Muita gente existe que se lembra ainda do célebre Policarpo, estimado músico da capela imperial.
Quando nos contaram sua vesânia, achamos interesse no tipo, digno certamente de figurar nesta pequena galeria de monomaníacos, alguns dos quais retratam com a maior fidelidade certo lado especial da época em que viveram.
Não é precisamente este o caso do músico acima; porém o que é fora de dúvida é que o Policarpo dá a medida da importância que se ligava aos alienados, no tempo em que ele viveu livremente com a sua enfermidade, com a sua mania.
O Policarpo era um homem alegre, expansivo, jovial. Na capela os companheiros o tratavam com amenidade e o distinguiam com louvor.
De um momento para outro, notou-se-lhe diferença nos modos, nos gestos, no semblante.
Da maneira por que esse fenômeno se havia operado, nunca pudemos evidenciar, embora o nosso empenho fosse seguido e pertinaz.
Procuramos diversas pessoas que o conheceram, que o viram cumprindo o seu fadário de louco, e nem por isso mais adiantados ficamos.
E como se revelaram as perturbações mentais que o constituíam alvo das atenções populares, e lhe davam entrada no palácio aéreo dos tipos de rua?
Do modo o mais simples e original; sob forma palpitantemente nova e característica.
O Policarpo não implicava com os vizinhos, não provocava os transeuntes, não descompunha a ninguém.
Até aí fora injustiça qualquer acusação, qualquer censura, a mínima desconfiança a respeito de sua integridade mental.
Das cinco horas da tarde por diante, o negócio complicava-se: o Policarpo tomava um largo paletó de padrão escocês, enfiava a cabeça em uma carapuça de baeta vermelha, pegava na rabeca, metia-a debaixo do braço e saía...
Mas onde ia o Policarpo com o seu sonho insensato? Com tal assiduidade, a que castelo feudal se dirigia aquele menestrel de carapuça e chambrão?
À casa do seu amigo Paiva, empregado no Correio e residente à rua das Marrecas.
Apenas entrava, o Paiva agarrava o violão, consertava a prima, afinava-o, percorria a escala, e ambos vinham para a rua.
E da porta do Passeio Público ao chafariz das Marrecas, e do chafariz das Marrecas à porta do Passeio Público, o Policarpo e o Paiva andavam em amoladora serenata, desde o escurecer até à meia-noite, executando apenas duas peças de música, aborrecidas e desconchavadas.
Imagine-se um instante o suplício da vizinhança!...
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