Não há por certo vinte anos que, errando pelas ruas e praças, estacionando nas pontes e à mercê do destino, via-se o célebre Maia, o mais popular dos tipos de rua da vizinha e pitoresca Praia Grande.
Quem ele era e donde vinha é um segredo envolvido no espesso sendal das sinas aziagas, na deslealdade de um fado que transparecia adverso.
Que sobre a calma de sua vesânia cintilavam fosforecências inteligentes, asseguram testemunhas insuspeitas daquela existência agitada, indivíduos que o observaram nos intervalos em que o visitava a razão.
E todos conheciam o Maia, que andava, que parafusava o espaço, gesticulando, resmungando consigo, monologando e dialogando, de modo estranho e bizarro.
No cenário popular das ruas, avultando no ermo das pontes, constantemente via-se aquela figura, aquele maníaco, ora perambulando, ora escoltado de moleques que o perseguiam, jogando-lhe pedradas, assobiando, irritando-o.
O Maia era um pardo acaboclado, de estatura um tanto elevada, trazia rentes os cabelos e a barba, mostrando ter cinqüenta anos de idade.
Inimigo natural dos proprietários e das pousadas em lar alheio, entendeu morar em casa própria e para isso arranjou um camarote velho de navio, colocado sobre quatro rodas, onde instalou-se, puxando a sua residência do largo do Capim para o campo Sujo e do campo Sujo para o largo do Capim, segundo lhe dava na veneta ou estava de maré.
De tarde, sentava-se a um lado da entrada de sua habitação ambulante, aí passando despreocupadas noites, jamais se esquecendo de fechar a porta por causa dos ladrões.
Dia alto saía ele, andando pausado, vagaroso, para as labutações da vida, sempre teso, sempre absorvido, externando-se baixinho, desigual, continuado.
O seu trajar era simples e característico. Nu da cintura para cima, cobria-lhe metade do tronco vermelho cobertor, uma colcha, um lençol; usava calças largas e curtas, trazendo à cabeça — no que variava — uma carapuça, um barrete, ou um urinol branco.
Uma ou outra vez que calçava chinelas, tirava-as dos pés, passando-as para a cabeça, aos primeiros pingos de chuva.
Na mão direita levava bilhetes de loteria, que apregoava, e na esquerda um punhado de capim verde, que arrancava ao acaso.
A caixeirada infrene e a molecada saltitante apenas o percebiam, lá zunia uma pedra desgarrada, ouvindo-se uns gritos com a mão à boca:
— Ó Maia!... Fora o Maia!... Fora o maluco!...
E ele, imperturbável ou irritado, adiantava-se, murmurando, falando, esbravejando, e depois mercava:
— Brancas e branquinhas, mulatas e mulatinhas, crioulas e crioulinhas! — Compre, compre, compre! — Branco! branco como as estrelas!...
O povo gostava, ria, alguns compravam bilhetes, serenando as apupadas, as correrias, os trotes da canalha.
Sobrevivente da tempestade, o Maia dobrava uma esquina, parava numa calçada, recomeçando o trânsito interrompido, apregoando seu comércio, ao diapasão uniforme de seu estribilho:
— Branco!... branco como as estrelas!...
Longe ou perto, se avistava um burro de carroça, uma cena única começava que entretinha os espectadores.
Ele se aproximava, mostrando o capim que levava, e dizia:
— Bom dia, senhor burro, olhe, se não fosse você, eu e os outros pobres como eu é que puxaríamos carroça; por isso, senhor burro, lhe somos muito agradecidos, lhe devemos muitos favores. Coma, coma este capinzinho, que você bem o merece.
E o Maia punha em prática a palavra, dando o capim ao burro; mas se acontecia passar na ocasião alguma pessoa conhecida e de importância, repetia as últimas frases, e concluía fitando o sujeito com malícia:
— Viu? todos comem... todos comem...
Aí uma ou outra pedrada roncava, o Maia seguia, caminhando lento, clamando compassado:
— Brancas e branquinhas, mulatas e mulatinhas, crioulas e crioulinhas! — Compre, compre, compre! — Branco! branco como as estrelas!...
Ganho o dia, terminado o negócio, dirigia-se o singular cambista aos seus lares, contava a féria descansado.
Nas horas perdidas da noite, no silêncio da madrugada, escutava-se por vezes um rodar estranho, desenhando-se à claridade dos lampiões um vulto, tirando de uma corda, vergado para frente, arrastando alguma coisa de pesado e informe.
Era o Maia que trasladava os seus penates, o seu paraíso artificial, do qual se havia ele constituído senhor, dono absoluto.
E a luz de uma vela bruxuleava lá dentro, depois movia-se, depois apagava-se...
Na desgraça, o pobre louco tinha como felicidade a sua casa de improviso, o seu camarote rodante, único bem que pudera salvar do naufrágio da sorte.
Mas uma ordem superior desalojou-o desse abrigo, capitulando ele diante do imprevisto.
Dormindo debaixo das pontes, nas calçadas das ruas, no adro da igreja de São João ou onde o surpreendia a fadiga e o sono, passou ele algum tempo, até que encontrou refúgio em um quartinho à rua do Imperador, próximo à praia.
De manhã começava no mesmo tom a sua lida habitual, até que desapareceu na vala comum, deixando na lembrança do povo os episódios engraçados de sua existência erradia, e o eco, que ainda repete, de seu original pregão:
— Branco!... branco como as estrelas!...