A idéia da morte e ressurreição é uma interpretação dos próprios fenômenos da natureza. O dia morre no crepúsculo e renasce na madrugada, a semente se desfaz na terra para o vegetal germinar, a flor desaparece para nascer o fruto, o verão sucede ao inverno e assim por diante. Essa noção, a interdependência entre a morte e a geração, que a ciência só pode explicar friamente, como observa Adolphe Jensen, o mito e o rito, não só a transmitem como a colocam em contato vivo com o homem.
Nas cerimônias de iniciação dos clãs totêmicos, o iniciado deve morrer antes de começar a vida nova. O selvagem não tem da idéia da morte a do aniquilamento, mas apenas a da cessação dos movimentos do corpo, de sorte que tudo quanto provoca a perda da consciência e ação equivale à morte, o sono, inclusive. Assim, nos ritos de iniciação. Por isso, ou talvez visando simplesmente a enganar as mulheres e crianças, sempre afastados dessas cenas, como observa Levy Brühl, o fato é que o iniciado deve ficar como morto, não fingindo, mas por ter realmente chegado a um estado de inconsciência e imobilidade, e depois ressuscitar. É o advento à vida nova que lhe dá a puberdade.
Frazer, o primeiro a estudar a fundo o assunto, explica esses ritos bárbaros, pelos quais se deixam os iniciados como mortos. A sua essência "no que tem de simulacro de morte e ressurreição, seria um intercâmbio de vidas ou almas entre o homem e seu totem. A crença primitiva na possibilidade de tal troca se patenteia na estória de um caçador basco que afirmou ter ido morto por um urso, mas o urso, depois de matá-lo, insuflou-lhe a própria alma, de sorte que o corpo do urso ficou morto e ele se tornou urso de verdade, já que estava animado por uma alma de urso. Essa revivescência do caçador morto em urso é exatamente análoga, segundo a teoria aqui sugerida, a que se efetua na cerimônia de matar o mancebo e ressuscitá-lo depois. O mancebo morre como homem e ressuscita como animal. De pleno direito se chama a si mesmo de urso ou lobo etc., segundo seu totem, e se pleno direito trata de ursos, lobos etc., como seus irmãos, porque nesses animais estão alojadas sua própria alma e a dos seus".
As várias descrições desses ritos, em numerosas comunidades selvagens, mostram um processo de fadiga e aniquilamento, jejuns, danças extenuantes, caminhadas forçadas, sede, ruído incessante de berra-bois, mordida de formigas, em suma, tudo quanto os pode exaurir os iniciados física e psiquicamente. Depois de tanto sacrifício caem prostrados e se inicia o esforço para reanimá-los, que é a ressurreição. Certo nem todas iniciações são iguais, os feiticeiros, os xamãs, os pajés a fazem muito mais rigorosamente, mesmo como condição para as funções que têm de exercer.
"Esses ritos", como observou Paul Radin, "representam, de modo geral, a coordenação e elaboração dos backgrounds folclóricos com o ponto de vista e as atitudes do homem comum, isto é, do homem de ação".
Não é lugar de esmiuçar o assunto – e só cito uma ao meio de diversas cerimônias de iniciação – apenas destaco a importância que deve ter essa inciação para sobreviver com grande constância nos nossos bailados populares, sejam de procedência africana, seja indígena.
No bumba-meu-boi reaparece o príncipe totêmico. O boi representa todo um ciclo da civilização brasileira, a que cabe uma referência especial. Esse animal teve, no Brasil, uma função de importância na penetração do hinterland, tendo sido os currais que os bandeirantes, no centro e no sul do país, iam estabelecendo o início de núcleos de povoações. No Nordeste, zona pastoril por excelência, a fixação do boi foi determinada pelo regime de propriedade territorial, a sesmaria, pedaço de terra cedido em enfiteuse pelo rei de Portugal aos colonizadores. Ademais, o boi foi sempre do maior préstimo ao homem, como alimento, como animal de tiro, ou ainda pelo aproveitamento do couro e dos chifres para vestimentas, utensílios etc. Por isso, Humberto de Campos disse que o boi foi que descobriu o Brasil, em cuja história o ciclo do couro é fundamental.
Desse ambiente, resultou numeroso contingente folclórico, expresso em gestas e romances de bois famosos, em espetáculos propiciatórios, em lendas e sobretudo no bailado bumba-meu boi, cuja área geográfica se estende por todo o país, naturalmente com predominância nas áreas de criação bovina, e aparece com ligeiras variações e nomes diversos.
O boi totêmico nos veio do velho mundo e, no Brasil, a sua glorificação se justifica pelas razões expostas, de tal forma que o bailado em questão é uma convergência de episódios variáveis no tempo e no espaço e de permeio sem fatos contemporâneos, cenas pretéritas. Da mesma forma que no conjunto de seus personagens não poucos já se arcaizaram.
No caso do boi, há outra reminiscência totêmica curiosa, que é depois da sua morte, a distribuição das partes do animal aos assistentes, nuns versinhos muito conhecidos:
O peso da língua
É da dona Domingas
O pé das costela
É das moça donzela
A tripa mais fina
É dessa menina
e assim por diante.
Artur Ramos chamou a isso o repasto totêmico, em que cada um come um pedaço do pai, numa comunhão em que todos se redimem, Robert Smith dá grande importância a esse banquete totêmico. Lembra que, por via de regra, o animal totem é sagrado, ninguém o pode matar, salvo para esse festim, quando a coletividade dele se responsabiliza. "Comer em comum a carne da vítima sagrada constituía a prova fundamental do significado originário do sacrifício e isso explica o ambiente de mistério que envolve a morte da vítima, a que tende a reforçar os vínculos de sangue que ligam os fiéis com o ser superior. Assim, no encantamento da morte se forma a feitiçaria da vida", diz Castiglioni.
Nos folguedos do boi, boi-bumbá, boi-de-mamão etc. depois da morte, do banquete e das melodias de O meu boi morreu... a ressurreição se processa por meios médicos, com uma "ajuda", aquele clister famoso, que consiste em introduzir na traseira do boi um moleque, entremeio de diversão que apavora a meninada, pois o escolhido apanha muito cascudo antes de funcionar como medicamento salvador, ou, se faz como no boi-bumbá, por sortilégio do pajé. É a alegria geral. Todos se fortaleceram com o banquete e recomeçam as danças e folgam animadamente.
Em conclusão, a sobrevivência da idéia mágica da morte e da ressurreição do totem é persistente, embora não constante, nos bailados brasileiros de origem índia e afro-brasileira.
Aparecem ainda reminiscência de princípios totêmicos, diluídos e perimidos inteiramente na sua interpretação, em algumas danças dramáticas e cortejos, mesmo de origem portuguesa, por efeito de sincronismos com os elementos místicos de pretos e indígenas.
Certas denominações de grupos de bailados, determinados implementos e alguns atributos de seus personagens podem ainda ser explicados como repercussões de velhas crenças totemistas gastas pelo tempo.
Nina Rodrigues acentuou, contudo, para frisar o sentido apenas reminiscente dessas manifestações, que se disfarçam e revelam nossa existência quotidiana, que o totemismo não poderia estar organizado ao meio de nossos negros, pois "é, antes de tudo, a relação de parentesco, sobre que descansa a organização da sua vida civil".