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Tema do Mês

Julho 2009 - Ano XI - nº 126

Sumário

Repartimento do boi

Bumba-meu-boi

Boi-bumbá; em junho, festa do povo

O "entremeio" do boi (Boi de reisado)

Tradicionalismo folclórico da fogueira: O bumba-meu-boi junino

Um auto popular do Sul

Boi-de-mamão; São Francisco do Sul, Santa Catarina

Ritos totêmicos

 

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Folguedos do boi

Boi-de-mamão; São Francisco do Sul, Santa Catarina

Maria de Lourdes Henriques

Época: do Natal ao carnaval

Personagens: o boi – que vem sempre à frente, – e outros bichos, tais como: bernúncia, cavalo-marinho, urso, veado, carneiro, onça, tigre, corvo, cachorrinho, sapo, vaqueiro, Mateus, doutor etc.

Instrumentos: tamborim, pandeiro, gaita (sanfona), tambor e violão.

Circunstâncias: desfile e dança na frente da casa em que vão fazer a visita. O boi dança em primeiro lugar. Antes, porém, eles fazem a chegança, cantando:

Eu sou aquele boizinho
Que nasci no mês de maio
Desde o dia em que nasci
Vivo passando trabalho

Três anos fui terneiro
Quatro anos fui garrote
Na idade de sete anos
Conheci a dor da morte

O moço que me adomava
Era um mulato pimpão
Me dava com o pé da vara
Me chuchava com o ferrão

Me dava com o pé da vara
Me chuchava com o ferrão
Eu lhe dei uma chifrada
Certeira no coração

Meu amo disse logo
Vou mandar meu boi pro corte
No meu carro não trabalha
Boi que já fez uma morte

Olhei pro alto da serra
Enxerguei dois cavalheiros
Com o laço na garupa
E dois cachorros perdigueiros

Adeus, campina da serra
Distrito de Corumbá
Os olhos que me vêm hoje
Amanhã não me verá

Quando entrei na mangueira
Procurei enxergar saída
Mas o único remédio
Era entregar a própria vida

Quando me botaram o laço
Me puxaram pro argolão
Quando me botaram a faca
Ai, que dor no coração

Botei meu joelho em terra
Pra ver meu sangue correr
O malvado carniceiro
Ainda parava pra beber

Prometi uma promessa
Pra quem meu couro tirar
O mundo dá muita volta
Sem camisa há de ficar

Depois de cantados esses versos, os dançadores dirigem-se ao dono da casa:

Meu dono da casa
Eu cheguei agora
De bandeira verde, ó maninho
De Nossa Senhora

Meu dono da casa
A licençaé sua
O boi dança em casa, ô maninho
ou dança na rua

Aí o boi dança, enquanto o vaqueiro o atinge com a vara de ferrão. O boi investe e o vaqueiro defende-se. Canta o mestre:

Alevanta, dourado
Ê boi ou relen do sol
Alevanta de roda
Ê boi ou relen do sol
Toma conta do vaqueiro
Ê boi ou relen do sol
Este boi é ligeiro
Ê boi ou relen do sol
É bom pra pular
Ê boi ou relen do sol
Cuidado, vaqueiro
Ê boi ou relen do sol
Que ele vai te machucar
Ê boi ou relen do sol
O meu boi brinca bem
Ê boi ou relen do sol
Não machuca ninguém
Ê boi ou relen do sol
Eu comprei o meu boi
Ê boi ou relen do sol
Mas comprei enganado
Ê boi ou relen do sol
Mas pensei que era manso
Ê boi ou relen do sol
Mas fui ver era brabo
Ê boi ou relen do sol
Cuidado, vaqueiro
Ê boi ou relen do sol
Que o boi é danado
Ê boi ou relen do sol
Chamas o Mateus
Ê boi ou relen do sol
É pra cuidar o teu lado
Ê boi ou relen do sol
Cadê o Mateus
Ê boi ou relen do sol
Aonde foi que ficou
Ê boi ou relen do sol
O boi é danado
Ê boi ou relen do sol
E o vaqueiro cansou
Ê boi ou relen do sol

Entra a seguir o Mateus. Brinca com o boi e este o derruba. Vem o doutor e pergunta ao vaqueiro o que foi que aconteceu. Este aponta-lhe o Mateus deitado. O doutor cura-o e depois faz a cobrança, pedindo dinheiro ao dono da casa em que realizaram a brincadeira. Entram aí dançando os outros personagens: cavalo-marinho, bernúncia, a cabra e o cervo, a onça e o tigre.

Ao cavalo-marinho, cantam:

Meu cavalo-marinho
O relen'do sol
Chegou pra laçar
O relen'do sol
Tu laças este boi
O relen'do sol
Arretira pra fora
O relen'do sol
Cuidado, cavalo
O relen'do sol
Tu laças este boi
O relen'do sol
Que a hora está chegando
O relen'do sol
Nós vamos se arretirá
O relen'do sol
Já chegou a hora
O relen'do sol
Podemos descansar
O relen'do sol

Entra o urso:

Que dê o meu urso
É urso, é urso
Que venha pro salão
É urso, é urso
Fazer sua obrigação
É urso, é urso
Venha cumprimentar
É urso, é urso
A dona da casa
É urso, é urso
Que é um belo cidadão
É urso, é urso

Entra a bernúncia:

Que dê ela, aonde está
Bernúncia
Manda ela pra cá
Bernúncia
Que venha brincar
Bernúncia
A bernúncia é danada
Bernúncia
A bernúncia engole gente
Bernúncia
E é boa pra pular
Bernúncia
Arretira bernúncia
Bernúncia
Arretira pra fora
Bernúncia
Que nós temos que ir embora
Bernúncia

Entram a cabra e o cervo:

Ó minha cabra
Aí vem do mar
Meu bicho cervo
Vem do mar
Tão bonitinho
Vem do mar
Vem pra saltar
Vem do mar
Estou te chamando
Vem do mar
Venha depressa
Vem do mar
Que as horas estão se passando
Vem do mar
Arretira, cabrinha
Vem do mar
Que nós temos que ir andando
Vem do mar

Entram a onça e o tigre:

Quero ver minha onça
É onça, é onça
Quero ver aonde está
É onça, é onça
Tu venhas brincar
É onça, é onça
A onça é danada
É onça, é onça
E é boa pra pular
É onça, é onça
Quero ver o meu tigre
É onça, é onça
Venha vindo para cá
É tigre, é tigre
Vêm os dois agarrados
É tigre, é tigre
Vêm prontos pra brincar
É tigre, é tigre
Arretira, minha onça
É tigre, é tigre
E o tigre também
É tigre, é tigre
Arretira pra fora
É tigre, é tigre
Que a hora está chegando
É tigre, é tigre

Depois de dançarem todos os bichos, saem cantando:

Ai dá licença, cidadão etc.

(dezembro de 1949)

(Henriques, Maria de Lourdes. "Boi-de-mamão; São Francisco do Sul, Santa Catarina". Correio Paulistano, 05 de março de 1950)

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