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Festas Juninas

Conversando com Santo Antônio

Hildegardes Viana

Meu glorioso Santo Antônio, pobre santo que ainda não saístes da moda porque antigüidade é posto, tão injustamente esquecido pelos magos da publicidade — como é que te sentes no dia de hoje, quando quase que te não festejam? Quem te viu e quem te vê! Será que já não fazes mais milagres, já não casas moçoilas com a facilidade antiga, já não és chamado a praticar milagres em Lisboa, França e Itália? Ou será que o crescimento assustador das agências matrimoniais e a perícia sempre maior dos detetives particulares diminuem teu prestígio? Afinal o mundo está ficando com um número bem reduzido de coisas impossíveis.

Nos outros tempos como teu dia era esplêndido! Lembraste? O comércio retalhista da cidade alta era quase todo de portugueses. Em cada tulha, venda ou taverna, quiosque ou padaria, fosse lá onde fosse, lá estavas como santo milagroso, como senhor absoluto. Pequeno ou grande, rico com redoma e peanha, pobres sem resplendor, em vulto ou registro, bem ou mal esculpido, de burel novo ou velho. primorosa ou toscamente encarnado, lá estavas no alto de uma prateleira com honras de soberano. Também nos lares tinhas teu lugar reservado. Para os corações eras o alívio anistiado.

Com a aproximação da tua trezena começava a faina dos preparativos. Enrolar arame, cortar papel fino, escrespar pétalas e pétalas, armar flores. Os ramos vistosos e as indefectíveis guirlandas de "passinhas", que iam surgindo rubras ou róseas, formavam a base da tua ornamentação. Enquanto mãos hábeis recortavam folhetos ou bordavam mimosas toalhinhas, lá no céu esperavas, sorrindo, o momento de receber os cânticos e as preces dos devotos bem amados. Tal como Santa Luzia e Nossa Senhora do Carmo, terias o teu dia feriado e pão-de-ló, tomado molhado em bom vinho do porto servindo a mancheias. Sorrias, vendo multiplicarem-se os pãezinhos, que, depois de bentos, seriam distribuídos e guardados por criaturas crédulas que julgavam fosse ele a melhor garantia para a permanente fartura.

O teu 13 de junho era um dia rendoso para padres, maestros e fogueteiros... As missas cantadas eram disputadas a peso de ouro. Mesmo os unhas de fome descobriam compensação em trocar o amado dinheiro por louvores à tua glória. Toda a cidade se escovava e até os canteiros nauseabundos das tavernas passavam por um arremedo de asseio. Quanto incenso e quanto bendito! Lembras-te quando te roubavam o filho? Hoje em dia, telefonar ao namorado arrufado dispensa teus préstimos. É mais prático e mais decisivo.

Mas, quanta alegria espalhavas, como o pessoal ficava feliz! Até aqueles chamados músicos — barbeiros ou melhor aqueles negros barbeiros, que tocavam de ouvido numa atroadora filarmônica. Como ficavam contentes com os contratos sobrando e as algibeiras abarrotadas. Eram indispensáveis ao brilhantismo das tuas missas festivas e das funções transbordantes de animação. Quanta festa foi transferida por não ter quem tocasse!

Quanta coisa te pediam! Coisas absurdas, ingênuas e inalcançáveis! A muitos davas esperanças e a alguns a realização milagrosa de um sonho tido como loucura. Também a quantos desenganastes! Deixastes muita moça solteirona, muita coisa perdida e umas tantas petições em suspenso.

Mesmo Luís Parola, oportuno como sempre reclamou um dia, num Cantando e rindo que te dedicou, a protelação a uma súplica de pobres habitantes de um bairro abandonado pelos governos:

Entre os milagres, santo milagroso
Que és chamado a fazer nesta Bahia
Há um julgado incrível de espantoso
Endireitar-se a tua freguesia!

Sim. A freguesia de Santo Antônio continua a esperar o milagre até hoje num mundo cada vez pior. Outros que pediram coisas irrealizáveis continuam em trezenas fervorosas a aguardar o dia em que intercederás. Os que rezam apenas pelo maquinal rezar, pelo hábito de mover os lábios e curvar os joelhos, nem sabem que lhes não dás atenção pois as suas preces nunca vão além do céu da boca. Todos te adoram, no íntimo entretanto. Até mesmo os que devem promessas e não pagam. É que o mundo hoje é tão complicado, há tanta gente ocupada consigo mesma, que tudo vai sendo deixado para depois. Ainda voltarás a ter o teu dia feriado e todas as dívidas serão pagas. Caso contrário, o jeito é te conformares, meu santo venerando. És bondoso e compreensivo. Sabes perfeitamente e melhor que ninguém: dentre os muitos que pedem, bem poucos são os que agradecem.

 

(Viana, Hildegardes. "Conversando com Santo Antônio". A Tarde. Salvador, 14 de junho de 1956)

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