decorrido um ano. E mais uma infinidade de sortes, que não posso precisar no momento.

Um pouco afastados, alguns falavam sobre carreira: desafiavam o compadre, para experimentar o baio ou o alazão... e a corrida ficava marcada para o próximo dia de São Pedro.

Uma comadres faziam comentários sobre o saci, dizendo que este mexia com as galinhas, com os pintinhos e com os porcos. Uma senhora chegou a afirmar que o saci assobiara três vezes no terreiro da casa de dona Felícia, na noite em que falecera o esposo desta.

O seu Rael contou a façanha da caçada de uma enorme onça pintada, que andava comendo porcos e bezerros. E o seu Teófilo contou a caçada de uma sucuri de quarenta palmos.

Alguns conversaram sobre a criação de gado e outros sobre a lavoura.

De vez em quando, saía uma turminha para tomar um trago de três tombos (pinga), a qual ficara escondida, na moita...

Quando vinha rompendo a madrugada, iniciaram o piricão. Esta é outra dança interessante. Quando os pares vão passando perto do sanfoneiro, este pára a música e o cavalheiro recita uns versos para a dama. Os namorados aproveitam a ocasião para dizer lindos versos à cabocla querida. Assim vai correndo a roda, até chegar ao último par. Depois dos cavalos é a vez das damas. Lembro-me de alguns versinhos recitados nessa festa:

Tenho meu lencinho branco
Borradinho de xadrez
Você me ama com firmeza
Ou me deixa de uma vez
Meu lenço de anhandoty
Tem as letras do a b c
Passe o tempo que passar
Eu não esqueço de você
Vou mandar fazer um barquinho
Da raiz do fedegoso
Pra tirar o meu benzinho
Da vista dos invejoso

Dançaram a quadrilha, dança muito bonita. De longe, ouvia-se: "Balancê... caminho da roça... vem a chuva..."

Dançaram também a cana verde, o engenho novo, o xote mandado e o sarandi, danças características. Em primeira e segunda voz, cantavam o sarandi:

Vamos nós ao sarandi
Vamos nós sarandiar
Vamos dar a meia volta
Outra meia vamos dar

Vamos nós ao sarandi
Vamos nós sarandiar
Vamos dar a volta inteira
Passe adiante e troque o par

E assim continuavam cantando, juntamente a outros versinhos, trocando os pares até chegar ao último par.

E o cateretê, esteve também muito animado, durante toda a noite.

De vez em quando ouvia-se um comentário:

– Eta festa batuta!

A noite foi pequena para tantas danças bonitas e interessantes.

Eu fiquei encantada com a festa e com a simplicidade daquela gente ingênua, sincera e bondosa. Tudo ali era lindo e interessante. E o luar que fazia era simplesmente maravilhoso!

Quanta beleza há nos sertões do Brasil, onde se encontra o verdadeiro Brasil, vivo, puro, com seus verdadeiros costumes e tradições. O Brasil brasileiro, com sua doce poesia.

(Garcia, Arlinda. "Centelhas do folclore sulino matogrossense". Jornal de Folclore. São Paulo, julho/agosto de 1960)

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