Das histórias de proezas
Lidas em todas as partes
Talvez não haja nenhuma
Jocosa e cheia de artes
Que chegue a se comparar
A de Pedro Malasartes
O Pedro enquanto criança
Foi cheio de diabruras
Devido a isso tornou-se
Campeão das travessuras
Foi um ente absoluto
Entre todas criaturas
Tinha ele a venta chata
Lábios finos descorados
O rosto comprido e seco
Cabelos avermelhados
Branco, de alta estatura
Olhos verdes e vexados
Quando tornou-se rapaz
Só vivia a vadiar
Se deitava numa rede
Se balançando a cantar
Dizendo: Não sou jumento
Pra morrer de trabalhar
O pai dele já idoso
Logo que rompia do dia
Com João o outro filho
Para o roçado seguia
E só à noite voltavam
Depois que escurecia
O João nem parecia
A ser de Pedro parente
Pois era trabalhador
Mais velho um ano somente
Então dos sistemas dele
Era muito diferente
Certo dia o pai de Pedro
Disse: Cuide em trabalhar
Eu já estou muito velho
Não posso mais sistentar
A um malandro robusto
Que só vive a vadiar
Disse Pedro: essa não!
Pois se Deus me fez nascer
Por certo me dar o sustento
Portanto é uma loucura
Trabalhar para comer
— O senhor desde criança
Vive num duro tormento
Trabalhando dia e noite
Por um mirrado sustento
O que tem é eu e João
E um caduco jumento
— Se o senhor mais João
Tomassem os conselhos meus
Deixavam de trabalhar
E esperavam por Deus
Ele como pai nos manda
Porque somos filhos seus
— Por isso vivo tranquilo
Deitado na minha rede
Comendo frutos silvestres
Nos rios matando a sede
Dormindo às sombras das árvores
Ou de alguma parede
— Afinal eu neste mundo
O que é que quero mais?
Pois se confio naquele
Que diz ser o pai dos pais
O qual a nenhum dos filhos
Não desprezará jamais
Disse o velho: inda hoje
João seguirá viagem
Pra trabalhar a um turco
Que mora noutra paragem
Só não acompanho ele
Porque não tenho coragem
Pedro disse pra João:
Meu irmão não faça isso!
Não há loucura maior
Do que procurar serviço
É tal como o feiticeiro
Andar atrás do feitiço
— Fiques aí, disse João
Você só quer é brincar
Eu irei ganhar dinheiro
Para a meu pai sustentar!
Disse Pedro: Está certo
Depois não chegue a chorar
Esse turco a quem João
Foi trabalhar alugado
Não tinha temor de Deus
Era cruel e malvado
Das costas de muitos pobres
Já tinha o couro tirado
Chegando João na fazenda
Falou para trabalhar
O turco disse: Pois não
Você pode aqui ficar
Porém é nas condições
Que vou lhe apresentar
— Aqui quem não suportar
Os meus todos sisteminhas
Eu tiro o couro das costas
E penduro numas linhas
Se eu não o aguentar
Poderá tirar das minhas
João ciente de tudo
Dormiu numa rancharia
O turco acordou-lhe cedo
Na manhã do outro dia
Uma cadela pelada
Trouxe em sua companhia
Disse o turco: esta cachorra
Irá consigo ensinar
O lugar que o senhor
Irá hoje trabalhar
Para o almoço só venha
Na hora que ela voltar
A cachorra ali seguiu
João lhe acompanhou
Quando numa grande roça
Chegaram, ela parou
Logo depois numa sombra
Ela foi e se deitou
João pegou no serviço
Com toda sua energia
Deu nove, dez, onze horas
Finalmente deu meio-dia
A cadela lá deitada
Dormindo nem se bolia
Afinal às quatro horas
A cadela se acordou
Então inda sonolenta
Para a fazenda marchou
João passado de fome
Tombando lhe acompanhou
Na fazenda o almoço
Que veio para João
Foi um pires de arroz
Uma concha de feijão
Uma banda de um ovo
E um pedaço de pão
Aquele almoço mesquinho
João ligeiro comeu
Quando foi no outro dia
Do mesmo jeito se deu
Desta forma com três dias
O rapaz esmoreceu
João não podendo mais
Ao turco declarou
Esse sem ter mais conversa
Pegou ele e amarrou
Depois o couro das costas
Sem compaixão tirou
João voltando pra casa
