Santo Antônio, São Pedro e São João são os santos de devoção mais popular no Brasil. Quase todo homem que tem Antônio, Pedro ou João em seu nome, e não são poucos, sentem-se na obrigação de homenagear seus santos patronos. Além do mais, no ciclo cultural desses três santos, o seu culto divulgado e fixado através dos tempos, tomou características bem populares, nos assuntos de encontrar casamentos, em previsões para o futuro, e como proteção à viuvez.
O Dicionário do folclore brasileiro, de Luís da Câmara Cascudo, registra as origens e as formas do culto brasileiro a esses santos juninos. Diz ele que Santo Antônio de Pádua (onde morreu) e de Lisboa (onde nasceu, a 13 de junho de 1231) é o santo de devoção mais popular no Brasil. Os portugueses trouxeram ao Brasil o culto antonino. Alguns séculos depois da morte de Santo Antônio, não aparecia ainda nos devocionários alusão aos poderes do santo para aproximar os noivos. João Ribeiro, em O folclore, explicava-a por um processo de confusão verbal: o santo foi tomado como protetor contra as causas perdidas, como resultado de uma confusão entre o santo flamengo Jeron de Holanda, a quem habitualmente se recorria pela sua fama nessa especialidade policial. João Ribeiro explica ainda que esta confusão se verificou em virtude do nome dado a Santo Antônio na França: Saint Anthoine de Pave. Épaves são as coisas perdidas. Foi assim que Padova-Pádua confundiu-se com épaves, as coisas sem dono, perdidas; e o Santo Antônio de Pádua, ex-Padova, ficou sendo aquele que ajuda a encontrar as coisas perdidas, daí a passar a ser o santo casamenteiro não houve dificuldade "pois encontrar um noivo é também um milagre de paciência incrível", e assim o santo passou a ser protetor das coisas perdidas, sem dono, isto é, mulher sem marido.
As formas do culto de Santo Antônio em regiões brasileiras demonstram uma familiaridade excessiva e tão grande intimidade para com o patrono que o submetem às mais desrespeitosas práticas, é o que atesta este trecho de Pereira da Costa, no Folclore pernambucano: "As moças submetem as imagens de Santo Antônio a todos os suplícios possíveis na esperança de um rápido deferimento. (...) algumas chegam até mesmo a tirar o Menino Jesus dos braços de Santo Antônio para restituí-lo somente depois de realizado o milagre; viram o santo de cabeça para baixo, tiram-lhe o resplendor e colocam sobre a tonsura uma moeda pregada com cera; e, por fim, quando tarda o milagre, e cansadas já de tanto esperar, atam o santo com uma corda, e deitam-no dentro de um poço, o que deu lugar, de uma vez, a desaparecer a imagem, porque era de barro e derreteu-se completamente ao contato com a água."
São João, primo de Jesus Cristo, nascido a 24 de junho, seis meses antes de Jesus, "pregador de alta moral, áspero, intolerante, acético, é festejado com as alegrias transbordantes de um deus amável e dionisíaco, com farta alimentação, músicas, danças, bebidas, adivinhações para casamentos, prognósticos do futuro, anúncios de morte etc., numa convergência de vários cultos pagãos desaparecidos e de práticas inumeráveis confundidos e mantidos sob a égide de um santo católico".
São Pedro, "santo chaveiro", festejado a 29 de junho, juntamente com São
Paulo, e semelhantemente a São João. Na Bahia, os festejos são promovidos
especialmente pelos sacerdotes seculares e pelas viúvas, atendendo à tradição
popular de o santo ter enviuvado; no Rio de Janeiro, pelos marítimos, por ter
sido pescador, e por todos os Pedros deste Brasil afora.
Adivinhas de São João
Em Anúbis e outros ensaios, Luís da Câmara Cascudo registra algumas adivinhas de São João.
No Ceará, entre os usos e superstições mais comuns, está o "nome no papel".
"Em noite de São João, escrevem-se em papelitos os nomes de várias pessoas, enrolam-se os papelitos e os põem numa vasilha com água; o papel que amanhecer desenrolado indicará o nome da noiva ou do noivo."
Em Portugal, há algumas variantes desta crendice: "Os nomes são escritos
em botes de papel que, abertos, revelam o futuro. Os naviozinhos encalham diante
do nome dos Estados escritos ao redor da vasilha, indicando de onde será o noivo
ou onde residirá".
