Antônio Francisco de Paula, por antonomásia — o Bolenga, nasceu em Itaboraí, freqüentou o Seminário de São José, nunca conseguindo passar do Mundus a Domino constitus est, durante cerca de dez anos que cursou as aulas de latim.
O Bolenga era baixote, claro, de olhos verdes, sempre oval, trazia cabelo rente, andava quase sempre de chapéu na mão e limpando o suor com um lenço de rapé, grande e vermelho.
Trajado de preto, por baixo do colete e da sobrecasaca ensebada assentava o cabeção de padre, a volta guarnecida de uma renda estreita e suja, dificilmente conciliáveis com a atual teoria dos micróbios.
Formigão crônico, chegou a receber a primeira das ordens menores, interrompendo a sua brilhante carreira para entrar como donato no convento de Santo Antônio.
Não lhe convindo o emprego, porém persistindo na mania religiosa de ordenar-se, foi ser sacristão de São Pedro, do Carmo, de diversas igrejas e finalmente da capela imperial.
Constantemente burlado em sua primitiva vocação, o amável e simplório Bolenga pretendeu ser nomeado bispo para a diocese que mais de pronto vagasse.
Os pândegos, que não dormiam, tomaram o padre Paula para seu divertimento e, já na capela, já nas secretarias, o desfrutável Bolenga girava numa roda-viva.
Mandavam-lhe presentes de mitras compradas nos belchiores, enviavam-lhe decretos de nomeação redigidos em latim macarrônico e autenticados com selos extravagantes, ao que o tonsurado idiota prestava fé, julgando-se feliz.
E choviam os ofícios relativos ao cargo que ia exercer, cartas de parabéns pela acertada escolha, partindo ele, pouco depois, a mostrar esses documentos aos monsenhores, cônegos e mais padres do coro da capela, que riam-se ou procuravam desiludi-lo.
— Ah! — dizia o Bolenga, levantando para um lado o rosto e arregaçando uma das extremidades do lábio superior — ah!... fui nomeado bispo do Maranhão, ah!... e os navios do estado estão preparados para me conduzirem à diocese, ah!
E mostrava os papéis.
Uma vez, recebeu um ofício que o empresava a comparecer no Tesouro, onde receberia um caixão de libras esterlinas, a ajuda de custo da viagem.
E Bolenga não faltou.
Algumas vezes, desconfiado da gaita, isto é, supondo propositais as delongas, vestia a batina, procurava os ministros em audiência e queixava-se amargamente dos empregados da secretaria do Império e da Recebedoria da Corte, por não o despacharem com urgência.
— Ah! senhor ministro, seus empregados são tão descansados, ah!... tenho perdido tanto tempo, ah!...
Os padres e os funcionários públicos, autores ou implicados no negócio, debicavam ou desculpavam o pobre velho, que, como último recurso, seguia para o paço de São Cristóvão, levando a sua majestade o imperador os seus motivos de agravo contra o expediente da repartição do império.
— Ah! imperial senhor, ah!... Que tanta demora nas secretarias, ah!... Venho agradecer a vossa majestade a minha nomeação de bispo, ah!... Estou cansado de tamanha lida, ah!...
O imperador que sabia-lhe da maluquice e que o conhecia da capela, tratava-o com favor e bondade.
Faleceu este homem, que era honesto, leal e agradecido, em 1879, na avançada idade de 74 anos.
No seu caráter de tipo de rua, o Bolenga foi o único, talvez, que passou incólume das pedradas dos moleques, e das surriadas dos vadios.
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