Chegou na porta caiu
E quando seu velho pai
Naquele estado lhe viu
Pondo a mão no coração
Caindo se concluiu
Esse transe inesperado
Pedro firme suportou
Sem lamento e sem choro
Seu velho pai sepultou
Depois tratou de João
Até que ele sarou
Quando João ficou bom
Que se restabeleceu
Pedro disse para ele:
Meu destino enegreceu
Agora com esse turco
Quem vai trabalhar sou eu
Botando a maca nas costas
De João se despediu
Para a fazenda do turco
Sem mais demora partiu
No mesmo dia à tardinha
Na tal fazenda se viu
Chegando pediu serviço
O turco não hesitou
Lhe deu serviço na hora
E quando tudo acertou
A infeliz condição
Ele a Pedro apresentou
Disse Pedro: Está certo
Eu só não quero é brincar
Agora o senhor me diga
Onde vou me arranchar
Porque quero dormir cedo
Para cedo me acordar
E Pedro foi para o rancho
Que tinha João se arranchado
De manhã o turco veio
Já o achou acordado
O qual trazia consigo
A tal cadela de lado
Disse o turco: a cadela
Desde já pode seguir
Ela lhe mostra o trabalho
Onde você vai agir
Porém só venha almoçar
Na hora que ela vir
A cadela aí correndo
Na frente dele marchou
Pedro seguiu atrás dela
Quando na roça chegou
A cachorra procurando
Uma sombra se deitou
Pedro pegou no serviço
E com menos duma hora
Começou a sentir fome
Disse consigo: eu agora
Quero ver se esta bicha
Não vai já daqui embora
Com um chicote ensebado
Que já tinha ele feito
Foi onde estava a cadela
E a pegou de jeito
Mandou-lhe o relho no lombo
Foi a torto e a direito
E Pedro deu na cadela
Até que sentiu canseira
Assim que ele soltou-a
Ela saiu na carreira
Para o lado da fazenda
Que só se via a poeira
Quando a cadela chegou
Ficou o turco espantado
Ele ainda quis voltá-la
Mas não teve resultado
Nisso viu Pedro chegar
Andando bem moderado
— Mas Pedro o que foi que houve?
Na roça com a cadela?
Disse Pedro: E eu sei
Se há algo errado nela!
O que fiz foi só voltar
Para o almoço atrás dela
O turco mandou botar
Para Pedro a refeição
Quando chegou a comida
Ele com indignação
Pegou um prato bem grande
E foi até o fogão
Chegando, foi às panelas
E ninguém pôde dar jeito
Então de várias comidas
Fez ele um prato bem feito
Depois sentou-se e comeu
Que ficou bem satisfeito
O turco ficou danado
Como um leão voraz
Porém se fingindo calmo
Disse: Hoje, meu rapaz
Para a roça onde foste
Não precisa voltar mais
Amanhã muito cedinho
Você vai buscar pra mim
Uma carrada de lenha
Lá na baixa do capim
Mas quero-a cheia de nós
Só me serve sendo assim
Pedro lhe disse: Está bem
Quando foi no outro dia
Ele num carro de boi
Com disposição seguia
Para um canavial
Que ao turco pertencia
Quando ele ali chegou
Entrou e foi ficar no meio
E danou-se a cortar cana
O estandarte era feio
Com menos de uma hora
Se achava o carro cheio
E tocou para a fazenda
Então quando lá chegou
O turco quase desmaia
Quando o carro ali parou
Aí com ar de loucura
Fitando Pedro bradou:
— Meu amigo, isto é cana
E cana de alto preço
Disse Pedro: Me perdoe
Doutra vez não me esqueço
Mas a lenha de mais nós
É esta que eu conheço
Disse o turco: te perdôo
Todas as culpas são minhas
Mas veja, amanhã eu quero
Uma carrada de linhas
Para botar numa casa
Todas sem nós, bem lisinhas
Pedro com disposição
Na manhã do outro dia
Num grande carro de boi
Cantando se dirigia
Para um bananeiral
Que ao turco pertencia
Chegando ele no sítio
Pôs-se a cortar bananeiras
Ele cortando dizia:
Oh! Que linhas verdadeiras
Nelas não se vê um nó
Além disso tão linheiras!
Logo que encheu o carro
Para a fazenda partiu
O turco estava sentado
No alpendre e quando viu
Aquela enorme carrada
Indignado rugiu:
— Pedro você é um louco?
Responda por caridade!
