Haviam-se inaugurado as conferências da Glória, em que muitos oradores conquistavam fulgurante renome entre o seleto auditório que as freqüentava.
A rapaziada folgazã daquele tempo não as tomava a sério, não se preocupava com elas, senão no que poderiam ministrar de explorável para o ridículo e para a pilhéria.
Desse fato, deveras natural, algumas foram as lembranças de fino espírito, sobressaindo a todas a idéia de outras conferências que fizessem contraste, e para o que tornava-se preciso um orador adequado.
Aos modernos Diógenes da troça nem foi necessário acenderem a lanterna, pois o encontraram sem o menor esforço, sem a mínima dificuldade.
Como é sabido, as vocações geniais denunciam-se cedo, embora empanadas pelo nevoeiro da modéstia.
E foi precisamente o que se deu com o príncipe Natureza, o Mirabeau caçanje das conferências do Recreio, no ano de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1878.
A bem da autenticidade da narrativa, cumpre adiantar que os preliminares do sucesso e a iniciação do príncipe orador tiveram lugar em uma casa à rua da Imperatriz, onde residia uma família ilustre, cujos filhos tomaram a si o encargo de adestrá-lo na arte da palavra.
Dentre estes, esmeraram-se no intento, um que era oficial de marinha, e outro presentemente falecido.
Quem era, porém, esse gênio que se antecipava aos lauréis do triunfo? Quem esse modelo de assombrosa eloqüência em vésperas de sua apoteose?
Nada mais nem nada menos do que o africano Miguel, outrora escravo dos frades de São bento, e empregado depois de liberto como servente em uma das repartições da Marinha.
Negro de estatura regular, cheio de corpo, maior de quarenta anos, a sua cor fula harmonizava-se com os cabelos pouco carapinhados que guarneciam-lhe a testa, separando-se em largas entradas. Usava barba cerrada, tinha as pernas um pouco bambas e arqueadas, e pés chatos, o que é comum nos indivíduos da sua raça.
O príncipe Natureza, uma vez empregado na Marinha entregava-se nas horas de lazer ao fabrico de pequenos espanadores de lindíssimas penas, com que presenteava às senhoras e famílias dos oficiais, captando com isso relações e simpatias.
Abundante de expressões, batendo boca por dá cá aquela palha, o Natureza dissertava sobre assuntos múltiplos, perdendo-se numa declamação apaixonada quando tratava da maçonaria e dos portugueses, dos quais constituiu-se inimigo intransigente e irreconciliável. Da primeira, porque a considerava herege e perseguidora do mosteiro; e dos segundos, porque o haviam trazido escravo para o Brasil, privando-o de sua soberania e de seu reinado.
Exaltado por essas razões e impagável em sua logorréia, no momento oportuno ei-lo figurando no salão da rua da Imperatriz, em meio de aplausos, de risadas, de um debique infernal.
Dos três moços C..., especialmente o oficial de Marinha preparava-lhe os discursos, a encenação tribunícia... A competente mesa, a moringa com água e o copo lá se achavam, indispensáveis ao orador.
É força dizer que o ilustre personagem não era um desconhecido, porém o portador de um nome titulado e brilhante. Chamava-se sua alteza o príncipe africano dom Miguer Manoer Pereira da Natureza, Sová, Gorá, Vange; era do conselho de sua majestade fidelíssima, súdito do senhor dom Pedro II do Brasir, condecorado pelo senhor Miguer I de Portugar, grã-cruz dos príncipes de Marta do tempo de Afonso Hanriques.
E dom Miguer Manoer aproximava-se da mesa, apoiava as mãos, espichava o pescoço, tossia, compassava o auditório.
Apenas dizia: — Meus sinhô! — a rapaziada que ocupava o salão interrompia, ouvindo-se uma voz:
— Beba água!
E o príncipe bebia alguns goles... Depois recomeçava, declamando, observando os reparos dos ensaiadores, que, de quando em quando, para subordiná-lo à arte de respirar, repetiam: — beba água! — acompanhado de estrondosas gargalhadas.
Sua alteza dobrando a língua, arengando numa nagosada impossível, tinha de cor os trechos de seu discurso, em que a maçonaria e os portugueses chupavam constantes sarabandas, resultando do crescente entusiasmo o esbofamento do tribuno Vange, atenuado apenas pela satisfação imediata de sua parte ao insistente reclamo:
— Beba água!
