Mestre Téo Brandão, na magistral obra Folguedos natalinos de Alagoas, contando com inquéritos realizados pelo IBGE e com informações pessoais do folclorista maior, faz um levantamento completo de todas as manifestações da lúdica folclórica no Estado de Alagoas. Nesse levantamento realizado em 1957, foi registrado o folguedo negras da costa, em dois municípios alagoanos: Santana do Ipanema e Mata Grande, como derivantes de grupos de maracatus.
Em Quebrangulo aparece o registro de maracatus e não negras da costa; o informante do IBGE, talvez consciente das origens desse folguedo, preferiu denominá-lo pela forma originária, o maracatu.
As características da negra da costa, assim como trajes, música, formação coreográfica, bem como a presença da boneca preta ou calunga, se bem que não seja símbolo de Santa Bárbara (ou Xangô), mas simplesmente calunga, boneca carregada geralmente pelo "pai véio" ao invés da "mãe véia", são realmente de maracatu.
Não se pode determinar a data que apareceu pela primeira vez o folguedo em Quebrangulo. Os antigos participantes, assim, como Elias de Capita e Zé Preto, afirmavam que a antiga sede da brincadeira, era na Baixa da Quixaba (rua 13 de Junho). O chefe mais antigo era Antônio Basílio, depois a batuta passou para Zé Preto, posteriormente para o Velho Bené, Paulo Gouveia e atualmente o diretor é Ozeinha Tenório.
Os antigos participantes eram: Elias de Capita, Marcos Pereira, Aurelinho, José Ferreira (Doca), Zé da Baia, Zeca Ferreira, Duza, Zé Bené e Mané Macaco.
O folguedo consiste em um grupo de homens com o rosto e braços pintados de preto com carvão vegetal, vestidos de baianas, com roupas alvíssimas, enfeitados de rendas, bicos, e para completar a indumentária um torso, brincos, pulseiras e anéis de miçangas.
A coreografia consiste em danças do tipo "samba de matuto", bem no estilo do baianal. Os dançarinos formam como as baianas e os pastoris, dois cordões, tendo no centro "pai véio" e a "mãe véia". A "mãe véia" traz na cabeça um balaio cheio de flores e frutos, e o "pai véio" carrega nos braços a calunga.
Os instrumentos musicais que acompanham os cantos e danças, são formados por ganzás e reco-reco, outrora usavam-se: ganzá, cuíca, pandeiro e reco-reco.
Os integrante do grupo obedecem ao dirigente, e tem a ele verdadeiro respeito.
No primeiro dia de carnaval, as negas da costa, partem da sede às oito horas da manhã, saem cantando e dançando pelas ruas, entram em casas de conhecidos, onde esperam receber dinheiro ou encontrar cachaça para tomar uns grogues, às três ou quatro horas da tarde, já cansados, voltam à sede, e depois retornam cada um para suas casas, gratificados com a brincadeira do dia, para nos dias seguintes, novamente abrilhantarem a folia momesca.
Do folguedo outrora participavam apenas, agricultores e pedreiros, atualmente o grupo é muito variado e jovem, consta de onze participantes e um dirigente.
As músicas
Em geral as letras das músicas são formadas por quadrinhas bem interessantes, mas, variam, há às vezes o improviso, dependendo do grupo participante e do pendor artístico deles. Entre as dez letras que conseguimos, duas delas tem inspiração em quilombos, folguedo que há 15 anos atrás, era muito aceito e praticado na localidade. Vejamos as letras:
Abre esta porta prá lá
Nega da Costa passá
Abre esta porta prá lá
Nega da Costa passá.
Nega da Costa quem vem ver
Apanhar macaiba prá vender
Nega da Costa que anda fazendo
Ando na rua comendo e bebendo
A minha saia
É de renda é de bico
Apanha laranja
No chão tico-tico
As menina me chama
Seu Paturi
Bota a mão nas cadeira
E deixa bolir
Ou Nega Véia só é Ana
Amarra a saia com gitirana
Ou Nega Véia só é Ana
Amarra a saia com gitirana
Ou Nega da Costa é Adão
Nega do pé espalhado
A Nega aterra os passo
Apanha no meio do quadro.
Atirei com a pistola
Na boca de um bacamarte
O amô que não for firme
É bom que a pistola mate.
Músicas inspiradas em quilombo:
Folga Nega, branco não vem cá
Se vier pau é de levá
Folga Nego, branco não vem cá
iririca faca de cortá
Estácio tá na cadeira
Chorando que nem pagão
Chega Estácio
Branco não vem cá
Se vié, pau é de levá.
Bibliografia
•
Brandão, Téo, Folguedos Natalinos de Alagoas. Departamento de Assuntos Culturais da Secretaria da
Educação. Maceió. 1973
•
Rocha, José Maria Tenório, Quebrangulo, Quebrangulo (Monografia do Município) Trabalho inédito.
Fontes consultadas
• Entrevistas com o organizador Ozeinha Tenório, Fevereiro de 1976
• Entrevistas com os participante em Fevereiro de 1976
• Entrevistas com Ernesto Cavaixão, Elias de Capita em 1970, 1971.