Disse Pedro: Senhor turco
Falo com sinceridade
Linhas sem haver um nó
Só há dessa qualidade
O turco embocou em casa
Deixando Pedro cá fora
Numa sala se sentou
E pensou mais duma hora
O jeito que fazeria
Para Pedro ir embora
Esse turco tinha mãe
Também muito desgraçada
Então o turco com ela
Projetou uma cilada
Pra fazer Pedro sair
Correndo de madrugada
Depois de tudo está certo
Foi com Pedro conversar
Então calmo, disse: Pedro
Eu quero lhe avisar
Que está aparecendo
Um bicho neste lugar
— O seu nome é cotovia
E é fera traiçoeira
Pois ela sempre aparece
No pé daquela mangueira
Ali mesmo certo dia
Já acharam uma caveira
— Vendo eu que você dorme
Naquele rancho isolado
O qual não tem uma porta
Que lhe deixe bem guardado
Eu vim aqui avisar
Para você ter cuidado
— Obrigado, disse Pedro
E pra seu rancho voltou
Ali por felicidade
Pedro sem querer achou
Um antigo bacamarte
Que muito lhe alegrou
Pegou ele o bacamarte
Com bem cuidado limpou
Então com ferro e com pedra
Como quis o carregou
Depois guardou-o no rancho
E pela noite esperou
Pedro à noite não deitou-se
Ficou ali de plantão
Lá para as tantas da noite
Na maior escuridão
Para o lado da mangueira
Ouviu uma confusão
Pedro chegou-se pra perto
Com a arma carregada
Porém logo ele ouviu
Uma voz mui arrastada
Que dizia: Cotovia
Vem sangrar um camarada!
Pedro segurou a arma
Apontou em direção
De onde lhe veio a voz
Embora na escuridão
Quando puxou o gatilho
Ouviu-se um baque no chão
Pedro naquele momento
Sem demonstrar covardia
Foi acordar logo o turco
Ele o chamando dizia:
Se acorde, meu patrão
Eu matei a cotovia
O turco ouvindo esta voz
Correu de dentro pra fora
Perguntou: Pedro, é verdade?
Valei-me, Nossa Senhora
Você matou minha mãe!
Meu Deus o que faço agora?
Pedro disse: Senhor turco
Para que tanta agonia?
Eu não matei sua mãe
Matei sim, a cotovia
E se ela era o bicho
Lhe juro que não sabia
O turco saiu correndo
Fazendo um grande alarido
Quando chegou na mangueira
Ele soltou um gemido
Olhando o corpo da mãe
Morto no chão estendido
Disse o turco para Pedro
Pode procurar seu giro!
Pedro calmo respondeu:
Desde já eu me retiro
Mas antes de ir, o couro
Das suas costas eu tiro
O turco se sujeitou
Pedro sem ter compaixão
Tirou-lhe o couro das costas
Em toda sua extensão
Do jeito que ele fez
Com o seu irmão João
E Pedro chegando em casa
Entregou logo a João
As duas tiras de couro
Disse: toma bestalhão
O turco do seu instinto
Ganhou a compensação
Com poucos dias depois
Pedro pra João falou:
Vamos partir a herança
Que o meu pai nos deixou
Vou embora e por isso
Eu quero o que me tocou
— Vamos matar o jumento
E a partilha fazer
Diz João: Matar o jugue?!
Isso não poderá ser
Disse Pedro: É o meio
Que eu posso resolver
Aí João disse: eu compro
A banda que te pertence
Disse Pedro: A minha parte
Se quer comprá-la, nem pense
Eu quero a banda do jegue
E você não me convence
Pedro pegou o jumento
Passou o pau e matou
Deu a banda de João
E com a sua ficou
Depois com ela nas costas
Pelo mundo viajou
Quando bateu meio-dia
Pedro com ar fadigante
Arranchou-se numa sombra
Duma árvore verdejante
Pegou a banda do jegue
De si botou bem distante
Depois na sombra deitou-se
E ficou a vigiar
Nisso um bando de urubus
Viu na carniça pousar
E toda banda do jegue
Começaram a estraçalhar
Aí Pedro fez um laço
Foi na carniça e deixou
Então voltou para a sombra
Escondido se deitou
Uma das pontas do laço
Com uma mão segurou
Logo um dos urubus
Foi laçado por um pé
Pedro ligeiro pegou-o
Dizendo: Em Deus tenho fé
Que com esta ave irei
Ver minha sorte qual é
Botou debaixo do braço
O urubu se saiu
Andou o resto da tarde
E quando a noite caiu
Sem esperar em um pátio
Duma fazenda se viu
Pedro ficou no oitão
Da casa de moradia
De forma que a presença
Dele ninguém pressentia
O que diziam na casa
Ele de cá tudo ouvia
Ouviu a dona da casa
Dizendo para a criada:
Cuida logo nesse bife
E na carne preparada
Põe tempero na galinha
E apronte a malassada
— Depois esconda no quarto
E tenha todo o cuidado
Que é pra jantarmos juntas
Com o meu vaqueiro amado
Para meu marido bote
Feijão com toucinho assado
Pedro nisso viu chegar
Um vistoso cidadão
Era o dono da fazenda
O qual com satisfação
Pegando Pedro no braço
Chamou-o pra refeição
Quando chegaram na mesa
Pedro ligeiro botou
Debaixo dela o urubu
Logo depois se sentou
E quando a comida veio
Ele calado estranhou
E com o pé catucou
O urubu bem ligeiro
O dito alto fungando
Pedro disse: enredeiro
Tudo que ver quer contar!
