Ainda continua solto no espaço e, por assim dizer, incompreendido pela cultura nacional, o grito de alerta que Sílvio Romero lançou em 1888, no seu estudo sobre a poesia popular no Brasil, indignado com o marasmo científico da época:
"Quando vemos homens, como Bleeck, refugiarem-se dezenas e dezenas de anos nos centros da África somente para estudar uma língua e coligir uns mitos, nós que temos o material em casa, que temos a África em nossas cozinhas, como a América em nossas selvas, e a Europa em nossos salões, nada havemos produzido neste sentido! É uma desgraça!"
Esta advertência Nina Rodrigues estampou na abertura de Os africanos no Brasil, como um dos poucos estudiosos que compreenderam o valor daquele aviso e nós, por mais de uma vez, já o publicamos. Infelizmente, raros foram os pesquisadores que se interessaram pela etnologia e o folclore brasileiro, podendo-se catalogar, facilmente, uma meia dúzia de estudos sérios durante quase cinqüenta anos após a clarinada de Sílvio Romero. Afora os contos populares recolhidos pelo folclorista sergipano, Melo Morais Filho, Pereira da Costa, João Ribeiro, Lindolfo Gomes, Simões Lopes Neto, Mário de Andrade e Câmara Cascudo, abrangendo as áreas de Sergipe, Alagoas, Bahia, São Paulo, Rio Grande do Sul e do Norte, assim mesmo, de forma incompleta, restam-nos zonas completamente virgens, onde nunca se realizou uma pesquisa organizada nem ao menos se viu um trabalho sério sobre o folclore novelístico. Seria importantíssimo para a nossa cultura folclórica se o Terceiro Congresso, a realizar-se em Salvador, tomasse como uma de suas atribuições nomear, estimular e conseguir fundos para que se efetuassem caravanas de estudiosos, e não de turistas, a determinadas áreas culturais, com a finalidade de recolher material.
Do Estado do Rio de Janeiro, tão perto da capital da República [1957], não se conhece um livro especializado sobre folclore. No entanto, é uma região riquíssima de tradições populares, possuindo um folclore a desafiar os estudiosos. A baixada fluminense, cujos habitantes, antigamente, eram chamados de papa-goiabas, possui um anedotário demopsicolóquio em torno da origem desse apelido dos mais jocosos, traduzindo o espírito de verve do nosso povo. Contam os habitantes da parte serrana, conhecidos também por galos-de-campina, que o povo de São Gonçalo dos Campos, município típico da área baixa, ficavam muito orgulhosos devido a fartura que reinava nessa época durante a safra de goiaba. Diziam eles que durante a safra, passou por lá um viajante e encontrou um garoto na estrada, e como necessitasse de uma informação, perguntou:
– Ô, menino, donde você é filho?
O garoto empinou o peito, avançou para o viajante, e respondeu ríspido:
– Sou filho de São Gonçalo dos Campos. Você quer brigar?
Depois, passados alguns meses, o viajante andou novamente por lá e quis o acaso que encontrasse o rapazinho. Não dando importância ao primeiro encontro, tornou a indagar:
– Você é daqui?
O garoto, de cabeça baixa, com voz lamentosa, falou:
– Sou filho de São Gonçalo dos Campos. A bênção, me dá um vintém...
Ainda sobre São Gonçalo há uma história que o folclore espalhou, causando raiva aos seus naturais. Trata-se de uma procissão. Ia o andor pela estrada no dia do seu padroeiro, conduzindo a imagem de São Gonçalo, quando, por um descuido dos fiéis, a destra levantada do santo esbarrou num galho de goiabeira que se debruçava, carregadinho sobre uma cerca. O coronel, dono do sítio, ignorante, exclamou possesso:
– O santo quer roubar a minha goiaba!
E zás-trás, deu uma varada na mão da imagem, arrancando a mão do padroeiro, sob a vista indignada dos romeiros, impotentes de fazer uma reação por ser o coronel a maior força política do município.
De historietas como essas, o fabulário fluminense está cheio. E não só historietas, mas contos e fábulas e canções e autos. Como exemplo, apresento uma variante que achei em Maricás de um dos contos colhidos por Silva Campos, na Bahia – O gavião e o pintinho – que aparece com a designação de O gavião que batizou o pintinho. É assim:
Um dia, estando o gavião com uma fome danada e não encontrando nada para comer, teve uma idéia. Voou até a casa da comadre para convidar o afilhado a dar um passeio.
Chegando lá, conversou um pouco. Depois, virou-se para a comadre galinha e disse, mansamente:
– Bem, comadre, vou chegando.
A galinha, orgulhosa, cacarejou para o pintinho:
– Venha tomar a bênção ao dindinho.
Aproveitando a ocasião, o compadre pediu:
– Ô, comadre, você deixa eu levar o meu afilhado para dar um passeio?
A galinha pensou, pensou, e respondeu afirmativamente:
– Vá, mas não vá para longe. Não se demore.
O gavião respondeu amavelmente:
– Está bem comadre.
Com o bico, apanhou o afilhado e bateu asas.
O bem-te-vi, que estava atento no alto de um bambu, gritou:
– Vai pro arroz, seu safado.
E o pintinho, inocente, respondeu:
– Vou passear com dindinho
Mas o bem-te-vi continuou insistindo:
– Vai pro arroz, seu safado.
E o pintinho, já um tanto assustado, ainda respondeu:
– Vou passear com dindinho.
Como o bem-te-vi não deixasse de repetir o aviso, o pintinho quis que o gavião confirmasse.
– Diga, dindinho, que vou passear com o senhor.
Descuidando-se, o padrinho falou:
– Vai passear com dindinho.
E o pintinho caiu no espaço, batendo no chão com força e exclamando:
– Credo!
E, com as pernas arqueadas, saiu correndo.
A galinha, que a tudo assistia, gritava:
– Meu Deus, que desgraça. Meu Deus, que desgraça!
Enquanto o galo gritava:
– Mete o pau! Mete o pau!
Mais interessante que a versão baiana, esta fábula introduziu outro personagem, o bem-te-vi, verdadeiramente autóctone, dando-lhe graça e mais efeito moral. O bem-te-vi significando prudência e o aviso sempre alerta contra o perigo. Esse mesmo pássaro vamos encontrar numa das belas passagens de O guarani, de José de Alencar, justamente avisando Ceci contra o perigo que a estava ameaçando. É, ao lado das araras e dos papagaios, um dos pássaros de predileção dos nossos aborígenes.
Ainda poderíamos incluir aqui a história do bacurau, coligia também em Maricás, onde o homem do interior procura interpretar a razão de ser do canto dessa ave.
O bacurau costumava lavar a roupa dos outros pássaros, recebendo, em pagamento, comida. Sabendo disso, a coruja chamou-o e entregou-lhe a roupa para lavar (e dizem que, nesse época, a coruja possuía boas roupas).
O bacurau levou a trouxa, lavou-a e depois vendeu-a.
Passado algum tempo, os dois se encontraram e a coruja perguntou pela roupa.
– Você não vai lavá-la?
O bacurau, então, respondeu:
– Amanhã eu vô... amanhã eu vô...
Iguais aos apresentados, há uma infinidade de histórias espalhadas pela grande área fluminense, esperando que os folcloristas decidam recolhê-las, recordando-se das afirmativas de Sílvio Romero. Recolher, recolher sempre, documentando-as, para, com mais vagar, fazer o estudo das origens das influências, das variantes. Esse é o papel do etnólogo e do folclorista.