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Tema do Mês

Fevereiro 2010 - Ano XII - nº 133

O endiabrado Mandim
Música dos chifres ocos e perfurados
Balão colorido
Cara ou coroa
Erro de burro
Certos mistérios indecifráveis
Folhas de canela
Fiscal de quintais

 

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Lendas e superstições

Certos mistérios indecifráveis

Ademar Vidal

A gameleira é uma árvore sobre a qual paira uma certa desconfiança de ser azarenta. Assim como os homens conhecidos sob essa maligna influência de fluidos, existem árvores que o povo considera fonte de prejuízos, maldades — e morte inevitável, rondando por perto, quando tudo fazia crer ela andasse bem por longe. A força do azar apressa um desfecho desgraçado. A barriguda, por exemplo, é detestada pelos lenhadores, pois, além de gorda e balofa, não presta quase para nada. É verdade que serve de ótimos enchimentos para colchões e travesseiros. Essa árvore, porém, não é tanto como a gameleira, mas ninguém aprecia a sua presença. Falam também, muito do jenipapeiro, e não se sabe qual o motivo. Deve haver alguma razão plausível que ninguém explica. Como ainda ocorre o mesmo quanto ao pé de sapoti tão frondoso e cujos frutos são tão gostosos. Alegam que ele é mal-assombrado, acolhe visagens durante as noites escuras, umas sombras ligeiras e buliçosas. Então nas noites claras as coisas se acentuam ainda mais. É ninho preferido dos morcegos — e bem pode ser que venha disso uma explicação qualquer.

O povo deparando qualquer fruta chocha, diz logo que a "lua comeu". Ou sejam: caju queimado pelo relâmpago ou maturi, manga escura de um lado, coco sem água, goiaba e araçá minguados, enfim, todo fruto defeituoso nas formas ou então, e mais precisamente, sem o miolo inteiro ou em parte, outra explicação não se colhe senão aquela onde entra a "participação criminosa" do astro frio e romântico. Até as raízes que servem de alimento para o homem não escapam ao comentário, desde que se achem defeituosas, mirradas ou finas demais, sem que haja mesmo o menor jeito de serem aproveitadas. A cana sofre igual crítica. E por motivo qualquer os gomos ficam encarnados e meio azedos. Já se sabe que foi a lua quem andou por ali. Decerto que tem qualidades de estômago excepcional e em condições de suportar os alimentos mais complicados.

Por que se insiste em aliar à lua verdadeiros furtos em que existem os prejudicados? Pelo menos certa cumplicidade até os incrédulos admitem como incontestável.

Nos tempos da escravidão eram mais acentuadas essas preocupações. Contam que Jesus, São Pedro e São José andaram em passeio pela várzea e, certa ocasião, precisaram descansar os corpos fatigados por longas vigílias e caminhadas. Descansar aonde? Não havia senão desolação e matas virgens. Afinal avistaram destacada casinha na paisagem verde. Para lá se botaram na esperança de conseguir pouso amigo. Realmente encontraram dois velhinhos que fizeram tudo no sentido de proporcionar-lhes algum conforto. Desmancharam-se em agrados. Foram mesmo fidalgos na humildade do lar onde floria apenas a juventude da filha única. Jesus e seus companheiros se sentiram supremamente satisfeitos com a hospedagem. E como agradecer as amabilidades de que foram alvo direto? Foi quando veio a idéia de transformar a mocinha na árvore que dá almíscar para perpetuação da bondade em forma de essência vegetal.

Grande parte dessas lendas e superstições se deve à colaboração dos negros cativos que eram fartos de pitoresco e imaginação criadora.

Conta-se ainda que um frade fora beneficiado por esmagadoras atenções do senhor do Engenho Cumbe. Ficara sem modos para cuidar somente do pagamento espiritual. Rezas seriam suficientes? Na dúvida ensinou uma receita para o seu amigo que se queixava de males incuráveis. Havia cura para tudo neste mundo. A questão era se conhecer as estradas por onde se deveria seguir confiantemente. Foi nesse momento que preparou a meizinha, além de dar-lhe os detalhes da receita: remédio destinado à vida íntima dos precisados. Bebida de infusão, tinha a propriedade de levantar as forças perdidas, e nada de usar e abusar, por isso que de uma feita o caso criado por certo casal tomou foros de escândalo.

Tempo de Inquisição, teve de ser apreciado no tribunal e, de investigação em investigação, se descobriu finalmente o autor da infusão que acarretava "tantos vícios e muitos danos". Descobriram a receita. O frade sofreu pena. E a corte de justiça reacionária entrou a experimentar a bebida diabólica. O gosto teria se generalizado. Mas ninguém sabe felizmente ou infelizmente como se compunha. Perderam a receita.

Então, em matéria de influência da lua e do sol, das estrelas, bichos que aparecem subitamente e demais imprevistos, há enorme quantidade de mitos e lendas, histórias que correm boca — influências que explicam bem as desconfianças populares. Se aparece alguma voz discrepante, chama a atenção de todos, provocando reações e, as mais das vezes, até discussão violenta. É conhecida aquela passagem em que um sacerdote ocupava o púlpito da aldeia no sermão do mês de março. A igreja cheia. O mulherio cochichava e nem compreendia bem o que o padre estava dizendo. Todos, no entanto, foram violentamente despertados, após insólito aparte surgido do lado — e que partia de sujeito mal encarado e aborrecido.

— Este ano não será seco e não será porque Deus está no céu.

É quando se ouve a palavra do devoto contrariando violentamente o que dizia o sacerdote em seu sermão:

— Aonde ele estava na seca de 77 e de 15?

O rolo que se seguiu não foi deste mundo. O desaforado apanhou a valer somente porque duvidara da palavra do representante de Cristo. As mulheres gritavam e os homens se engalfinharam. Para restabelecer a ordem se fez necessário que o padre ameaçasse de amaldiçoamento a todos que estavam desrespeitando o recinto sagrado em que se faziam orações e não era de modo algum destinado a lutas corporais. E por causa dessa briga e desse evidente pecado sofreu a aldeia um ano de miséria infinita. Aqueles que brigaram foram mal-sucedidos na vida. Uns adoeceram, outros morreram, outros perderam em negócios e, lembrando-se bem, a causa foram os sopapos e os socos que a igreja serviu de teatro. Certamente foi por isso que o número de velas acesas aumentou a arrecadação das esmolas nas missas de domingo naquela aldeia de Deus.

Tantos mistérios indecifráveis não procedem sempre desses casos místicos. Procedem de razões que pertencem a eras passadas sujeitas a múltiplas influências de um conjunto de raças diferentes. É como se explicam. Pois não se concebe o motivo por que o camponês nordestino desconfia de certos pássaros lindos como a araponga e o pombo, como olha de soslaio certos répteis e insetos inofensivos, como se preocupa quando o cachorro uiva sem ver de quê e, nessa marcha, poderia ser apontado extenso rol de outros exemplos.

Os reinos vegetal e animal predominam no fornecimento de motivos os mais interessantes. Predominam? Sim, predominam após o conjunto de influências decisivas que procedem diretamente dos astros. Uma comunhão de "entendimentos" alimenta a existência espiritual de populações simples e crédulas, supersticiosas — e de cabeça baixa ante as surpresas do céu e da terra, através de suas imagens e de suas vozes ocultas.

(Vidal, Ademar. Lendas e superstições; contos populares brasileiros. Rio de Janeiro, Empresa Gráfica O Cruzeiro, 1950, p.315-317)

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