Nesta imensa e populosa cidade muita gente existe que dá notícias exatas da Maria Doida, por tê-la conhecido de vista ou mesmo gozado de sua privança.
Esta mulher era uma parda viúva, regulava ter uns 50 anos, trajava de preto, usando constantemente dois longos cachos de cabelos finos e grisalhos, que contrastavam sensivelmente com a sua cabeleira dura e incorrigível, de verdadeira mestiça.
Dizem que a pobre velha perdera a razão em conseqüência de lhe haverem roubado algum dinheiro, que lhe deixara o marido.
Seja como for, essa infeliz andava de casa em casa, visitando esta ou aquela família, passando dias aqui e ali, comendo, bebendo e dormindo onde a levava o acaso.
Andarilha e vesânica, a Maria Doida vestia três ou quatro saias, duas camisas e igual número de pares de meias, nunca dispensando uma trouxinha com as demais roupas de uso, visto que o seu pouso era incerto.
Fechado na mão, trazia um embrulho de papel contendo rapé, e nas pitadas a sua liberalidade não conhecia limites.
Apenas chegava a uma casa conhecida, depois dos cumprimentos e massadas do estilo, de almoçar ou jantar, a Maria Doida encaminhava-se para o quintal, abria a trouxa, mudava a roupa suja, pedia sabão, e lavando o enxoval o estendia em cordas, nos corredores, nas áreas, nas janelas, sempre falando, sempre tomando rapé.
No meio dos desarrazoados, saía-se com pilhérias que faziam rir as pedras.
A meninada, já se sabe, cercava-a; as moças divertiam-se à sua custa, e as donas de casa ficavam de sobreaviso com as suas levadas.
Não obstante, a Maria Doida era estimada, acatada, zelada...
Quando as negras e as negrinhas apanhavam, ela intercedia, esbravejava, servia de madrinha.
Abstração feita de sua vida errante, de sua bagagem portátil, de albergar-se em casas alheias, o lado mais característico de sua alienação eram os repentes chistosos, as frases equívocas que lhe brotavam de improviso, desapontando o sexo frágil que a escutava.
Um dia, a Maria Doida, que passava a semana com a família F. L., investe pela escada do quintal, aproxima-se da senhora D... que se achava na varanda com suas filhas, e lhe diz, arrepiando-se toda:
— Sinhá dona, sabe de uma coisa?
— Ora, senhora dona Maria...
— O seu peru me galou!
— Pelo amor de Deus, deixe-se de inconveniências...
— Escute, — retorquiu ela. — Eu estava agachada, lavando os meus paninhos...
— Cale a boca, senhora.
— E veio o seu peru... arrastou a asa... trepou no meu ombro... e batendo com o bico na minha cabeça, fez toc!
A mãe e as filhas não puderam conter as gargalhadas.
— Já vê, portanto, afirma ela, que seu peru me galou!
Como este são inúmeros os casos que se contam da Maria Doida, que não sabemos se já fez sua última visita — ao domicílio onde se entra com os olhos fechados para não se abrirem jamais.
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