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Tema do Mês

Julho 2010 - Ano XII - nº 138

Introdução à congada
Congado (1)
Congado (2)
Congado (3)
Congado (4)
Os congos, congadas, congado ou gongada
Uma tradição em Minas Gerais

 

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Congadas

Introdução à congada

Uma das formas mais típicas do nosso folclore é a congada. A congada é geralmente um misto de tradições cristãs, rica em ensinamentos de catequese, de tradições pagãs e de fetichismo africano. As danças africanas, trazidas para o Brasil pelos escravos vindos de diversos pontos da África — Congo, Guiné, Moçambique, Angola — eram danças guerreiras na sua maior parte. No Brasil, os missionários católicos conseguiram conservar estas danças guerreiras e batizaram-nas introduzindo elementos de cristianismo, colaborando assim para a preservação e transformação do valioso folclore negro.

Os escravos, que na sociedade colonial constituíam-se simples instrumento de trabalho, tinham, graças à influência da igreja, a permissão de comemorar certos dias do ano, com festas. Estes dias eram comemorados com a congada, permitida pelos patrões e pela igreja, e com a macumba, condenada pelos patrões e pelos padres.

O batuque, dança erótica, recebeu a condenação da igreja e a congada foi por ela prestigiada. Na congada, o seu participante integrava uma confraria religiosa. O negro, que é menos individualista do que o branco, procurou sempre associar-se, formar grupo de cooperação. Formavam grupos que, às vezes, se desentendiam, como acontecia com os congos e moçambiques, disputando sempre; daí nunca terem o mesmo lugar na procissão. Os negros eram colocados no começo dos cortejos religiosos, ao lado dos meninos, costume que deu origem à seguinte crença: "Não vindo a irmandade de São Benedito à frente é chuva na certa".

Como diz Alceu Maynard Araújo, a razão de ser da congada no passado era transferir, sublimar o instinto guerreiro do negro em fator criador, religioso: negro cristão versus negro pagão. Sublimada a atitude guerreira do negro era ao mesmo tempo uma defesa para o branco. Deste ele tinha ressentimentos que se traduziam pela agressividade. Unindo-se os negros, podiam fazer valer seus direitos. Ainda hoje é o espírito de solidariedade dos negros que faz com que sejam conservadas as danças, como a congada.

No início da congada, os grupos que tomam parte começam cantando:

Que hora tão bonita
Nosso batalhão chegou
Pra festejar o Senhor Divino
Que o festeiro convidou, ai, ai

Como se vê pelos dizeres, a congada festeja o Divino Espírito Santo.

Depois continuam:

Eu quero pedir licença
Pro meu batalhão dançar
Pro senhor dono da casa
E pro povo deste lugar

Viremos de lá, viremos de cá
Meu Senhor Divino, viemos festejar

O desfile da congada começa nas primeiras horas da manhã, estando a cidade toda em festa. A congada é uma espécie de teatro de rua, reunindo muitas tradições mouras e cristãs.

O padroeiro da congada é São Benedito:

O marinheiro coração de alegria
Deus é nosso pai
São Benedito é nosso guia
Lançai sua santa bênção
Nesta hora e neste dia
Alegrai seu coração
De quem tem melancolia, ai, ai

Desde cedo também se canta o canto dos congueiros:

O sol já vai saindo
Lumiando o mundo inteiro
Lumiou o Senhor Divino
E os sinhô que são festeiro

O povo da cidade:

Todo este povo daqui
Alerta o seu ouvido
Sai na janela ouvi
Preste bem atenção
No que os Periquito diz
O povo brasileiro
Deve de adorar o Brasil

Brasil adorado
Brasil querido
É a terra abençoada
Da Senhora Aparecida

Mãe gloriosa
Mãe concebida
Seja nossa advogada
Nesta e na outra vida

Marinheiro dança nesta ocasião
Marinheiro abaixa rente c'o chão
Levanta pra riba, meu batalhão
Os marinheiro são de proteção
Nós semo devoto de São João

O marinheiro
Vai cantando e vai pedindo
A santa bênção
Do Senhor Divino

Viva o altar
Viva o andor
Senhor Divino
No meio da flor

Oi, Senhora Santana
Rainha do céu, ai
Ó Virgem Maria
Tem seu lindo véu
Oi marinheiro
Somos filhos de Deus

Ao marchar, vão cantando, batendo espadas, dançando, "tramando, ou seja, trocando de lugar. O desfile da congada é muito interessante, mas o espetáculo é mais bonito na hora da embaixada

 

A embaixada

Na praça pública, em local tradicionalmente usado para tal fim, chegam os congos, dançando e cantando. Silenciam de repente e formam um grande quadrilátero, sentando-se numa cadeira o rei do Congo.

