Não há muitos anos morava em uma casa nobre da rua de Matacavalos, um indivíduo magro, fanadinho, pálido, imberbe, de andar velocíssimo, conhecido geralmente pelo Picapau.
A razão da alcunha estava em ter ele enorme nariz, ridiculamente aquilino, cuja ponta ultrapassava o lábio inferior.
O Picapau trajava com decência, usava de carapuça, e, quando fumava, o charuto saía-lhe do crescente formado pelo queixo e o lóbulo nasal, separando pelo meio a vistosa prenda.
Como produto teratológico, o pobre idiota poderia figurar em um museu, não sendo de pequena importância o estudo do caso.
Em sua alma, porém, alguma coisa existia que contrastava-lhe com a fealdade do corpo, e com o desenvolvimento retardatário do cérebro: era um amor sincero, uma dedicação pertinaz a uma moça com a qual pretendia casar-se.
Estimadíssimo no seio da família que o abrigava, as manifestações do seu sentir não significavam mais do que um devaneio de idiota, uma preocupação de imbecil.
Na rua, o ligeiro Picapau era seguido pelos moleques e pelos meninos de escola, que davam-lhe trotes, que puxavam-lhe o paletó, que gritavam, acompanhando-o: "Ó Picapau! ó Picapau!"
E ele corria, saltava, voava...
— Vou-me casá cum sinhá. — dizia ele em casa e aos conhecidos, — Sinhá é tão boa! eu quero tanto bem a sinhá!
Um dia, o ideal de suas adorações, a piedade, talvez, para aquele deformado, foi pedida em casamento, e os escravos e criados o interpelavam, rindo e zombando:
— Então, Picapau? Sinhá vai casar?
— Não é possível, — respondia firme e convencido.
— Mas os papéis que levaste ontem à Conceição, são os do seu casamento com o senhor...
— Não é possível! Não é possível! — e retirava-se zangado.
Uma tarde, o salão estava cheio de flores, a madrinha esperava a noiva, os convidados comparticipavam da felicidade do novo par e da família.
Estanciadas ao longo da rua, as carruagens rodavam intermitentes, a intervalos...
E no portão, vestido como para o noivado, o monstrozinho esperava alguém ou alguma coisa. O seu semblante tomava-se lívido, a inquietação brilhava-se no olhar, uma agonia íntima e profunda gemia-lhe no coração, como a derradeira saudade à cabeceira dos supliciados.
Quando a noiva desceu, ele a fitou um instante e, apelando para a sua rudimentária razão, murmurou consigo ainda uma vez: "Não é possível!"
Abriu a portinhola do carro, deu-lhe passagem, e tornou a seu posto.
Quando o préstito chegou da igreja, o Picapau havia perdido a última crença e a última esperança. Tentando um esforço sobre si mesmo, foi de encontro ao carro dos noivos, puxou nervoso a portinhola, encarou resignado o anjo que lhe sustentara com a luz do olhar a razão amortecida e exclamou pesaroso e fulminado: "Meus olhos viram! agora que creio, sinhá!"
E desapareceu...
A noite não podia ser mais alegre: harmonias, perfumes, sonhos que não findam, ilusões que não mentem.
As estrelas pareciam flores de ouro, e as flores as estrelas do vergel.
Tarde, bem tarde já, a quietação fez-se nas salas e no banquete.
As bênçãos do céu e da terra cantavam em torno dos cônjuges, e os alvos cortinados do leito nupcial, como as asas do anjo da guarda, protegiam, cerrando-se, o santuário misterioso da nascente família.
Uma janela, que deitava para a chácara, abriu-se...
E amanhecia.
E a essa hora em que as preces e os pássaros voam para Deus, em que os escravos buscavam o trabalho, pendurado a uma corda presa à rama de um tamarineiro, um cadáver, vestido de preto e com a língua de fora, balançava aos tons indecisos da luz e do nevoeiro...
O Picapau se havia enforcado!