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Tema do Mês

Junho 2007 - Ano IX - nº 101

Sumário

Fogos e balões, encantamento das festas

Conversando com Santo Antônio

São Pedro na floresta

Quitutes e costumes folclóricos do mês de junho

Folclore capixaba: Sortes de São João

Textos publicados nas edições anteriores

 

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Festas Juninas

Fogos e balões, encantamento das festas

Rossini Tavares de Lima

Os fogos, popularmente chamados joaninos, porque são pertinentes ao ciclo de São João e apenas por extensão utilizados em outras festividades do mês, fora do ciclo, o qual se encerra em São Pedro, e neles integramos o balão, hoje inexplicavelmente proibido por ser acusado de provocador de incêndios, talvez possam ser justificados pela teoria profilática. Primitivamente, teriam a finalidade de destruir influências malsãs do período e através desta destruição proteger os habitantes e a natureza de certo lugar. O próprio Frazer chegou a declarar que aqueles povos que possuem ritos e cerimônias relacionadas ao fogo costumam expressar freqüentemente e com maior força a teoria purificatória. Também, Westermarck, ao mencionar as rodas inflamadas, observadas em Marrocos, na noite de São João, as explica como destinadas a afastar influências malignas.

Em conseqüência, assim interpretamos também, quanto à origem, os fogos usados nas festas de junho que são, principalmente, por tradição, no estado de São Paulo, conforme as nossas investigações, os traques, buscapés, rodinhas, pistolões, limalhas, estrelinhas, bombinhas, fósforos-de-cor, chuvas de ouro e prata. E ainda os balões, vistos como luzinhas lá em cima, no ar, enfeitando maravilhosamente os céus, nas noites de Santo Antônio, São João e São Pedro.

*

Ultimamente, os fogos são todos os quase todos de fabricação industrial e, portanto, não por si mesmos, mas apenas em ação podem ser situados dentro do folclore. O mesmo não acontece com os balões, quase todos, em especial nos bairros mais afastados nos grandes centros e cidades do interior, feitos pelo povo e participando, dessa maneira, como artesanato, da cultura espontânea. E por isto, a eles vamos dedicar algumas considerações, baseadas em dados que recolhemos em pesquisas realizadas em 1953 e 1954.

Formas de balões

Quanto à confecção, os balões podem ser de papel de seda e ainda de embrulho e, mais raramente, de papel manteiga. A cor depende do gosto; uns dão preferência a balões de uma só cor; outros, de diversas cores e há balões com cores de clubes e bandeiras. Predominam, no entanto, o vermelho, azul e branco.

Segundo a forma, são mais comuns os balões almofada, pião, mexerica, triângulo, careca de padre, caixa, charuto, Santos Dumont. Para fazer o almofada, toma-se a folha de papel deitada e dobra-se na metade e a seguir, em diagonal. Cortando-se, então, obtém-se dois triângulos, que grudados pelo lado que faz ângulo reto vão constituir a parte superior do gomo, o qual se completa com a colagem do triângulo que restou. O almofada possui quatro gomos ou lados, colados pela extremidade.

O pião faz-se de maneira mais ou menos semelhante, coma diferença de que a folha de papel será dobrada em pé e depois em diagonal e que possui cinco ou seis gomos. O mexerica tem o mesmo processo de confecção que o pião e apresenta oito gomos. O triângulo é idêntico ao almofada, com três gomos. Careca de padre é feito, na parte inferior, como o pião, e na superior, da mesma maneira, mas com três quartos de uma folha de papel; pode apresentar quatro gomos e na parte inferior e superior é realizado como o almofada, mas ao invés de unirmos as duas partes, como nas anteriores, intercalamos entre elas uma folha de papel sem cortar. O charuto tem seis gomos e diferencia-se do caixa por ter maior altura e menor largura e seis gomos em lugar de quatro. Afinal, o Santos Dumont não passa de um pião em que cada gomo é feito com folha e meia de papel e a boca no centro.

São mais raros os balões cruz, estrela, barrica e com formatos de diversos animais: elefante, cavalo, peixe etc.