Neste momento, entoam:

Quem não viu periquito falar
Alerta os ouvidos e venha escutar

Este é o convite para que os presentes se aproximem. Novo silêncio. O rei, com voz forte chama o secretário:

Ô, meu nobre secretário
Meu soldado desempenhado
Vinde logo depressa
Atender o meu chamado

O secretário responde:

Pronto, imperador
Vim atender o teu chamado
Sou eu mesmo, o secretário
Um soldado desempenhado

O rei continua:

Chamei você, meu secretário
Por ser um soldado desempenhado
Vai ver que gente canalha são essa
Bruto, sem educação
Que vai entrar em nosso reinado
Sem nos dar satisfação

Secretário:

Rei do Congo manda ver
Que gente canalha são essa
Que vem entrando neste reinado adentro
Com grito e zombaiada
Muito toque de caixa
E barulho de pandeiro
E vem entrando no nosso reinado adentro
Querendo deixar
O nosso rei ficar suspenso

O general responde:

O imperador Carlos Magno
É um homem de estudo e de grande pensar
Vocês adoram o vosso Deus
E nós temos o nosso pra adorar
E volta atrás secretário
Com essa vossa valentia
Não venha mais com atrevimento
Atrapalhar a minha cantoria

O secretário volta e diz ao rei:

Imperador Carlos Magno
Aprevina seu batalhão
O general está disposto
De tomar conta desta nação

O rei responde constrangido:

Não me diga isso, meu secretário
Que essa palavra balanceou meu coração
Descanse que você já fez obrigação
Chame lá o segundo secretário
Que dele tenho precisão

Aproxima-se o segundo secretário, dirigindo ao rei, diz:

Pronto, imperador, estou aqui
Pra atender o seu chamado
Sou eu mesmo o segundo secretário
Um soldado descripinado

Rei:

Chamei você, meu segundo secretário
Por ser um soldado mais famado
Você não sabe que eu neste meu assento
Estou me vendo apertado
Você vai me fazer um serviço
Leva muito cuidado
Vai entregar esta carta
Ao general, aquele atrevido malcriado
Pra ele ficar sabendo
Que tem rei neste reinado

Dirigindo-se ao general mouro, o secretário diz:

Dá licença, general
Aqui vim lhe conhecer
O reis de Congo manda esta carta
Faz favor de arreceber

Ao receber a carta, o general responde:

Eu sou um general guerreiro
Sou um homem desempenhado
Vim fazer uma visita
Para o rei deste reinado
Vós me manda carta de guerra
Que eu estou me vendo apertado
Mas se quiser entrar em combate
Eu tenho força apreparada

Aproximando-se do rei, diz o general:

Eu sou um general guerreiro
Que tanto tenho combatido
Não é o primeiro combate
Que eu já tenho vencido
Esse que eu hei de perder
Sendo que vim bem prevenido?
O que tem, imperador
Que tanto me olha
Com a carranca franzida?
Veja lá que agora mesmo
Eu lhe bato a espada no ouvido

Entra em cena um personagem chamado Ricardo e diz alto:

Alto lá, general
Seu atrevido malcriado
A quem tu pediu licença
Pra entrar em nosso reinado?
Tu sabe que sou o Ricardo
O soldado mais famado?
Pegue nas tua arma
E convide a tua companheirada
Quando for daqui a pouco
Acho bão tu pegar a estrada
Senão tu vai para a prisão
Por ser um atrevido malcriado

A discussão cada vez mais acalorada continua, e pouco a pouco vão entrando outros personagens, dando sequência à representação.