Assim disciplinado, cuidadosamente revisto para as exibições públicas, o Teatro Recreio abriu de par em par as suas portas às sonoridades de sua eloqüência, sendo vastíssimo desta vez o programa de sua conferência extraordinária.
Apesar de príncipe, sua alteza manifestava-se democrata por índole, imprimindo em sua palavra o relevo das grandes idéias.
A sua primeira conferencia, que teve lugar em um dos domingos de maio de 1879, foi um acontecimento dos mais notáveis, um marco de jornada assestado pela oratória, projetando a sua sombra ao longo dos horizontes da democracia moderna.
Eram onze da manhã e já havia enchente no Recreio, os camarotes, as galerias, todos os espaços, finalmente, exuberantes de curiosos, acentuavam o sucesso das ovações estrondosas, a ansiedade com que era esperado o verbo incendido do novo Cícero de escama preta.
E a música tocava lá fora, os rapazes estavam na caixa do teatro, cuja cena aberta representava uma sala, tendo à direita uma cadeira, e à esquerda uma mesa coberta com um pano verde, sobre a qual viam-se uma moringa com água, um copo de vidro e alguns cadernos de papel.
E súbito, estrepitosamente aclamado, adianta-se no cenário o democrático príncipe, colocando-se entre a cadeira e a mesa, e assumindo a pose das inspirações excelsas.
Com a fronte descoberta, vestido de preto, destacava-se-lhe pendentes do cachaço, ao longo do peito, uma cruz de prata, ao mesmo tempo que realçava-lhe à abotoadura da casaca a condecoração de Maria.
Trazia colete aberto, sobre o qual reluzia uma outra cruz de prata, calçava luvas brancas de algodão, destoando das botinas largas e acalcanhadas, em luta sem trégua com a bainha das calças pisadas pelos tacões.
À impaciência do auditório o silêncio fizera-se por instantes, e o Gorá Vange ergueu os olhos ao céu, suspendeu o braço e a mão enluvada, dando começo aos vastíssimos temas de sua conferência.
Opulentíssimo em conhecimentos históricos, descreveu uma entrevista de Pedro V com Afonso Henriques, em que trataram da questão maçônica com os frades de São bento, remontando-se nesse exórdio a pujança de sua eloqüência a alturas incomensuráveis, as quais descambava emocionado às palmas da multidão e aos gritos dos seus ocultos paraninfos:
— Beba água! beba água!
E dos camarotes agitavam-se lenços, a capadoçada batia com os pés, os "bravos!" irrompiam profusos, ouvindo-se também de entre o povo a reprodução das vozes de cena:
— Beba água! beba água!
Sua alteza, comovido e obediente, esvaziava copos e mais copos d'água, com que apagava por instantes o calor incandescente dos lavores de seu estilo.
E numa opulência de frase surpreendente, numa gesticulação e acenado singulares, pinoteava por sobre outros assuntos, até abordar o choque de pai e mãe, originalíssima concepção do orador Natureza, com que terminou a primeira conferência.
O choque de pai e mãe era uma dança de bunda com bunda, em que a eloqüência acompanhava a ação.
Aí o teatro vinha abaixo de gargalhadas, de palmas, de "bravos", de bater de pés, de bis, ultimando por gritos, que saíam da caixa do teatro, da platéia, dos camarotes, das galerias:
— Beba água! beba água!
Quando a segunda moringa esvaziou-se e o príncipe Natureza não tinha mais louros a conquistar, fez uma ligeira pausa, e nos surtos arrebatados de seu gênio deixou rolar este trecho de sublime eloqüência, que molda em uma frase o sentimento democrático e o estendal de sua linguagem escolhida e vibrante.
O príncipe disse: "Imperadô. que é imperadô? não é nada; a tera come ere. No frigi de carre, si vê gurudura. Vamos embora!"
Exemplificando o cumprimento de sua determinação, deixou ele o palco, transpondo a saída, sendo recebido no largo do Rocio pelo numeroso povo que o ouvira.
Precedido de charanga e acompanhado de proclamante séquito, fez sua tumultuosa entrada na rua do Ouvidor, indo pessoalmente cumprimentar as redações.
O príncipe realizou mais conferências.
Desta, as espórtulas foram recolhidas pela Sociedade Abolicionista e serviram para a remissão dos cativos.
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