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Tipos populares do Rio antigo

O padre Quelé

Melo Morais Filho

Era um pardo já velho, magro, corcunda, cambaio, de rosto comprido; andava apressado, suspendia o passo como quem caminha na lama ou na areia.

Não chegando a receber as quatro ordens menores, ficou em prima tonsura, pelo que usava barba rapada e coroa de minorista.

Antes de sua extensa popularidade, o nosso aprendiz de padre chamava-se o senhor Claudino.

Idiota de nascimento, excêntrico em seus hábitos e erótico às ocultas, essas três qualidades juntavam-se a tendências hipócritas, a religiosidades exageradas, a costumes bizarros, que tão maravilhosamente concorreram para a sua justa celebridade como tipo de rua.

Desde a sua iniciação no sacerdócio, o pardo Claudino manifestou-se publicamente maníaco. Andava sempre de batina, sapato de fivela e meia preta, barrete fechado na mão e capa magna traçada, objetos esses que filava de monsenhor Narciso.

Debaixo do braço, — costume que conservou até a morte — trazia inseparável um maço de jornais, que lia quando cansava de andar, sentado no último degrau da escada de algum corredor.

Aqui e ali, mas sem parar, roçava nos transeuntes, estendia sorrateiro a mão livre, e dizia também, rápido e baixinho:

— Camaradinha, me dá um vintenzinho?

Imbecil e carola, no começo de sua vida de clérigo era infalível às ladainhas dos sábados na igreja do Carmo; porém, sendo tatibitati, acontecia que, em vez de pronunciar Kyrie eleison, respondia, acompanhando a reza: "Quelé", ficando por isso conhecido por padre Quelé.

Desde então os moleques formavam na rua um estado-maior saltitante, atroador e festivo.

— Ó Quelé! ó Quelé!

E o Quelé corria, descompunha, soltava palavradas, não deixando de pedinchar amedrontado, assombrado, a esta ou àquela pessoa, junto de quem resvalava:

— Me dá um vintém, camaradinha!

— Ó Quelé! Ó Camaradinha!... Ó padre Quelé!

Condoído do pobre homem por ver a batina de sacerdote assim desacatada, o delegado de polícia dr. Cunha determinou-lhe que não trouxesse mais as vestes que usava, ao que o Quelé acedeu sem recalcitrância.

A reforma não podia ser mais radical: no dia seguintes o Quelé fez a sua entrada na cidade e nas ruas vestido de casaca, calça curta e muitíssimo larga, conservando unicamente sapatos baixos, meia de seda, coroa aberta e o maço de jornais sobraçado.

Sempre de chapéu na mão, jamais relaxando o rigor deste figurino, o Quelé ou o Camaradinha afrontava as vaias, as pedradas, as tempestades dos moleques pacholas e vadios:

— Ó Quelé! Ó Camaradinha!...

— Camaradinha, me dá um vintém?

O padre Quelé tocava violão e cantava lundus em casas conhecidas, gostava de falar mal da vida alheia, era avarento, e entretinha relações de amizade com um distinto médico residente no largo do Rocio, a quem dava a guardar o que recebia de esmolas.

Em várias ocasiões era surpreendido nos corredores e atrás das portas, aumentando-lhe a demora nesses lugares o enfraquecimento progressivo das faculdades cerebrais.

O Camaradinha faleceu em 1876.

Todos os jornais anunciaram-lhe a morte, inclusive o Jornal do Commercio, que lhe consagrou um esplêndido folhetim escrito por Ferreira de Menezes.

 

(Morais Filho, Alexandre José de Melo. Festas e tradições populares do Brasil. Belo Horizonte, Editora Itatiaia, 1979 (Reconquista do Brasil, 55), p.284-285)

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