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Tema do Mês

Julho 2009 - Ano XI - nº 126

Sumário

Repartimento do boi

Bumba-meu-boi

Boi-bumbá; em junho, festa do povo

O "entremeio" do boi (Boi de reisado)

Tradicionalismo folclórico da fogueira: O bumba-meu-boi junino

Um auto popular do Sul

Boi-de-mamão; São Francisco do Sul, Santa Catarina

Ritos totêmicos

 

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Folguedos do boi

Boi-bumbá; em junho, festa do povo

Raimundo Mário Sobral

O culto do boi se perde nos tempos. Suas origens se situam desde os longínquos confins da Ásia, até as planícies do Egito. Maria Brígido, membro da Comissão Paraense de Folclore, profunda conhecedora do assunto, assinala:

"Estudiosos ingleses apresentaram à Sociedade Britânica de Geografia, um volumoso trabalho sobre o boi através do tempo, estabelecendo a ligação entre os folguedos folclóricos e os cultos sagrados. Alegaram os pesquisadores que, no Egito, onde o boi, no touro Ápis, mereceu destacada consagração, não foi tomado como objeto de culto apenas o animal vivo, mas também um boi simbólico. Os sacerdotes utilizavam como máscara uma caveira bovina, recoberta de lâminas de ouro, em certas cerimônias ritualísticas. Essa tradição que gerou os festejos profanos no vale do Nilo e passou a outras, seria uma determinante dos folguedos do boi no mundo".

"Outra teoria determina a Península Ibérica, caminho por onde nos vieram tantas culturas, como responsável pelo brinquedo do boi", diz ainda Maria Brígido. "Pois tanto na América Central, como na do Sul, constam fatos semelhantes, como bois "fingidos", ou seja, de brinquedo, em variantes que traduzem as predileções do meio-ambiente. Essa teoria, à qual se apegam folcloristas de renome, é a mais provável, não excluindo de todo a anterior".

Apesar da subvenção e do calor proporcionados pela municipalidade, nem todos os grupos de bois regionais se organizaram para exibições. Divididos em duas categorias saíram este ano os grupos: Luxo da Simpatia, Pingo de Ouro (Belém), Pai da Malhada, estrela d'Alva, Pai do Campo, Pingo de Ouro (Icoaraci) e o Resolvido (também de Icoaraci).

Pai da malhada

Um dos participantes dos folguedos juninos deste ano, o Bumba Pai da Malhada tem o seu curral no bairro da Sacramenta. Fundado há 30 anos por um vago Seu Praiano, o Pai da Malhada e tradição na quadra junina. Hoje é propriedade de mestre Rufino, que menciona com vaidade as muitas vezes que seu grupo já levantou certames oficiais.

Situado entre os de primeira categoria, mobiliza em torno de 50 figuras, tendo ganho ajuda oficial na ordem de 3 mil cruzeiros. Mestre Rufino, que interpreta o personagem central da peça – Pai Francisco – estima as despesas em 6 mil cruzeiros.

Além das apresentações oficiais – que são obrigatórias – o bumbá também promove exibições particulares. Esses espetáculos dão feitos numa base que varia entre 200 a 500 cruzeiros, despesas de transporte por conta deles próprios.

Os ensaios de cada peça consomem geralmente um mês inteiro e tudo é feito sob o comando de mestre José Rufino. Uma das figuras mais importantes do bumbá é o tripa. Aquele elemento que faz evoluções debaixo do boi. No Pai da Malhada, o tripa é o Raimundo Neves Magalhães, 26 anos, de profissão motorista. Há seis anos brinca como tripa. "É a função mais cansativa, sabe? Mas é também a mais divertida. E, para ser um bom tripa, a pessoa precisa ser bamba no jogo de cena".

O tema

De uma maneira geral é assim explicada a temática do boi pela folclorista Maria Brígido: "O boi, propriedade de abastado fazendeiro ou senhor de engenho, quase sempre é de estimação. Entra em cena dando chifradas na assistência, acompanhado pelos vaqueiros que o vigiam de perto. Mais tarde, morre o boi, de tiro, aguilhoada, cacetada ou mesmo de cansaço. É chamado o doutor para curar o animal. O capitão do mato vai também à cata do criminoso e às vezes acaba amarrado por ele com as próprias cordas que conduz. Chega o padre, figura de excepcional comicidade, para quem o grupo dirige suas expressões satíricas. A missão do padre, como das demais figuras, modifica-se em cada peça: confessar o criminoso ou o boi, casar a Catarina com Sebastião etc."

"Entra o doutor que, depois de algumas discussões, pedidos e promessas de pagamento, receita um clister. Sai o vaqueiro a buscar um dos meninos da assistência, que servirá de seringa. Apanhando-o, o vaqueiro introduz na traseira do bicho que, num pulo, ressuscita. Esta uma das versões utilizadas. Em outras variantes, o doutor não tem êxito com sua receita e então é chamado o pajé o curandeiro, figura tradicional. Hoje, porém, bastante confundido com o macumbeiro, por força da incidência dos cultos afro-brasileiros. A morte e a ressurreição do boi ou do pássaro são as constantes folclóricas desses fatos. Com a ressurreição, volta a alegria a dominar o rancho e as cantadeiras entoam as despedidas."

