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Tema do Mês

Dezembro 2007 - Ano X - nº 107

Sumário

Inferno, cão e enxofre

O credo

O demo na tradição popular

O "demônio da maledicência" e outros demônios

O diabo brasileiro

Duas histórias do ladrão Gaião

 

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Diabo

O demo na tradição popular

Veríssimo de Melo

O cônego Xavier Pedrosa, ilustre folclorista pernambucano, envia-nos cópia de um magnífico estudo seu intitulado "Uma página do folclorismo religioso no Nordeste", que acaba de ser publicado no Boletim da Faculdade de Filosofia de Pernambuco, nº 2, correspondendo aos meses de setembro e outubro de 1950.

É, em verdade, o trabalho mais completo que conhecemos sobre o demônio na superstição, na lenda e no adagiário populares. Possuidor de cultura clássica, o cônego Xavier Pedrosa é, por outro lado, pesquisador criterioso e atento. Pôde assim cotejar o material que recolheu da tradição oral não só com o de outras regiões brasileiras, através de escolhida bibliografia, mas se embrenhar também pela literatura greco-latina, ilustrando suas ilações até mesmo com os textos da Sagrada Escritura, assunto em que é doutor pela vocação e pela cultura.

Foi neste trabalho que encontramos anotada a mais extensa relação de sinônimos do diabo, a saber: Lusbel, Lúcifer, Satanás, Belzebu, Mefistófeles, o maldito, o arrenegado, o canhoto, o cornudo, o tinhoso, o condenado, o droga, o bode-preto, o cabeça-vermelha, o espalha-brasa, o sujo, o tição-do-inferno, o capeta, o cão, o pé-de-pato, o pé-de-pele, o pé-de-cabra, o não-se-que-diga, o pai-da-mentira, o inimigo.

Somos um povo de formação essencialmente católica e é natural que as nossas tradições populares estejam contaminadas de referências ao anjo mau. Todos nós conhecemos, em Natal, aquela crendice que os construtores e pedreiros conservam religiosamente, pondo galhos de árvore no dia em que instalam a cumeeira de uma casa. Várias pessoas já nos perguntaram qual a significação dessa superstição, que sabíamos ter o efeito de uma comemoração festiva, mas que ignorávamos tivesse relação direta com o demônio. Diz o cônego Xavier Pedrosa que, "quando se levanta a cumeeira da casa e não se solta foguete, ou põe ao menos um ramo de mato em forma de cruz em cima dela, o diabo vem habitar". Como essa tradição, há inúmeras outras, também registradas pelo estudioso pernambucano, destinadas a afastar a presença infernal.

E já que o emérito confrade, em carta cordial que nos fez, pede-nos que lhe envie alguma coisa recolhida por nós em Natal sobre o demônio no folclore, vai aqui a oração forte mais extravagante que já ouvi rezar. É informação de um amigo natalense, que considera ideal para dar sorte no jogo do bicho e que deve ser dita antes de dormir:

Deita-te, corpo
Estira-te, rabo
Mostrai o bicho da sorte
Com todos os seiscentos diabos

É interessante observar que a oração citada é uma versão legítima daquela que Leonardo Mota anotou no estado de São Paulo, (Violeiros do norte, p.230), embora com outra finalidade:

Estira-te, corpo
Espicha-te, rabo
Levanta-te, amanhã
Com todos os diabos
Amém.

(Melo, Veríssimo de. "O demo na tradição popular". Diário de Natal. 15 de janeiro de 1951)

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