Responde o general com altivez e arrogância:

Volta atrás, seu Ricardo
Não precisa tanta ânsia
Você pode se arretirar
E do meu lado não avance
Senão eu te dou
Um soco no queixo e outro na pança
Você há de sair gritando
Chorando igual uma criança
Você há de sair gritando
Por prova de vingança
Enquanto você viver no mundo
Há de servir de lembrança
O imperador Carlos Magno
Diz que é um homem tão valente
Que veio do estado da França
Também sou um general guerreiro
Sou um homem de tantas bondanças

Ricardo:

Alto lá, general
O que tu tá pensando?
Aqui tu fala com o Ricardo
Empregado de Carlos Magno
Eu te dou um soco no queixo
Que tu sai arrenegando

O general responde a Ricardo:

Volta atrás, seu Ricardo
Não esquente o meu sentido
Você chame o Galalão
Vocês dois são unido
Comigo vocês não pode
Porque hoje tô resolvido

Fala Galalão, de cabeça baixa:

Eu sou o Galalão guerreiro
Que agora venho chegando
Com minha espada na cinta
Venho com ela manejando
E co'o atrevido general
Desejo de ir encontrando
Eu quero que vós me diga
O que tu anda ordenando?

O general responde a Galalão:

Volta atrás, seu Galalão
Você não faz o que você pensa
Combine com o Ricardo
E com toda vossa gente
Comigo você não pode
Porque eu te bato a espada na boca
E te arrebento todos os dentes
E te mando pra ilha das Cobra
Feito isca de serpente

Entra em cena a discutir com Oliveiros, com tom provocante, o principal dos mouros — Ferrabrás:

"O imperador Carlos Magno é um homem simples, sem valor, me manda dois ou três ou quatro dos mais valentes e melhor dos doze pares. Contra mim somente espero vencer a batalha ainda que seja Roldão ou Oliveira, Teter, Riger e Danoa, juro por Deus que a mminha cara nunca mais volta. Eu tô em campo de batalha, longe de meu exército, percorri por todo mundo a covardia da resistência dos teus cavaleiros. E direi que são indignos de tratar de valoroso."

Grita alto o rei ao ouvir a arenga de Ferrabrás:

"Ô, Ricardo, ô, Ricardo, que palavras são essas tão injuriosas que vêm provocando?"

Depois disso, aparecem outros partidários e pares do rei, que pouco a pouco entram no desafio. Finalmente duelam Oliveiros e Ferrabrás.

Oliveiros:

Turco, tu não sabe
Que Carlos Magno é homem tão poderoso
Tu é valente por tua pessoa
Mas do meu lado não venha
Que comigo termina à toa

Ferrabrás:

Cristão, então mande o Carlos Magno
O Roldão ou o Oliveiros
Dos doze pares aquele que vier
Que eu espero com a minha arma
Firme de ponta em pé
Pra resistir do modo que quiser

Oliveiros afirma:

"Roldão nunca fez conta de um só turco em prontidão, com isso nem Roldão se move que em campo de batalha só um pra ele não dá pra nada."

Ferrabrás:

Mió cale a boca
Não tenho mais nada pra dizer
Aprevina as tuas armas e vamos combater
Que pra mim é prejuízo mais tempo perder

Oliveiros:

Tu diz que é muito prejuízo o tempo perde
Que eu julgo santo o meu nome
Que eu sou suficiente
Pra te matar ou te prender
Que se você não me conhece
Eu vos dou de conhecer
Aqui você fala com Guaris
Um homem de grande poder

Ferrabrás, com a espada em riste:

Muito bem, seu Guaris
Fiquei muito satisfeito
Do seu nome eu saber
Aprevina nossa arma
E vamos pelejar
Na primeira batida que eu der
Você há de se arrepender

Enquanto isso, os outros congueiros cantam:

Assegura a batida Olivera
Combate de turco não é brincadeira

Ferrabrás acaba perdendo o combate e Oliveiros diz para o general que o interpela:

Ferrabrás ficou preso
Por ser homem que não sabe pensar
Dois combates nós tivemos
Quase que me deixa no lugar
Derradeiro combate que nós tivemos
Foi eu que fui ganhar
Por erro de uma batida
Fiz o turco ajoelhar
Eu não matei
Porque quis acabar de te matar

O general, com medo, diz aos seus:

O meu almirante Balão
Faça o favor de me dizer
Com o atrevimento do Oliveira
Está custoso nós poder

Almirante Balão:

Fiquei muito satisfeito
Do senhor participar
Eles combatem na fé de Deus
É escusado nós teimar

Os mouros se rendem e Carlos Magno, o imperador e rei da congada, é aclamado com seus pares.

("Introdução à congada. Belo Horizonte, 14 de junho de 1966)

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