A história desta mulher talvez fosse um desses dramas ignorados que conduzem o protagonista ao suplício da loucura.
Por mais que tentássemos, nunca conseguimos descobrir o segredo daquela existência votada aos assobios dos moleques, às apupadas dos meninos, às provocações da vadiagem, que anunciavam-lhe a exibição nas ruas.
Batedores turbulentos da alienada irascível, os bandos de ociosos tomavam-lhe a frente, atiravam-lhe pedras, em uma algazarra seguida e infernal.
A Forte-Lida residia em Matacavalos; era viúva, tinha alguma coisa de seu, e andava às vezes acompanhada de uma escrava sustida por uma corda ao pescoço.
De estatura acima da mediana, magra, trigueira, bexigosa, de cabelos grisalhos, parecia não ter mais de quarenta e poucos anos, quando a conhecemos.
O seu trajar, ainda mais do que a sua fisionomia, revelava um estado mental em desordem, ou antes a perda absoluta da razão.
Vestia saia de cores vivas, camisa entremeada de rendas, pendia-lhe da cinta uma enorme rosca e uma grande chave, jamais esquecendo a vara de marmelo com que se defendia dos moleques.
À tiracolo, como as pretas baianas, desdobrava um xale encarnado, do qual lhe proveio o segundo apelido de Manta de Fogo.
Todos os meses, impreterivelmente ao meio-dia, a Forte-Lida apresentava-se no Tesouro, onde recebia uma pensão que lhe deixara o marido.
O mais do tempo gastava ela em percorrer os cartórios, a fim de saber de uma demanda na qual se achava envolvida.
Nesses ocasiões, a molecada a precedia e seguia, correndo, saltando, gritando: — Ó Forte-Lida! Ó Manta de Fogo!...
E a pobre louca esbravejava, descompunha, tangia a vara, queixando-se repetidas vezes aos pedestres, aos inspetores de quarteirão e até aos ministros de Estado.
A Forte-Lida, ao que supomos, morreu muito depois da Guerra do Paraguai.