Vem de tempos imemoriais a lenda de que pessoas bafejadas pela sorte, depois de sonhos com gente do outro mundo, conseguiram desenterrar valiosos tesouros (botijas), contendo moedas de ouro, libras esterlinas, jóias, brilhantes preciosos e até barras de ouro forte. Verdade, ou não, citavam-se, inclusive, nomes de pessoas reconhecidamente pobres que sem herdar de parentes ou amigos, sem que tivessem sido beneficiados por um bilhete grande de loteria, amanheciam ricos misteriosamente. Há poucos anos, aqui mesmo, no Recife, conforme foi antes largamente comentado, teriam aparecido nas escavações de um terreno próximo à igreja do Espírito Santo e antigo quartel general, onde hoje se ergue o edifício do Grande Hotel, moedas de ouro e mesmo espadins do mesmo metal. Tudo não passou, entretanto, de boato, tendo os operários encarregados do serviço, encontrado apenas algumas moedas de cobre, sem valor.
Origem das botijas
Quanto ao encontro de dinheiro e jóias, não nos parece impossível que ocorram conforme a crendice popular, por um motivo muito simples e que passamos a expor. Nos tempos remotos, não existiam, como hoje, os estabelecimentos bancários e os homens de dinheiro, tanto do alto comércio como os agricultores e criadores mais opulentos, com receio de forças invasoras que travavam lutas ou guerras no Brasil, e de bandoleiros em grupos, que já os havia, enterravam jóias e dinheiro dentro de casa ou nos matos.
Sucedendo morrer de repente de causa natural, de acidente, ou ainda por um atentado criminoso, partiam para a última viagem, levando consigo o segredo que a traição da morte não lhe permitira revelar à sua família.
Mensagens do além
Com o espírito perturbado pelo seu egoísmo aqui na terra, o cauteloso ou usurário, para não continuar com a alma penando, parecia em sonho, ou mesmo materializado, a alguém, implorando que arrancasse para si o tesouro ou botija que, em vida, havia enterrado, indicando-lhe o local.
Histórias de botijas
Em 1952 ou 1953, conta-se que, nesta capital, num prédio da rua da Harmonia, em Casa Amarela, pela manhã, os transeuntes [depararam com uma escavação] e, nas suas bordas, duas fôrmas ou jarros próprios para carregar água. Espalhando-se célere notícia de que um felizardo, durante a noite, havia retirado uma botija bem recheada.
É conhecido que, numa cidade do interior da Paraíba, membro de conceituada família ouvira, em sonho, durante uma noite mal dormida com dor de dente, uma voz dizer-lhe: "Quando levantar-se, ao pisar com o pé direito o primeiro tijolo, cave e tire uma botija que é sua". Assim foi feito e, dias depois, o cidadão aparecia abastado trocando na cidade moedas de ouro de grande valor, passando essa fortuna anos depois, para os seus descendentes.
Contou-me o meu velho amigo e destacado confrade, Mário Melo, que há muitos anos, nas demolições de pardieiros, na rua do Bom Jesus, salvo engano, operários encontraram muitas moedas de ouro, tendo o pai de conhecido economista que escreve assiduamente na imprensa desta capital, comprado a um dos operários um chapéu cheio daquelas moedas, inclusive florins do tempo dos holandeses que, naquela época, valiam cada um 20 contos de réis. Sem regatear, deu por toda aquela fortuna, apenas 200 mil réis, preço exigido pelo inexperiente operário.
Quando eu era criança, em Palmares, e custava a adormecer, Marcelina, a minha velha "mãe preta", de grande estimação e saudosa memória, contava-me histórias da carochinha, de fadas e sereias e, entre elas, de tesouros enterrados, acrescentando que era necessário muita coragem para se desenterrar uma botija, pois ouviam-se assobios, gemidos e outros mistérios, e se quem cavasse o tesouro olhasse para trás, tudo se transformava em carvão.
O tempo passa e essas legendas perduram. A crendice popular resiste a todo o progresso desta nossa materialista era atômica.
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