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Tema do Mês

Fevereiro 2010 - Ano XII - nº 133

O endiabrado Mandim
Música dos chifres ocos e perfurados
Balão colorido
Cara ou coroa
Erro de burro
Certos mistérios indecifráveis
Folhas de canela
Fiscal de quintais

 

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Lendas e superstições

Cara ou coroa

Ademar Vidal

A mania de adivinhar o tempo, se ele vai ser bom ou ruim, é coisa que ocupa o juízo do sertanejo, empolgando-o. Em tudo ele vê a mais positiva manifestação de felicidade ou desventura: inverno ou seca. Destes dois fenômenos está a depender a balança. Então passa a fazer mil conjecturas. Se o ano corrente foi de fortes chuvas e inundações, por certo que o vindouro será de ausência absoluta de água. É sinal que não tem nem base razoável nem muito menos feição de infalibilidade. Mas vive a pensar no futuro com sofreguidão absorvente. Acontece que pequenas chuvas parciais, ou "mangas" como são denominadas, tornam essa ansiedade cada vez mais preocupada, pois que o panorama toma cores indecisas se o inverno será generalizado ou não.

Os votos do espírito místico do sertanejo convergem sempre para um só ponto: água — e que ela venha em abundância porque representa a fortuna para todos.

Não se pega indivíduo dessa região que não seja bastante entendido em astronomia. São astrólogos por natureza. Observam a barra dos dias de Natal e do Ano Bom. Não perdem de vista a experiência. E tiram as suas conclusões moldadas na forma como surgiram as auroras daqueles dias de dezembro. Conforme o resultado, conforme os acontecimentos de amanhã — seca ou inverno. De modo que o sete-estrelo, a mancha do sul, o "carreiro" ou "carrego", o "circo da lua", o ocaso do sol, o céu com nuvens pequeninas (céu com escama de peixe ou alados rebanhos de carneiros brancos), tudo isso significa sintoma de verdade desde que estudado nos seus detalhes. E com esse propósito são estabelecidas discussões entre os habitantes da zona para melhor esclarecimento do que tanto interessa à existência sertaneja. Resultados logo são tirados em caráter definitivo com segurança de causar pasmo.

E diga-se: raramente falham as previsões.

Mas também no meio dessa gente se destaca uma classe agudamente supersticiosa. Não. confia muito nos astros. Apega-se mais às experiências de Santa Luzia, ao partir das hóstias nas missas do Natal e Ano Bom — e nelas se firmam com unhas e dentes. Se as hóstias estalaram num som meio seco, adeus inverno próximo; porém, se o estalido foi surdo, em sonoridade amortecida, pode-se encomendar foguetão para as festas sanjuanescas. Os santos têm força inacreditável, eles podem muito e, quando querem, as manifestações de seu poder nunca falham. Ninguém que duvide. E se duvida é só esperar para ver. A crença, pois, é geral e, se porventura nada do previsto acontecer, foi tudo "por obra e graça dos poderes de Deus, que é grande". Até a culpa de erro às vezes é atirada aos próprios que andaram fazendo "observações apressadas" e tirando possíveis "conseqüências de doidos". Nunca os santos do céu estão equivocados nas suas determinações.

Há outro grupo mais apurado ainda nos estudos sobre a situação futura, fundamentando o critério nos sinais que oferecem algumas espécies dos reinos animal e vegetal — e nesses "sinais" põem atenção especial. Assim, o florescer prematuro ou demorado do umbuzeiro ou da barriguda, do facheiro ou do pau-d'arco, serve de argumento para fundamentar opinião segura e, com tal intuito, são feitas comparações do que se apurou no momento com o que se colheu em anos anteriores. Como também o canto de certas aves, o coaxar das rãs, a "mudança" de algun insetos, perdendo a casca, orientam o espírito sôfrego que deseja a todo custo penetrar "naquilo que há-de vir".

Os debates que se estabelecem, a respeito, por vezes se acaloram, não sendo incomum alguém arrematar com esta sentença: "Deus é quem sabe." E, então, ninguém discute mais, ficando o dito por não dito. Isto é — a confiança está baseada nos fatos concretos, mas pode acontecer que tudo falhe e, em tais circunstâncias, só mesmo Deus é que pode determinar a última palavra.

Inverno ou seca? Cara ou coroa? Nessa emergência duvidosa se mantém o sertanejo até o dia de São José, que é o limite máximo para a realidade aparecer em toda a sua lógica indisfarçável: chovendo com relâmpago e trovões ou, senão, o sol nem como coisa, montado lá no alto no seu carro de fogo, ameaçando a terra e os homens com a morte. Inverno ou seca? Cara ou coroa? Estas indagações se encontram sempre no ar por maneira angustiosa.

(Vidal, Ademar. Lendas e superstições; contos populares brasileiros. Rio de Janeiro, Empresa Gráfica O Cruzeiro, 1950, p.589-590)

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