Oh! Que bicho fuxiqueiro!
Perguntou o fazendeiro:
O que ele diz, amigo?
Disse Pedro: esse pássaro
Tem um defeito consigo
O que sabe quer contar
É um horrível perigo!
— Ele diz que lá no quarto
Tem comida preparada
Galinha cheia e bife
E muita carne guisada
Macarrão bem cozinhado
E gostosa malassada
A mulher ouvindo isso
Disse danada da vida:
Criada, tu não botastes
Na mesa toda comida?
Disse ela: O! Meu Deus
Como eu sou esquecida!
Toda comida guardada
A criada foi buscar
Botou na mesa com raiva
Mas sem o homem notar
Ali tranquilo com Pedro
Comeu até se fartar
O fazendeiro depois
Que acabou de comer
Disse: Amigo esta ave
Responda se que rvender?
Uma ave como esta
É bom em casa se ter
Disse Pedro: Esta ave
Só poderá ser vendida
Por uma soma que dê
Para eu melhorar a vida
Pergunta o homem qual é
Sua quantia exigida?
Diz Pedro: Para o senhor
Que é um homem de bem
Lhe custa quinhentos contos
Por menos nenhum vintém
Disse o homem: Ela é minha
Porque muito me convém
Pedro recebendo o cobre
Disse: Vou lhe avisar
Na cabeça deste pássaro
Não deixe ninguém mijar
Pois fazendo isto, ele
Deixa de adivinhar
A mulher que se achava
Escutando ali de lado
Consigo disse: Diabo
O teu chá está preparado
Vás pagar o que fizeste
Pra não seres desgraçado
Então Pedro na fazenda
Naquela noite dormiu
Quando o dia amanheceu
Ele escondido partiu
O fazendeiro cedinho
Para o trabalho seguiu
Às nove horas do dia
O tal vaqueiro chegou
A mulher do fazendeiro
Com ele se abraçou
Depois o caso do pássaro
A ele tudo contou
Disse a mulher: Para ele
Nunca mais adivinhar
Vamos levá-lo pro quarto
Pra com ele nos trancar
Depois na cabeça dele
Cada de nós urinar
No quarto foi a mulher
Que foi primeiro urinar
Na cabeça do urubu
Mas ele pôde pegar
Nela num lugar que eu
Aqui não posso contar
— Me valham! Disse a mulher
Por nosso Deus verdadeiro!
Mas com as unhas em pé
Segurou ele o vaqueiro
Com as do outro e a criada
Ficaram os três num berreiro
O fazendeiro na roça
Trabalhando não sabia
Que a esposa que tinha
Com um vaqueiro o traía
Mas a falsidade dela
Descobriu-se nesse dia
Como era perto a roça
Onde estava o fazendeiro
Ele de lá pôde ouvir
Aquele grande berreiro
De vozes lá na fazenda
Num completo desespero
O homem veio correndo
Devido àquela zoada
Em casa achou a mulher
Pelo urubu atracada
Da mesma forma encontrou
O vaqueiro e a criada
O homem saiu correndo
Atrás de Pedro ligeiro
Adiante encontrou ele
Gritou alto: Cavalheiro
Espere um pouquinho aí
Quero dar-lhe mais dinheiro
Mas Pedro desconfiado
Disse: Eu não faço asneira
Passou sebo nas canelas
E partiu em tal carreira
Que foi parar com 6 léguas
Além em outra ribeira
Pedro aí se empregou
Com um rico fazendeiro
Para tratar de uns porcos
Que haviam num chiqueiro
Ganhando apenas a bóia
Sem ter direito a dinheiro
Pedro depois de um mês
Começou com safadeza
Se danou a matar porco
E vender na redondeza
O patrão sem pressentir
Aquela grande esperteza
Ele com toda cautela
Cada porco que matava
No lamaçal do chiqueiro
Do dito o rabo enterrava
Então em cima da lama
Uma pontinha deixava
Certo dia Pedro estava
Muito longe de pensar
Que o fazendeiro fosse
Para seus porcos olhar
Ficou mais do que surpreso
Quando viu ele chegar
— Seu Pedro, passe bom-dia
(Assim disse o fazendeiro)
Ele responde: bom-dia
E ficou em desespero
Quando viu que o patrão
Se dirigia ao chiqueiro
O homem olhou o chiqueiro
Mas não vendo um porco ali
Então perguntou: Seu Pedro
Quedê os porcos daqui?
