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Festas Juninas

Quitutes e costumes folclóricos do mês de junho

Elizabeth Resende Ribeiro de Paiva

Quentão caipira

Para cada dois litros de cachaça, dois copos de água, açúcar redondo ou mascavo, gengibre, a casca de meia laranja, a casca de meio limão galego, cravo e canela. Deixe ferver 15 minutos. E pronto! Mais forte ou menos, como você quiser, para alegrar o pessoal.

*

Muitos gostam de dançar quadrilha. Muitos apreciam pular fogueira. Mas todos, moços e moças, estão esperando pelas sortes como estas:

Ramo de manjerona

É sorte tão antiga que o curioso barão de Studart encontrou praticada e apreciada em suas viagens pelo interior. A moça toma na mão esquerda um ramo bento de manjerona e vai sapecá-lo na fogueira, com as folhas ainda crepitando, atira para cima do telhado da cozinha. Pela manhã vai espiar. Se o ramo estiver ainda verdelengo, casamento pela frente antes que a planta da manjerona seque. Se o ramo murchou... não se casará ou se casará com velho.

Papelzinho enrolado

Com um nome escrito dentro pode ajudar muito na identificação do futuro marido. A moça escreve em pedacinhos de papel branco os nomes dos "frangos que estão debaixo de sua peneira", quer dizer, dos prováveis candidatos. Enrola com carinho e fé os papéis e deposita todos eles em lugar exposto ao sereno. Pela manhã bem cedo, vai ver qual o papel está mais desenrolado. Que nome diz Roque, Pedro, Murilo, Sebastião? Pois é esse o fulano que deve ser acossado, pois é o que, segundo São João, oferece maiores possibilidades.

Pessoal! chega de tirar sorte. Vamos lavar os pés para ter sorte durante o ano. Não precisa nem ter rio por perto. Um terreno ladrilhado serve? Um trecho? Está bem. Seja o que for. Fiquem descalços. Formem fila: moças à frente, rapazes atrás. É só passar dentro d'água. Comecem a cantar, cantando a canção secular e querida:

Vamos, vamos
Toca a marchar
N'água de São João
Vamos nos lavar
Capelinha de melão
É de São João
É de cravos, é de rosas
É de manjericão

Cantam com seu cravo, ou rosa, ou ramo de manjericão para deixar dentro d'água, em troca de boa sorte durante o ano:

São João, São João
Batista batizador
No ano que aí vem
Afaste de mim a dor

Molham os pés´, pisam três vezes com cada pé (à moda de quem marca passo deixa cair a sua flor ou ramo de manjericão e sai do outro lado cantarolando:

Obrigado, meu São João
Pela glória deste dia
Tenha muitos de alegria
Sempre em vossa companhia

Por fim, que alegria e festança também cansam, a coisa esfria. E o povo vai saindo. Por arremate, os homens risoteam das moças que não tiraram boa sorte. Essa brincadeira vem de longe. Está nesse carinho:

Oilalá, ei-la-ri-láááá
Não casará, não casarááááá
Não casará, não senhora
Quem tanto casar porfia
Terá por pena a caipora
De ficar para titia!!!

*

Mandioca quente

Meio quilo de mandioca picadinha bem cosida e esmagada, dois ovos (há quem ponha só as gemas), salzinho, tiquinho de pimenta, colher das de chá de manteiga, mãozinha de queijo ralado. Misture bem. Na gordura quente, frite em colheradas. Salpique com uma misturinha de açúcar e canela.

É só cheirar e o povo todo. Limparam as travessas? Beberam umas tantas goladas, agora: Oi lá vocês que comeram e beberam. É hora do responso. Vamos, venham todos, quem tem coisa para pedir, quem tem coisa para agradecer...