Conforme a posse de cada grupo é este o instrumental usado nas exibições: violão, viola, cavaquinho, rabeca, tambor, zabumba, pandeiro, sanfona, gaita, clarineta, flautim, ganzá e maracá. "Bumbá", conforme explica Maria Brígido, é uma interjeição de origem congolesa que traduz por "zás!". desse modo, a expressão "Bumba-boi" viria a dar em "Bate meu boi" ou "Chifra meu boi".

José Rufino, dono do Boi Pai da Malhada, seguramente ignora essas sutilezas. Mas uma coisa sabe: uma vez organizado o boi, sete anos seguidos terá que se apresentar. Caso contrário, terríveis coisas podem suceder. Por exemplo, ouvir-se um fantasmagórico urro de boi vindo sabe-se lá de onde. Isso corre à conta do acervo supersticioso do povo.

O pássaro

Desfrutando da mesma popularidade dos bois, os pássaros são outra constante na quadra junina. É ainda a folclorista Maria Brígido quem fala sobre o assunto: "Os pássaros são inspirados em tradições e lendas dos habitantes do interior, embora sofrendo alguma influência dos velhos contos de carochinha do fabulário mundial. De fato, as presenças do caçador, do pássaro, do bosque, dos gênios das florestas, dos silvícolas, fazem crer com sobejas razões que é encenação de um episódio selvático".

Prossegue Maria Brígido, no seu depoimento: "Apesar da denominação genérica "pássaro", nem sempre seus "boatadores" (como denominam aqui os responsáveis pelos grupos), usam como figura central uma ave. No hinterland amazônico chamam mais apropriadamente de cordões de bichos. Sua constituição é heterogênea: dramalhão, burleta e teatro revista, com acentuada cor local. A ação se passa na selva, invariavelmente, com índios caricatos que se agitam, dançam, cantam e falam num português estropiado de mistura com vocábulos nheengatu ou mesmo palavras desconexas. No decorrer do drama aludem a um castelo inaparente. Não há cenas interiores. De maneira geral, os pássaros obedecem a um tema que varia de aspecto segundo os autores. O mais comum é aquele em que o caçador abate o pássaro de estimação de uns nobres que exigem, de maneira irredutível, para libertar o matador, seja o pássaro ressuscitado. A filha, enamorada do rapaz, vale-se de fada. Esta sugere a presença de um pajé que, entrando em cena com defumações e exorcismo, e até mesmo auxílio de animais como serpentes (da corrente dos encantados), consegue a ressurreição do bicho".

Mesmo com ajuda oficial, também vários cordões de pássaros não saíram para brincar nesta quadra. Os que se organizaram: Beija-Flor, Caboclo Lino Pardo, Onça, Curió Pintado, Rouxinol, Bem-te-vi e Arara.

Rouxinol

O Rouxinol é um dos mais afamados cordões de pássaros de Belém. Sua responsável atualmente e dona Julieta Malcher de Castro. Ela afiança que o grupo existe há mais de cem anos. E só na sua mão já está aproximadamente há mais de trinta.

Nascido no Umarizal, fundado por uma certa dona Libânia, o Rouxinol, hoje, está sediado em São Brás. O cordão movimenta 40 figurantes. Trinta mulheres e dez homens. O auxílio dado pela Prefeitura foi na ordem de 4.500 cruzeiros e os gastos do grupo, este ano, ficaram orçados em 25 mil cruzeiros.

O Rouxinol cobra 1.500 cruzeiros por exibição e só a bandinha recebe 400 cruzeiros por função, sem falar no elenco que ganha entre 60 e 20 cruzeiros, por cada espetáculo.

Dona Julieta, 60 anos, professora e escriturária da Secretaria de Finanças, não se preocupa, nem explica como se saía dos prejuízos que o cordão acarreta.

– O Rouxinal sai pro ano, dona Julieta?

– Sim, senhor. O Rouxinol só deixará de brincar, no dia em que eu morrer.

Samba e carimbó

Tem sido notada ultimamente nas manifestações folclóricas – bois, pássaros, quadrilhas – a presença do carimbó e do samba. Para esse pormenor, que tem causado estranheza para muitos. Maria Brígido dá também sua opinião: "Os bois-bumbás e pássaros são fatos folclóricos. O boi, por sinal, é o auto ou sátira de maior expressão social no Brasil, diz Renato Almeida.

"Quanto às quadrilhas, é dança importada que se popularizou mas não se folclorizou. Arranjada nos meios semi-eruditos, não é considerada fato folclórico. Daí a Comissão Paraense de Folclore, que está prestigiando as apresentações e congratulações com o prefeito Ajax de Oliveira, não participar dos concursos de quadrilhas e festas de roça".

Para finalizar, a palavra da folclorista sobre essas alterações que se observam, no tempo, nesses fatos folclóricos. Ela esclarece: "São oriundas da dinâmica do folclore que, como cultura, agrega e desagrega, ao gosto do povo, sendo, portanto, as inclusões e exclusões, de qualquer natureza, acertadas, quando feita pelos legítimos portadores do folclore – o povo".

(Sobral, Raimundo Mário. "Boi-bumbá; em junho, festa do povo". A Província do Pará. Belém, 26 de junho de 1976)

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