Disse Pedro: Eles estão
Todos enterrados aí
— Meu patrão, há certas coisas
Que são cheias de caipora
Vi seus porcos se sumir
Nesta lama inda agora
Por prova disso ficaram
Só com os rabos de fora
O homem pegou num rabo
Com toda força arrancou
Pedro disse: Meu patrão
Este o senhor desmarcou
Porque arrancou o rabo
E o porco dentro ficou
Disse o homem: sendo assim
Vá lá em casa buscar
Uma pá e dois picaretes
Para os porcos arrancar
Me traga as três ferramentas
Não se faça demorar
O homem tinha três filhas
Duma beleza sem fim
Eram três rosas mimosas
Num verdecido jardim
Pedro quando lá chegou
Lhes deu o recado assim:
— Manda dizer vosso pai
Que se fossem embora comigo
Se não lhe obedecessem
As matava num castigo
Disse uma: Que mentira!
Este recado eu nem ligo
Disse Pedro: Portador
Não merece cinturão
Eu daqui vou perguntar
Escutem se é ou não:
Pedro de cá pergunto:
Não são as três, meu patrão?
O fazendeiro que era
Cheio de estupidez
Disse: Era o que faltava
Que tolice de vocês!
De cá gritou confirmando:
Sim, meninas, todas três
As três moças quando ouviram
O que o pai respondeu
A Pedro se entregaram
Ele calmo as recebeu
Então com elas nas matas
Dali desapareceu
Depois de cinco ou seis dias
Que Pedro estava com elas
Ele resolveu consigo
Se desfazer das donzelas
Então fez elas voltar
Para casa do pai delas
Mas Pedro depois temendo
Que o rico fazendeiro
Podia vir procurá-lo
Por ali com cangaceiro
Embrenhou-se pelas matas
Sem direção nem roteiro
Naquelas matas seguiu
Sem saber por onde ir
Não achou uma vereda
Pra melhor se dirigir
De vez em quando nas furnas
Ouvia as feras rugir
Depois de uma semana
Qu'ele andava a errar
Naquelas matas funestas
Sem uma saída achar
Numa manhã sem querer
Saiu numa beira-mar
Era uma praia deserta
Como se fosse um degredo
Pedro olhou para os lados
Só viu água e rochedo
Ele aí seguiu andando
Sentindo bastante medo
Adiante se sentou
Das forças já abatido
Correndo os olhos na praia
Avistou surpreendido
O corpo dum ser humano
Morto na areia estendido
Ele botou-se pra lá
Cegando viu estirada
Uma freira que no mar
Tinha morrido afogada
Então na mão dela tinha
Uma caixinha fechada
Pedro retirou a caixa
E abriu ligeiramente
Dentro viu um crucifixo
E uma linda corrente
Também achou uma carta
Com uma data recente
Pedro com toda atenção
Leu a carta que dizia:
"Aí segue, sua alteza
A querida irmã Luzia
Que irá ser guardiã
Da princesinha Maria
Pode nela confiar
Como fiel protetora
Da vossa satisfação
Eu quero ser sabedora
Aqui aguardo resposta
Telma, madre diretora"
Aí as vestes da freira
Pedro tirou e vestiu
Pegando o cadáver nu
Dentro do mar sacudiu
Consigo guardou a carta
E pela praia seguiu
Pouco distante dali
Ele por sorte avistou
Um navio passageiro
Ele de cá acenou
De lá quando avistaram
O barco logo parou
Um bote com dois marujos
Na mesma hora mandaram
Esses chegaram na praia
Pegaram ele e levaram
Chegando lá no navio
Ao capitão entregaram
Pedro lhe mostrou a carta
Que consigo conduzia
O capitão leu-a
Lhe falou: Irmã Luzia
Este barco vai direto
Pra onde a senhora ia
Disse o capitão: O rei
Se acha preocupado
Porque espera um navio
E esse não foi chegado
Todos na corte já julgam
Ter ele se naufragado
Pedro como freira disse:
Afundou-se de verdade
Lá no alto mar, devido
Uma grande tempestade
Somente eu escapei
Por uma felicidade
No outro dia cedinho