Ah! Responso de Santo Antônio. Não pode faltar em nenhuma festa. Milagres e Mui antigo responso de Julião de Spira. Com fé, minha gente. Com muita fé, que ele diz assim:

Diz o dono da casa e da festa:
Quem milagres quer dar
Contra os males do demônio
Busque logo Santo Antônio
Que só o há de encontrar

Diz a dona da casa e da festa:
Acalma a fúria do mar
Tira os presos da prisão

Todos:
Acalma a fúria do mar
Tira os presos da prisão

A dona:
O doente torna são

Todos:
O perdido faz achar

A dona:
E sem respeitar os anos

Todos
Socorre a qualquer idade

A dona:
Seja novato ou decano

Todos:
Cá na roça ou na cidade

A dona faz bis e o povo também. Depois, um terço, as invocações, os vivas! E uma corrida da gente entre as moças que servem o pé-de-moleque, a cocada, os doces de batata, de cidra, de sei lá mais o que.

Bateram o queixo, limparam bandejas. Você que é festeira, dê o grito:

– Escutem, escutem que a hora da sorte chegou. "Homem com homem, mulher com mulher. Hoje é hoje, amanhã. Faca sem ponta, galinha de pé!" Vamos ver o que o santo diz para quem lhe fizer pergunta. Ponha as moças à esquerda do mastro e os moços à direita.

As moças têm direito a uma "oração secreta". Fórmula muito antiga, muito boa, vem lá do Nordeste, onde faz efeitos desde os tempos da escravidão, quando Santo Antônio, por causa de ajudar a encontrar os perdidos, era muito invocado pelos capitães-do-mato mandados à procura dos negros fugidos. Os negros também pediam a Santo Antônio que os livrassem dos perseguidores.

E daí, meu santo? Pois o santo ficou sendo invocado também como Santo Antônio dos cativos:

"Meu Santo Antônio dos Cativos, vós que sois um amarrador certo, amarrai por vosso amor, quem de mim quer fugir. Empenhai o vosso hábito e o vosso santo cordão, como algemas fortes e duros grilhões, para que façam impedir os passos de Fulano, que de mim quer fugir; e fazei, oh, meu bem-aventurado Santo Antônio, que ele case comigo, já, sem demora!"

Lá no outro lado, em ritmo saltitante, os moços dizem:

Meu Santo Antônio
Eu te darei um vintém
Se me mandares a moça que eu quero bem

E elas, de cá:

Meu Santo Antônio querido
Eu vos peço por quem sois
Dai-me o primeiro marido
Outros eu arranjo depois

E eles, meio de olho em alguma de entre elas:

Santo Antônio de Lisboa
Feito de ninho de lei
O bom santo me perdoa
Os beijos que ainda não dei

E elas, fazendo de conta que não entenderam:

Meu Santo Antônio adorado
Acaba de me contar
Que em amor não há pecado
Que pecado é não amar

Agora é o momento do pinhão cozido, da pipoca, do quentão feito de novo, da mandioca cozida com açúcar, meio que nadando em melado. E quando terminar a festa, com o último casal amigo, reúna os que o ajudaram, vá para fora da casa, ponha todos a olhar para dentro, encoste as folhas da porta e vá dizendo com o pessoal, em coro:

O povo foi-se embora mas voltou
Abri-vos portas e portais
Por onde Santo Antônio entrou
Há de entrar muito mais

E espera o dia de São João para outra festa. Bem antes, finque no lugar da figueira próxima uma vara tendo um limão espetado. É aviso divino de festança.

Pra árvore dar mais frutas e mais doces, o bom é fazer assim: na véspera, dentre os carvões da fogueira do ano passado, escolha o maior e trace com ele uma cruz em cada árvore que deseje "açucarar". Depois, em cada ponta da cruz, crave um prego. É resultado garantido.

Já se sabe: diz o caboclo: "Em festa de João, não se falte o quentão". Pois sendo assim, toca a fazer quentão. Com esta receita, provada vai pra séculos no sul do país.

 

(Paiva, Elizabeth Resende Ribeiro de. "Quitutes e costumes folclóricos do mês de junho". A Tarde. Juiz de Fora, 23 de setembro de 1968)

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