O anel no copo
Difundida por todo o Nordeste, e provavelmente Sul do Brasil, encontra-se a
superstição do anel no copo: "Em noite de São João, passa-se sobre a fogueira
um copo contendo água, mete-se no copo, sem que atinja a água, um anel de
aliança preso por um fio, e fica-se a segurar no fio; tantas são as pancadas
dadas pelo anel nas paredes do copo, quantos os anos que o experimentador terá
de esperar pelo casamento".
A clara do ovo
"Uma das mais populares adivinhações sanjoaninas em Pernambuco é a do ovo, feita à tardinha e que consiste em deitar-se a clara dentro de um copo com água até o meio, coberto com um lenço branco, tendo sobre o mesmo uma tesoura aberta, em forma de cruz, e um rosário bento, para ver-se depois da meia-noite a sorte da pessoa, segundo a imagem que a clara representar no fundo do copo. Por exemplo: se um navio, viagem próxima; uma igreja, o suspirado casamento."
Em Portugal, há variantes. "Empregam-se a cera de espermacete. Acende-se a
vela e deixa-se ir caindo num prato com água os pingos da cera que formarão
letras ou configurações do futuro: igrejas, navios, armas (luta), caixão de
defunto, ave (notícia agradável), círculos (dinheiro), etc.". Variantes são
ainda encontradas na Espanha, França, Chile, Roma etc.
O sonho da ceia
A "mesa posta" é a mais usada pela mocidade nas noites de São João, segundo os estudos realizados por Luís da Câmara Cascudo. "Uma pequena mesa forrada com uma toalha bem limpa, com talheres, pratos e copos para duas pessoas. Duas velas acesas à cabeceira da mesa, junto da qual fica a cama, onde deve dormir a pessoa que faz a adivinhação. O que tiver que suceder aparecerá no sonho, cujo cenário é a mesa".
A tradição aparece em São Paulo, no Rio de Janeiro, na França, Alemanha,
Itália e Rússia.
A sombra na água e no espelho
"É superstição espalhada no mundo inteiro a de considerar-se mau agouro
não se ver a figura refletida na água parada; na água de uma vasilha qualquer ou
um rio, açude ou lago, curvam-se os consulentes procurando divisar as feições
retratadas. Não podendo identificar-se, não verá outro São João... está
condenado à morte. (...) Um outro processo ligado ao reflexo da figura, é
o espelho. Olhando-o, à meia-noite, com uma vela na mão e rezando-se a Salve
Rainha, para mostrar o futuro noivo ou noiva. Ou o espelho é deixado no
telhado, depois de ter passado rapidamente pelas chamas da fogueira de São João,
e consultado no meio-dia seguinte ou na meia-noite imediata. Naturalmente, as
datas variam."
Com os vegetais
"Todos os folcloristas brasileiros têm registrado entre as adivinhações da véspera e noite de São João, aquelas que se relacionam com vegetais de rápido crescimento. O alho se planta nas vésperas, para verificar se, ao meio-dia seguinte, grelou. Então, a resposta à consulta feita é um sim, se estiver como dantes é um não. Assim como grãos de milho; galhos verdes passados às chamas das fogueiras são atirados para o telhado. Se estiverem verdes no dia imediato, sim, se murchos, não."
"... Busca-se colher uma pimenta, ou folhas de qualquer vegetal no escuro.
Se tirar folha ou pimenta verde, o noivo é moço. Se for folha murcha e pimenta
vermelha, o noivo é de além dos 30. Se folha seca e pimenta murcha, o noivo é um
velho."
O cerimonial de Santo Antônio
A Igreja Católica desenvolveu um cerimonial para a festa de Santo Antônio que consiste em missas solenes, com sermão, procissão e entrega do pão bento.
A entrega do pão bento é uma devoção que a crença popular, por extensão, levou a acreditar que propiciava os casamentos. A origem dessa prática religiosa, segundo informações obtidas na igreja de Santo Antônio, remonta à época mesma de Santo Antônio, em virtude de um milagre registrado pelo bispo de Trequier, na Vida de Santo Antônio. Uma criança de vinte meses de idade, de nome Tomé, brincando perto da basílica do santo, em obras nessa ocasião, caiu num reservatório de água que lá havia e se afogou. Sua mãe, lembrando-se dos milagres de Santo Antônio, prometeu dar aos pobres, em honra do santo, tanto trigo quanto era o peso da criança, se o santo a restituísse viva. O milagre realizado, a mãe cumpriu sua promessa, e deste modo teve começo a devoção do pondus pueri, ou pão dos pobres, atualmente.