Colagem dos gomos

Para colar o papel usa-se a goma arábica, o grude de farinha de trigo diluída em água, à qual, às vezes, se aquece ao fogo ou adiciona-se vinagre. Também pode-se utilizar o grude de polvilho doce. Mistura-se o polvilho com água fria, mexe-se bem e leva-se ao fogo, aí deixando até que entre em ebulição. Quando a mistura se transforma em pasta não muito dura, coloca-se nela um pouco de vinagre. Na falta desses ingredientes, a colagem se faz com sabão, arroz cozido etc. Para efetuá-la, coloca-se gomo sobre o outro, deixando-se naquele que fica em baixo, o espaço de cinco milímetros ou pouco mais, conforme o tamanho do balão. A seguir, passa-se a cola naquele espaço e dobra-se sobre o gomo que se acha por cima. Quando o balão é muito grande, costumam pôr tiras de barbante entre as emendas, com a finalidade de reforçá-las.

Boca e tocha ou mecha

Terminada a feitura do balão, amarra-se uma das extremidades, e na outra cuida-se da colocação da boca, isto é, do círculo ou quadrado de arame. de acordo com o tamanho do balão, varia a espessura do arame e, às vezes, usam-se até arcos de barril. As bocas apresentam um ou mais arames atravessados, onde se fixam, na parte central, a mecha ou tocha.

A tocha ou mecha é confeccionada, no geral, com pedaços de saco de estopa, mas na falta desse material utiliza-se qualquer pedaço de pano. O pano ou estopa é cortado em tiras e mergulhado em uma solução de cera, sebo, breu, borracha, que são derretidos em uma vasilha. Depois de embebido, é posto a secar e só então dobrado e enrolado, formando uma espécie de canudo que, por vezes, pode ser amarrado a outro com um arame bem fino, formando uma cruz. Pronta a mecha, é mergulhada em querosene, álcool, gasolina ou outro líquido inflamável e, a seguir, colocada na parte de dentro do balão, presa à boca por meio de um arame da mesma espessura do usado na feitura da mesma. A mecha ou tocha deve ser feita de acordo com o tamanho do balão e quando este é muito grande, confecciona-se antes uma mecha pequena que acesa tem a finalidade de enchê-lo de fumaça, para só depois acender-se a definitiva. Alguns acham que o canudo da tocha ou mecha deve ficar deitado para os balões caixa, almofada, mexerica, Santos Dumont; e de pé, para o pião, careca de padre etc.

Subida e queda

Para soltar o balão, uma pessoa é designada para segurar a extremidade superior e outras para pegarem nos lugares de interseção dos gomos. A seguir, uma outra fica de cócoras ou simplesmente se abaixa, verifica se a tocha não está frouxa e depois de concluir que está tudo em ordem, acende-a. Aos poucos, o balão enche-se de fumaça e distende os gomos, não demorando a ficar mais leve que o ar e com um pequeno empurrão sobe, no que é acompanhado de vivas, palmas e arrebentar de bombas, traques e foguetes. E todos que participam da soltura, ficam seguindo o balão com os olhos, até que desapareça como um pontinho só no céu. 

Depois que o balão subiu, outro momento de entusiasmo e alegria para a meninada, os moços e até para os velhos é o da sua queda. Armados de paus de vassoura ou taquara, ao notar que ele está caindo como chumbo, todos saem correndo para pegá-lo. Mas, na queda é raro o balão que fica inteiro, porque no geral aqueles que não puderam alcançá-lo, arremessam-lhe pedras, pedaços de tijolos e mesmo os paus de vassoura, acabando por rasgá-lo. E logo saem à procura de outro "chumbo" que parece vir lá do céu.

 

Nota dos editores:

A Lei 9.605/98, no artigo 42, proíbe transporte, fabricação e soltura de balões. Se um balão for solto em festa, o responsável pelo evento responderá de acordo com a Lei de Crimes Ambientais. A pena pode variar de um a três anos de detenção e multa. Provocar incêndio em mata ou floresta também é crime conforme a Lei Estadual 9.605/98. A pena varia de dois a quatro anos, se for em parque. Já em reserva ecológica ou área de proteção ambiental, a pena pode aumentar.

(Lima, Rossini Tavares de. "Fogos e balões, encantamento das festas". A Gazeta. São Paulo, 02 de junho de 1962, primeiro caderno, p.8)

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