Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
Edição do Mês | Edições Especiais | Edições Anteriores | Tema do Mês | Temas Anteriores | Por Autor | Por Artigo | Por Seção |
Tema do Mês

Fevereiro 2010 - Ano XII - nº 133

O endiabrado Mandim
Música dos chifres ocos e perfurados
Balão colorido
Cara ou coroa
Erro de burro
Certos mistérios indecifráveis
Folhas de canela
Fiscal de quintais

 

Apoio Cultural
Simplicitate Design

Veja como sua empresa pode apoiar a nossa iniciativa.

Lendas e superstições

Balão colorido

Ademar Vidal

No sertão é por demais sabido haver lugares onde se encontra ouro à flor da terra. Misturado com areia. A dificuldade é não haver muita água. E, como se sabe, a água facilita o encontro do metal. limpando-o, fazendo com que ele brilhe à vista de quem o procura. Em certos pontos se sabe até que existe mesmo em abundância, mas ninguém sabe como está enterrado, seria necessário bastante dinheiro e ainda maior esforço físico. Constitui eterno tira-sono. O ouro atrai o sertanejo com uns fluidos de sedução irresistível, fazendo-o muita vez infeliz, tornando-o comumente cético — e sem entusiasmos fáceis.

O céu não é estranho a esses movimentos auríferos. É certo que, quase sempre, se acha escondido e bem escondido, porém pode ser encontrado, dai havendo apenas necessidade de que venha o aviso. Dizer aonde ele está. Que seja apontado o sinal para guiar seguramente aos que o procuram. Essa manifestação das forças celestes vez por outra o homem vê com efusiva alegria. Desce do firmamento luminoso facho com as cores do íris, parecendo bem um balão gordo que, embora cheio de fogo, vai precipitar-se no seio da terra acolhedora. Houve quem já dissesse tratar-se de estrela cadente. Que estrela cadente, que nada. O negócio é muito diferente, mostra-se com outras virtudes, com outros sintomas, sente-se mesmo que vem como sinal indicador de tesouros escondidos.

Terá de cair em alguma parte aquele balão. Não se desconfia aonde ele teria descido. Tem-se a certeza. Foi naquela direção — e que se procure algum jeito de encontrá-lo. Não há notícia, entretanto, de quem haja sido favorecido pela sorte, apenas se suspeita do sítio, porque o ouro foi achado na areia, misturado com ela, devendo haver muito e muito escondido nas entranhas da terra. A questão é ter dinheiro suficiente para pôr mãos à obra, tratar de cavar galerias e fazer planos, remover obstáculos e, sobretudo, conseguir água. Obter água aonde? E aí se esbarra o desejo incontido pelo sonho. Dinheiro não há, água não há. E ficam esses movimentos sinaleiros de ouro a vagabundear aflitamente no espaço infinito.

Também se fala que no tempo da escravidão os senhores enterravam seus patacões de ouro e prata. Muito mais de ouro. Tinham medo de ser roubados quando o sol trazia seca e fome. As levas de retirantes bem que podiam levantar-se contra eles como já havia feito noutros lugares. A experiência mandava que se pusesse em segurança a fortuna existente. Dentro da terra estaria seguramente guardada. Era o que se fazia de modo geral. E aconteceu que muitos desses senhores morreram antes de desenterrarem o que tinham escondido. Não tiveram tempo de indicar aos filhos o sítio certo no qual se achava o ouro da família. A botija mágica. Todo o ouro ajuntado através de tantos sofrimentos e canseiras. Como poder adivinhar o ponto justo em que ele se encontrava? Só se houvesse uma "visage" [1] — ou uma manifestação de ordem sobrenatural, assim sim.

É quando começa a aparecer o balão luminoso, descendo. Não tinha outra finalidade que não fosse indicar o tesouro. Mas já agora esse balão se mostrava diferente do outro. Era menor e magríssimo, não era conhecido pela designação comum. Trazia outro nome de batismo — "bola de ouro". Mas uma bola de ouro com todas as cores do arco-íris. Vinha caindo devagarzinho e não violentamente. Descia em bamboleios graciosos. Seu evidente propósito não era outro senão revelar a direção exata das moedas enterradas. Ou minas de ouro em pó. Fixassem bem o lugar marcado pela interferência generosa do céu e depois tratassem de procurá-las. Seria coisa matemática, ao dizer do sertanejo: certa como boca de bode.

A bola de ouro não falhava, não mentia. Era fiel. Se vinha de cima, vinha com a deliberação de mostrar a verdade. E o fato é que muita gente desenterrou ouro. Muita família ficou rica de um dia para outro, num fechar e abrir de olhos.

 

Nota
1. O fogo fátuo é considerado como visagem ou espírito errante, alma penada, aparecendo às vezes com intuitos maus. No litoral chamam-no "batatão", na Zona da Mata e na região sertaneja é comumente conhecido por "visage". Até os índios dão notícia dele, temendo-o. Enquanto os negros escravos achavam que era simplesmente o "fogo da noite" ou sinal de "alma do outro mundo".

(Vidal, Ademar. Lendas e superstições; contos populares brasileiros. Rio de Janeiro, Empresa Gráfica O Cruzeiro, 1950, p.579-580)

Home | Revista | Catavento | Almanaque | Realejo | Downloads | Colaborações | Mapa do Site
Assine nosso boletim | Central dos Leitores | Expediente | Apoio Cultural
Jangada Brasil © 1998-2009. Todos os direitos reservados. | Fale Conosco | Termos e condições de uso