O demônio da maledicência, de que aqui vou tratar, pertence à variada e infinita legião de demos literários, criação erudita ou semi-erudita, fora da alçada rasa onde moureja e vive e fala o povo.
Este, podemos garantir, não conhece esse rei diabólico, invenção de poetas, criação dos mestres da prosa. O povo simples lida com outros diabos, numerosos, legiões também, que ele, em sua ingenuidade ou no temor supersticioso de suas crenças, invoca ou esconjura com palavras e gestos exorcistas.
Vamos desfilar aqui, tirando às páginas de apenas dois grandes escritores de língua portuguesa, esse cortejo de demos, que a fantasia literária criou, mas que, leitor amigo, nem por isso deixam de ter sua existência real no meio social em que vivemos.
No romance de Camilo Castelo Branco, Onde está a felicidade? (Lisboa, 1915, p;307), há uma cena em que entra e fala uma senhora Ana do Mouro, dessas que não têm papas na língua. Camilo, depois de rápido diálogo em que reproduz a linguagem dessa peixeira, escreve: "A senhora Ana saiu rosnando: 'e como ela vem espevitada!... Cuidará ela que ficou sendo fidalga por...' As reticências também ela as pôs em linguagem muito chã à primeira vizinha, que o demônio da maledicência lhe deparou".
Noutro romance, Mistérios de Fafe (Lisboa, 1920, p.125), outra vez se nos depara o mesmo ser diabólico: "Bem me canso eu em dizer o que na verdade é; mas o diabo da maledicência pode mais que o anjo da caridade..."
Outros demônios da mesma estirpe literária podemos ver em vários outros livros de Camilo. Por exemplo, em A sereia (Lisboa, 1928, p.137), há um "demônio da ira" que atiça o ódio no espírito de um Pedro de Vasconcelos: "O velho caiu para orar, mas o demônio da ira amparou-o, e assoprou-lhe à alma incêndios de furor".
No livro A queda dum anjo (Lisboa, 1925), além de um "demônio parlamentar" (p.20), deparamos um "demônio da vingança" (p.163) e o "demônio da expiação" (p.220).
Em As três irmãs (Lisboa, 1917, p.171), é o "demônio da tentação" que assalteia a virtude de um José Fonseca.
Em A filha do arcediago (Lisboa, 1918, p.59), é o "demônio da intriga" quem tece as urdiduras de um dos momentos do romance.
Nas Cenas inocentes da comédia humana (Lisboa, 1908) fala Camilo nos velhos tempos de Atenas, "tempos tão cativos do demônio da impureza" (p.93), e, à página 227, deplora a "falta de um braço robusto, de uma inteligência fecunda, que embargue o passo ao demônio da devastação".
Em Vingança (Lisboa, 1907, p.145), o visconde de Vila Seca é assediado pelo "demônio da suspeita".
A esses dês demônios associam-se mais o "demônio do sono" (A filha do arcediago, p.26), o "demônio da pobreza" (Agulha em palheiro, Lisboa, 1916, p.110) e o "demônio da política", terrível diabo, que também anda vivo e solto por este Brasil a dentro (Novelas do Minho, Lisboa, 1915, p.79).
Nossa pesquisa recolheu, por fim, na seara camiliana, mais um diabo — hoje raro, raríssimo — o "demônio da verdade", citado no referido romance A queda dum anjo (p.99), no seguinte trecho: "Tenho aqui à minha beira o demônio da verdade, inseparável do historiador sincero..."
Passemos, agora, ao outro mestre da prosa: Machado de Assis.
Ainda está por fazer-se o confronto mais profundo e amplo entre a prosa camiliana e a do consagrado autor de Quincas Borba. Nesse estudo comparativo ver-se-ia (como temos vistos bastas vezes) o quanto influiu Camilo na língua, no estilo e até nas idéias de Machado de Assis.
Na criação desses "demônios literários", também se aplicou o nosso maior e mais fino estilista. E aqui vai a prova, com exemplos colhidos ao sabor da leitura de alguns dos seus livros, para o registro desse "capítulo dos demônios". Vejam-se:
No conhecido conto Entre santos (Várias histórias, Garnier, sd, p.36 e Jackson, p.39) há um "demônio da avareza" que avassala os pensamentos de um pecador usurário. Noutro conto, O diplomático, do mesmo livro (Garnier, p.175, Jackson, p.170) relata Machado breve cena entre o enamorado Rangel e Joaninha — não a dos olhos verdes de Garret — mas a dos "olhos lindos e sossegados, virgens de toda a conversação masculina". E descreve: defronte (da janela onde ambos se achavam) numa casa grande, havia um baile, e dançava-se. Ela olhava, ele olhou também. Pelas janelas viam passar os pares cadenciados, as senhoras com as suas sedas e rendas, os cavalheiros finos e elegantes, alguns condecorados. De quando em quando, numa faísca de diamante, rápida, fugitiva, no giro da dança. Pares que conversavam, dragonas que reluziam, bustos de homens inclinados, gestos de leque, tudo isso em pedaços através das janelas, que não podiam mostrar todo o salão, mas adivinha-se o resto. Ele ao menos conhecia tudo, e dizia tudo à filha do escrivão. O demônio das grandezas, que parecia dormir, entrou a fazer as suas arlequinadas no coração do nosso homem, e ei-lo que tenta seduzir também o coração da outra. — Conheço uma pessoa que estaria ali muito bem..."
Ainda nessas deliciosas Várias histórias, nesse mesmo conto O diplomático (Garnier, p.183, Jackson, p.177), pode-se encontrar, insuflando o coração do já desanimado Rangel, "a esperança — demônio de olhos verdes."
Nos Contos esquecidos (Rio de Janeiro, 1956, p.58) que a paciência beneditina de R. Magalhães Júnior recolheu dos arquivos para nosso deleite estético — também vincamos outro diabo — o demônio da cobiça. Está ele no conto A melhor das noivas, publicado no Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1877: "Mas o demônio da cobiça produz maravilhas dessas, e a imaginação da caseira via as coisas mais longe do que elas podiam ir. Creu um instante que o opulento septuagenário a destinara para sua esposa, e forjou logo um mundo de esperanças e realidades que o sopro de uma só palavra dissolveu e dispersou no ar".
E agora, um reparo final:
O leitor, por certo, já intimamente notou, através das folhas diárias, como se têm desenvolvido, entre nós, quase todos os integrantes dessa demoníaca, à frente dos quais, com o seu tridente infernal, saracoteia, rabeando a cauda e piscando o olho, o desbocado "demônio da maledicência". Esse demônio não de controla nem à mão de Deus padre...