É idéia generalizada de que dominam o inferno, fogo e enxofre. A literatura popular, mais do que a religiosa, está cheia de lendas, de histórias, de simples incidentes em que caldeiras fervendo, cheiro de enxofre, gritos lancinantes de pessoas atiradas ao fogo caracterizam o território indesejável para o qual vão os pecadores sem remissão.
Ruth Guimarães, que escreveu Os filhos do medo, delicioso estudo de demopsicologia, tem a seguinte reflexão a respeito do fogo: "O fogo predomina em quase todas as criações infernais exceção do inferno dos escandinavos, chamado Niftleum, onde não há fogo. "Os filhos da neve amam demais o calor para considerá-lo um castigo". Também o inferno dos bramanes, Naraka, está cheio de mosquitos, serpentes, escorpiões e tigres".
O inferno do nordestino, do caboclo dos sertões cearenses, é um caldeirão fervendo. Procure-se ouvir uma definição de tão triste região, e logo se terá uma em que são demarcadas as suas características principais; o demônio sentado sobre um braseiro, com um espeto na mão, a catucar os que ali foram parar por conta de seus pecados, obrigados, agora em nova vida, a jogar carvão dentro das caldeiras do inferno, que são diversas.
A idéia de caldeiras é substituída, via de regra, pela de caldeirões enormes sobre trempes, onde ferve-se a água mais quente do mundo e na qual estão submersos os pecadores. E o enxofre, com o seu fartum designativo, não faltará por certo. Para o sertanejo, qualquer catinga mais pronunciada é atribuída a uma manifestação estranha, quase sempre do próprio demônio.
O inferno, em resumo, é o lugar para onde ninguém deseja ir. A primeira ofensa numa discussão é mandar-se o desafeto para lá. "Vá para o inferno, seu infeliz!" Inferno também é sinônimo de lugar distante. Diz o sertanejo em conversa: "Fica lá pras bandas do inferno!" ou "Longe que só o inferno!"
Na sua compreensão fica o inferno no centro da Terra. Por isso é que, às vezes, a terra treme, fende-se, e mostra brechas enormes. Tanto que "pras fundas" é também sinônimo de inferno. Diz ainda, o nosso homem do campo, quando está exaltado: "Vá pras profundas!" Tanto isso é verdade — isto é, esse pensamento a respeito da localização dos reinos do demônio — que quando principiam os caboclos a cavar uma cacimba e ela se aprofunda muito, sem dar n'água, haverá sempre alguém para dizer:
— Homem, tome cuidado, se não você vai dar no inferno!
Não muito em raro surge um mais espirituoso citando versos em que o inferno, apesar de quente, de ser terra onde domina o fogo, tem vida organizada, negócios etc., como uma cidade. Há os que afirmem serem os castigos mais pesados, mais fortes e outros, mais leves, nessas profundezas ígneas. José Pacheco, historiador popular, em seu folheto A chegada de Lampião no inferno, relata o seguinte:
Houve grande perigo
No inferno neste dia
Queimou-se todo dinheiro
Que satanás possuía
Queimou-se o livro de pontos
Perdeu-se vinte mil contos
Somente em mercadorias
Reclamava satanás:
— Horror maior não precisa
Os anos ruins de safra
Agora mais esta pisa
Tão cedo aqui no inferno
Ninguém compra uma camisa
O demônio, é outra faceta de sua existência, gosta sempre de se apresentar aos incautos utilizando disfarces. Ora, é o homem que vai criar um menino que lhe desejou por padrinho, ora é o sambista de fama que vai dançar na casa de um amigo, e no final da história mostra sem querer o pé de pato, ou o cantador misterioso que desejou enganar um tocador de viola.
José Bernardo da Silva, autor de Peleja de Manuel Riachão com o diabo, dá-nos em versos bem interessantes mais uma descrição do satanás, no caso, o cantador misterioso que se apresentara para porfiar.
Riachão estava cantando
Na cidade de Assis
Quando apareceu um negro
Da espécie de urubu
Tinha a camisa de sola
E as calças de couro cru
Beiços grossos e virados
Como a sola de um chinelo
Um olho muito encarnado
O outro muito amarelo
Este chamou Riachão
Para cantar um martelo
A idéia dominante é que o demônio é, deveras, feio, senão horripilante. Daí ser comum dizer-me de alguém que tem má catadura: "Vote! tem a cara do demo!" ou então: "É feio que só o satanás!" A presença de algum desconhecido no vilarejo, deixa logo os homens e as mulheres atentos. Sucedem-se as conversações:
— Tem aí um tipo feio, parece um feiticeiro... É capaz de ser obra do satanás.
Outro arrisca: "Dizem que o demônio aparece assim, sem dizer nada, mas é só a gente fazer o sinal da cruz, vê logo se é ele mesmo".
O autor de folhetos José Bernardo da Silva, em seu famoso Aviso do padre Cícero, publicado "para despertar os descuidados e converter os pecadores", dá-nos uma idéia mais diferente do inferno, quando alude às suas cavernas:
Ou a penitência ou o inferno
Veja aqui os renitentes
Ou a minha companhia
Ou a das feras valentes
Ou a salvação eterna
Ou trancados na caverna
Chorando e rangendo os dentes
A verdade é que o inferno, com esse ou aquele aspecto, é sempre situado no seio da terra, nas profundas; tem caldeirões fervendo ou caldeiras com muito fogo, brasas e o enxofre dominando tudo. Numa coisa está de acordo o povo: nunca saem do inferno os que para ali vão. Só o demônio, parece, tem a regalia de percorrer o mundo e levar consigo novos pecadores, sob diversos disfarces, denominando-se ora satanás, capiroto, demo, ora cão, maligno, tinhoso etc.
Muito de raro em raro aparecem histórias, fragmentos de contos, em que se tem a referência de diabinhos etc. Via de regra é o satanás, perseguidor dos incautos, violador de bondades, que surge pelo caminho da vida à procura de gente para as suas caldeiras. De lenha, para dizer melhor...