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Tema do Mês

Julho 2009 - Ano XI - nº 126

Sumário

Repartimento do boi

Bumba-meu-boi

Boi-bumbá; em junho, festa do povo

O "entremeio" do boi (Boi de reisado)

Tradicionalismo folclórico da fogueira: O bumba-meu-boi junino

Um auto popular do Sul

Boi-de-mamão; São Francisco do Sul, Santa Catarina

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Folguedos do boi

Tradicionalismo folclórico da fogueira: O bumba-meu-boi junino

Manuel Balbino de Barros

Certamente o leitor achará exótico o subtítulo, interrogando: Meu Deus, o bumba-meu-boi não é um bailado do ciclo do Natal, devendo ser incinerado no dia 6 de janeiro?

Já foi exclusivamente. Agora, essa tradicional folgança se exibe em nosso meio pelo carnaval, nas festas juninas etc., fora da época histórico tradicional, e ninguém duvida que o boi-dos-Reis venha a dançar futuramente, até em feiras, aliás, de tão popular que se nos apresenta.

No Rio Grande do Norte existe a prática da queima do bumba-meu-boi no dia de Reis, quando se reúnem todos do popular bailado e jogam à fogueira quase todo o material de que se serviu o auto, se bem que essa brincadeira constitui um meio de ganhar o pão para os seus componentes, no período de sua exibição. Só escapam ao fogo cabeças dos bichos como as do bode e do boi, talvez por ser difícil de se encontrarem outras, munidas de chifres grandes e resistentes, bem como a do jaraguá e outras, além dos espelhos que ornamentam as damas e os galantes.

É que essa folgança veio do Velho Mundo para o Brasil, onde tem sofrido profundas modificações, tanto no que concerne aos personagens, como no que diz respeito aos cânticos, loas etc. Os que brincam e se formaram nas caatingas ou sertões nordestinos têm que diferir dos que nascem pelos litorais, pelas zonas da mata e pelas metrópoles.

Assisti, no dia 23 de junho findo, ao bumba-meu-boi de Antônio Pereira, dirigido pelo folclorista Sebastião Lopes, e que se exibiu na sede da Sociedade Folclórica de Apipucos, durante os festejos juninos deste ano, tendo-se apresentado as seguintes figuras ou personagens: o boi, o cavalo-marinho ou capitão (o manda-chuva do folguedo), a burra caiu (burrinha), a ema, o babau, o morto-carregando-o-vivo, o pigmeu, o Mateus e o Sebastião.

Todas as figuras dançaram de uma só vez ao contrário de como se apresentam no interior conforme presenciei no Rio Grande do Norte onde se sucedem as representações, saindo o jaraguá, o bode, o cavalo-marinho, o gigante (com sua inseparável mulher de duzentos anos), a burrinha, o engenho, o boi, bem assim, sucessivamente, outras figuras dramáticas e tradicionais havendo, lá, sempre o sacrifício do boi.

Antônio Pereira forneceu-me a relação das figuras, bichos e personagens que compõem o seu bumba-meu-boi completo que são além dos que brincaram em Apipucos: o mané-pequenino, a pastorinha, o romeiro, o bêbebo do romeiro, o valentão, o queixoso, o mestre-tear, a Catarina, o doutor engenheiro, os cinco criados do doutor engenheiro, o fiscal, o guarda, o professor (para ensinar humoristicamente aos negros), o barbeiro (que corta os cabelos do Mateus e do Sebastião), o Mané-gostoso, a baiana, o caboclo da meia-noite, o diabo e o vaqueiro.

Disse-me, ainda, mestre Antônio Pereira, que faz 55 anos que brinca e dirige bumba-meu-boi, e que foi a São Paulo, tendo brincado no Teatro Colombo e na Fazenda Matarazzo, em 1954, sendo a sede do seu boi nos Afogados, em Recife.

No Estado do Rio Grande do Norte, conforme verifiquei in loco são mais comuns nesse interessante bailado, as seguintes figuras, ora diferentes de nome, ora em personagens: o boi, o bode, a burrinha (Zabelinha), o jaraguá, o lagartão, o cavalo-marinho, o urubu, o engenho, o fantasma, o Mateus, o birice (palhaço tipo vaqueiro de máscara de pele de bode, barbada e nariguda, dançador como Mateus), a velha (Naná), a caboclinha, o sisudo (que não fala nem dança), o padre, o doutor, o fiscal, três damas e três galantes, o mestre, o contra-mestre, o gigante (cabeça grande de cabaça0, o caipora, o urso, o velho etc.

Se esse bailado tradicional não é originário do Nordeste brasileiros, pelo menos nele já foi introduzido um sem número de figuras, loas e cânticos regionais, formando um interessante sincretismo. As seguintes loas, que anotei em Ceará-Mirim (Rio Grande do Norte) em eloqüentes declamações do mestre, do birico e do Mateus de um bumba-meu-boi a que assiti, justificam esta afirmativa:

Eu não conheço esse homem
Nem que ele seja um barão
Que cumpra sua palavra
Com dinheiro de algodão

O birico:

Pra dá hora só nambu
Pra gritá só garapu
Pra dá leite pelas costas
Só o sapo cururu
Pra te querê bem só eu
Pra me despre´zar só tu
Não me tragas enganado
Meu santo do ôio azu...

O Mateus:

Eu vinha de Baixa-Verde
Com destino a Taipu
Trazendo meu matulão
De couro de caitetu
De leite bom do sertão
Trazia a cabeça cheia
Até com o ôio do pé
Eu via teu rasto na areia

Eu vinha galopeando
No meu cavalo alazão
O cavalo deu um tombo
O birico foi ao chão...

E quando o boi ressuscita e dança novamente para a despedida, todos entoam, ao som da rebeca (rabeca), que é um instrumento inseparável do boi-dos-Reis do Estado potiguar:

Despedida, despedida
Quem se despede sou eu
Adeus, damas e galantes
Adeus, birico e Mateus
Meu sinhô dono da casa
Plantai a cana caiana
Quanto mais a cana cresce
Mais aumenta a vossa fama
Se o povo preguntá
Quem passô neste lugá
Diga que foi os três Reis:
Brechó, Caspá, Batazá
Meu sinhô dono da casa
Já ganhemo o seu dinheiro
Na entrada de janeiro...

Preferimos que o bumba-meu-boi seja exibido fora da época histórica a desaparecer, como tende, juntamente com outros autos populares que já estão em franca decadência como o pastoril, exibição que teve sua origem em dramas litúrgicos e que tantos sururus ocasionava no Recife antigo, com suas mestra e contra-mestras dirigindo os cordões azul e encarnado; os congos, as lapinhas, a ciranda (ou cirandinha), os fandangos ou cheganças etc. que tanto abrilhantavam os festejos do Natal como uma tradição da nossa vida folclórica.

(Barros, Manuel Balbino de. "Tradicionalismo folclórico da fogueira: O bumba-meu-boi junino". Diário de Pernambuco. Recife, 21 de julho de 1957)

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