Não é moderno este tipo: é bem antigo.
O Chico Cambraia era um pardo de 50 anos, alto, corpulento, cor de formiga; tocava violão e cantava modinhas e lundus.
A sua voz, um pouco aflautada, marchetava de certa graça os fadinhos que executava, especialmente em tons menores.
Propenso a ternuras, ninguém como ele modulava:
Ai, meu bem, se você visse
Meu coração como está
Veria que seu desprezo
Pra castigo basta já
Por Deus, eu suplico
Socorro, perdão!
Pancadinhas assim
Não me dês mais, não...
O seu emprego consistia em pedir esmolas para as almas, no que religiosamente gastava todas as segundas-feiras.
A sua opa e a sua bacia de prata reluziam espelhantes, bem como a vara também de prata, com a imagem de São Miguel e Almas, que dava a beijar aos devotos.
O Chico Cambraia residia em uma casa térrea da rua do Hospício, onde por vezes reuniam-se irmãos das Almas e de outras confrarias, que vinham conferenciar sobre os proventos do ofício, ou ouvir tocar e cantar o amável colega.
Quando havia enforcado, o nosso Chico acompanhava o préstito, e pedia para a missa do nosso irmão padecente, com uma entoação sentida e grave.
No dia de Finados, desde o alvorecer, fazia plantão à porta das principais igrejas, e, a cada pessoa que entrava para os ofícios fúnebres, apresentava a salva, implorando solene:
— Pra missa das almas!...
Ordinariamente, seguindo o seu fado, pedia esmolas aos transeuntes, e possuía lista das boas casas onde costumava pedir.
Com o produto de sua clientela escolhida, o Chico recolhia-se aos seus penates, notando-se que nem sempre aceitava esmolas de frutas e de ovos, que os pobres negros deitavam-lhe na bandeja.
Chegando à porta, espiava pelo xadrez da rótula, batia três pancadas, ao que corriam a mulher e os filhos para recebê-lo.
Apenas entrava, a cara metade despia-lhe a opa, e o Cambraia, deitando a salva sobre a mesa redonda, dizia, separando as esmolas:
— Senhora, as bananas são para as meninas e os ovos para uma fritada.
Por volta do escurecer, o impagável tipo acendia a vela de carnaúba da manga de vidro, fechava as janelas da sala, colocava sobre o aparador o dinheiro das almas, e começava, jogando o pacau:
— Ora, vamos lá; é de maninha-maninha o nosso jogo... Tomem lá duas cartas, senhoras almas, e eu fico com as que me couberem por sorte.
E o Chico Cambraia deitava o baralho partido à direita, e, em frente da salva e adiante de si, empilhava moedas de cobre e de prata, que tirava do repositório das esmolas acrescentando:
— Não se assustem... o meu é emprestado.
De quando em quando, escutava-se uma reclamação, uma rezinga, imitando o jogador duas vozes distintas, isto é, a sua e a das almas.
— Cinco e três, oito. Peço uma!
— Seis e três, nove. Ganhei!
E o tinido do dinheiro arrecadado coroava o final da partida, sendo distribuídas novas cartas do mesmo ou de outro baralho.
— Quero uma.
— Quatro e cinco, nove. Ganhei de boca!... Não pode!
— Mostre o jogo!
— Não mostro!
— Nada! Desta vez vocês me enganaram, minhas alminhas. — Exclamava ele, carregando com todo o dinheiro e metendo-o na arca do quarto de dormir.
No ajuste de contas com a confraria, a qualquer observação do tesoureiro, à vista do resultado quase negativo da salva, o Chico Cambraia abanava com a cabeça, encolhia os ombros e retorquia paciente:
— Meu amigo, o negócio não pinga, porque os tempos estão bicudos.
Voltando à casa, caía na boa peixada, no excelente vinho, no clandestino pacau e nas modinhas, à espera da próxima segunda-feira, em que visitava os seus fregueses e percorria a cidade, de opa verde e bacia de prata, pedindo aqui e ali, sempre atencioso e correto:
— Pra missa das almas!
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