No grande reino chegaram
Quando saltaram, a freira
Para o reinado levaram
Ali chegando com ela
Nas mãos do rei entregaram
E Pedro pegou a carta
Ao monarca entregou
Esse quando leu a carta
A mão de Pedro beijou
E ele bancando a freira
O naufrágio lhe contou
O rei levou-o pro quarto
Da princesinha Maria
Apresentou-o dizendo:
É esta a irmã Luzia
Que irá dormir contigo
Te fazendo companhia
A princesinha fitou-o
Com um olhar inocente
Pedro quando contemplou-a
Se apaixonou de repente
A princesa lhe abraçou
Disse: Estou muito contente
Disse o rei: Irmã Luzia
Tome conta da donzela
Quer de noite, quer de dia
Viva sempre à guarda dela
Pois uma sina fatal
Está reservada a ela
— Um sábio leu a mão dela
E disse com sapiência
Que quando ela inteirasse
Treze anos de existência
Por um infame seria
Manchada a sua inocência
E Pedro bem disfarçado
Toda conversa escutou
Como freira guardiã
Com a princesa ficou
De formas que no reinado
Ninguém não desconfiou
Pedro como boa freira
A princesinha servia
Sempre acompanhava ela
Pra toda parte que ia
À noite juntinho dela
Numa só cama dormia
Com dois meses a princesa
Transformou-se de repente
Se abusava com tudo
Que via na sua frente
E todo dia exigia
Comida diferente
O rei notando a mudança
Da princesinha Maria
Mandou buscar um doutor
Dos melhores que gavia
Para descobrir o mal
Que sua filha sentia
Na princesinha o doutor
Um exame sério fez
Disse para o rei depois:
Declaro por minha vez
O mal da princesa é
Sintomas de gravidez
O rei ouvindo a conversa
Teve um susto de morrer
Disse: Doutor, eu não posso
Com isso me convencer
No seu quarto não vai homem
Como é que pode ser?
Disse o doutor: Algo estranho
Acontece neste império
O senhor deve chamá-la
E interrogá-la sério
Pois somente ela sabe
Desvendar este mistério
O rei chamou a princesa
Em particularidade
Lhe perguntou se o médico
Falou com sinceridade
Ela respondeu: Papai
O doutor disse a verdade
— A verdade irei contar
Dê o caso no que der
Depois que o senhor ouvir
Acredite se quiser
Minha freira guardiã
É homem, não é mulher
O rei mandou ver a freira
Para ficar convencido
Quando a roupa lhe tiraram
Viu foi um homem despido
O rei chegou-se pra ele
E bradou enfurecido
— De qual inferno vieste?
Diz-me como és chamado!
Pedro olhando para o rei
Disse num tom moderado:
Eu sou Pedro Malasartes
O vosso humilde criado
O rei disse: Sem-vergonha
Vai logo se aprontar
Para com a minha filha
Daqui a pouco casar!
Disse Pedro: Majestade
Quero solteiro ficar
— O que?! — exclamou o rei
Já num desapontamento
Ali mandou ver o padre
Então no mesmo momento
Mandou de Pedro e da filha
Celebrar o casamento
Pedro depois de casado
Com a princesa Maria
Num mar de felicidade
Muito feliz se sentia
Por saber que a princesa
Também muito lhe queria
Pedro depois de casado
Deixou de ser presepeiro
Tornou-se homem pacato
Inteligente e ordeiro
O rei por isso lhe fez
Da sua coroa herdeiro
Depois de um ano o monarca
Desse reino faleceu
Pedro como seu herdeiro
A coroa recebeu
Então de um grande rei
O maior exemplo deu
Pedro com a sua esposa
Foi viver muito feliz
Tiveram somente um filho
Pois o senhor assim quis
Que foi o futuro rei
Daquele grande país
Pedro não se esqueceu
Pois tinha um bom coração
Manou um grande cortejo
Buscar seu irmão João
Para vir morar consigo
Naquela sua nação
FIM
Juazeiro, 25 de maio de 1976