De todos os santos que a igreja nos conta a história, o mais simpático eu acho que é mesmo este. Deve ser porque encontramos em São Pedro um pouco desse muito que somos nós mesmos, isto é, o medo, a covardia, a fraqueza da carne – "o espírito é forte, mas a carne é fraca", Jesus disse referindo-se, naturalmente, ao apóstolo querido desculpando-o de antemão pelo que viesse a fazer. E é bom pensar que a nós também se aplica.
Mas se gostávamos de São Pedro antes, então, depois da vitória de nossa gente em Estocolmo, no dia que é seu, por ordem e graça sua – e perícia dos nossos, afinal! – o santo entrou de vez no coração dos brasileiros. De ano para ano, percebe-se que São João, o belo e jovem, com o seu gracioso carneirinho de olhar criança, está sendo deixado de lado. Santo Antônio, então, ou porque não tem podido atender aos "pedidos especiais", devido à crise de maridos, ou porque realmente perdeu prestígio com o advento dos correios sentimentais de algumas revistas, no seu dia nem recebe mais balão. Já com São Pedro, o mês se acabando, as barracas de fogos desanimando já com o encalhe do estoque, tudo muda. E os balõezinhos fagueiros principiam a subir. E é baile de todo lado, e é festa pra todo canto.
Neste ano, entre as já programadas de outros anos e algumas novidades, tivemos o São Pedro na floresta. Não matinho deixado pela prefeitura, não jardim abandonado, não pomar de sítio ou fazenda. Floresta mesmo. Escuridão grande, barulho surdo de natureza bruta que se sente violada, no meio da floresta a casa, e à frente da casa a fogueira. Bonita, alegre, barulhenta. A festa foi organizada pela revista Leitura e toda gente estava lá. Isto é, a mim pareceu isso, a princípio, mas depois notei que faltavam alguns. Gente grande e gente miúda, os que lá foram para se divertir e os que não sabiam direito porque tinham ido. Chegou-se de ônibus especial, e ao descer, trazendo aquela expectativa excitada a se derramar pelos olhos e pelas risadas sem motivo, encontrou-se a mesma expectativa festiva nos que já se haviam antecipado.
Escritores, jornalistas, artistas e outras pessoas de ar bastante despreocupado e satisfeito para pertencerem a qualquer dessas castas. E eu. Até eu. Houve encontros bonitos como o do efusivo e simpático ator Ferreira Maia, com os amigos de ontem e de sempre, e lá estavam mestre Grieco, o sempre moço Agripino, de espírito malicioso, a lembrar coisas – "era um orador que trazia o auditório preso à sua palavra, no verdadeiro sentido da palavra" – e Osório Borba, candidato a vereador, a sondar seu próximo eleitorado, político sem promessas e sem slogan, oferecendo apenas a sua honestidade e o seu civismo combativo, sem grande esperança de que isso interesse ainda ao nosso povo, e Lia Corrêa Dutra a fazer rir com os fatos "que não pode contar", e Djanira, a de riso simples, anunciando sua próxima exposição no Museu de Arte Moderna, e a procurar à volta... o que, Djanira? E outros mais, muitos outros, e quase no final, Eneida, a alegre, a simpaticíssima, a grande Eneida, a chegar apressada, atrasada, ansiosa para comemorar alguma coisa – "onde se acha uísque por aqui?".
Lá fora, o quentão fazendo a noite menos fria e dando vontade de dançar à moçada. "Festa de São pedro sem dança, já se viu?" A noite chegando pra espiar e ficando, os fogos furando irreverentes a grandeza daquele silêncio de floresta, a festa mais gostosa, com a escuridão e a música. Quentão outra vez, milho verde, cuscuz, canjica, bolo de milho e doce de coco.
E chega, afinal, o bumba-meu-boi. Ritmo doido a entrar pela pele, varando camadas de civilização e cultura, chegando até a gota de sangue africano dos mestiços europeizados. Brasileiro que é brasileiro não fica parado com um ritmo desses. Nem que seja um pé a bater disfarçadamente ou um ombro teimoso ou uns dedos marcando tempo. Em pouco, já não são só os bailarinos do bumba-meu-boi dando o espetáculo. É todo o mundo. Ou quase todo o mundo. Mas lá vem o alto-falante a chamar a atenção sobre aquilo, tão brasileiramente sem educação, e recomeça a dança folclórica, bela, marcada por batidas de pandeiro e sacolejos de quadris. O fogo, também ele brasileiro, se põe a requebrar, soltando fagulhas maneiroso, dengoso, como se fosse mulher, e mulher dançando ao som de batuque.
"Ê! Lá vem o boi! O boi!" Tudo é dança e requebrado no meio da floresta. Viva São Pedro!
Aquela rapaziada, há pouco chegada de todos os pontos da América Central e América do Sul, elogiava surpresa – "Tipico brasileno, no?" E os de casa, orgulhosos, a dizerem que é a alma da gente, a beleza da gente. Convida de de honra, uma lua gordinha e branca passeava, céu a fora, provocando os poetas porventura presentes à festa. Explicou Barbosa Melo, organizador do programa, que encomendara uma lua, mas não a esperava tão linda assim; modestamente, teria se conformado até com um quarto-crescente, e lhe havia aparecido "aquilo", aquele "colosso de lua". E ria orgulhoso.
Depois, era preciso ir embora, que o frio chegava, a fogueira, cansada de requebrados, enlanguescia, o quentão acabara. Só o bumba-meu-boi continuava noite e floresta a dentro, marcando batuque. "Ê, boi!" Fomos saindo já com saudade. Agripino Grieco levado pela esposa, medrosa do frio. "É preciso chegar com saúde às bodas de ouro!" Osório Borba, feliz porque encontrara tanta gente amiga, e ouvira aquela batida do bumba-meu-boi."Do Maranhão! Do legítimo!" Floresta abaixo, lua acompanhando a gente até onde as luzes principiavam. A cidade também festejava São Pedro, com bombas e balões. Mas não tão bonito!
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