Junho, que está a nos bater a porta, era um mês alegre e movimentado, principalmente para as gentes humildes e pobres do interior. São João, Santo Antônio e São Pedro eram festejados com pouco respeito, com muita algazarra. Certa feita, escrevi assim sobre as festas juninas: "Noites de junho! Enquanto a fogueira, crepitando, ilumina o terreiro, espetadas em cabos de vassouras, no peitoril da varanda, nos moirões das porteiras, giram os discos de fogo das rodinhas, enchendo o espaço de estrelinhas vermelhas. E os busca-pés inconvenientes, ziguezagueando pelo chão, não raro vão se esconder debaixo das saias das mulheres, que fogem soltando gritos.
A uma certa hora, todos se reúnem junto ao mastro que se vai levantar, beijam a efígie do santo pintado na bandeira e, enquanto os homens começam a suspendê-lo, ressoam os vivas de todos os lados. E o foguetório explode ao ar. Fixado o mastro no chão, socada bem a terra, inicia-se de novo a agitação festiva. Numa grande roda, no terreiro varrido, homens e mulheres, alternadamente, passeiam acompanhando a cadência do rasgado das violas. O violeiro, que puxa a fieira, gingando o corpo em passos floreados, acompanhando o ritmo da música, no que é imitado por todos os pares, tira então o recortado cantando sozinho os dois primeiros versos:
Toma este botão de rosa
Põe no teu peito dourado
Ai, ai...
Terminado o canto do violeiro, cada cavalheiro, em frente a seu par, faz-lhe uma mesura e finge que vai sair da roda, mas volta logo a seu lugar, para iniciar o sapateado, que termina conforme a preferência de cada um, ou numa mesura, a pequena distância, ou numa umbigada de rachar; no momento mesmo em que todos os figurantes repetem as sentidas interjeições do canto. E, numa voz muito fina, entoada mas destoante das outras, cantando mais alto que as outras vozes, ficava, depois, sozinha, modulando um ai prolongado, que só terminava quando o violeiro entrava a cantar um novo verso e recomeçava o passeio.