Todo mundo já conhece
O Rei da Pirataria
Que teve o nome de Pedro
Como batismo na pia
Alcunhado Malazarte
Pelas "artes" que fazia
Ainda muito criança
Malazarte começou
A demonstrar o que era
Sua fama se espalhou
Suas célebres proezas
Ninguém nunca as imitou
Desde cedo descobriram
Que ele era inteligente
Mas se fazia de bobo
Passava por inocente
Para poder sem vexame
Calotear "toda gente"
Com três semanas de idade
Engatinhou cai-não-cai
Andou com menos de um mês
Mamou no peito do pai
Disse: "Ô leite ruim da peste
É de amargar, mas vai..."
Ao completar cinco anos
Pedro já sabia tudo
Na grande escola do mundo
Completou o seu estudo...
Passava às vezes por cego,
Aleijado, doido ou mudo!
Esteve em muitas escolas
Em nenhuma demorou
Mais de um professor no hospício
O Malazarte botou
Gosta da confusão
Barulho nunca enjeitou
Foi menino de recado
Foi carregador de feira
Guia de cego, moleque
Professor de bobageira
Boêmio de natureza
Vivia na quebradeira
Seus pais eram lavradores
De origem e de profissão
Pedro disse: Eu também planto
Mas à meia, isso é que não!
Não vou cevar tatuíra
Já acabou-se a escravidão
Se o Governo me der terra
Eu posso ir pra a lavoura
Mas à meia eu não trabalho
Pra essa corja exploradora
Prefiro "dar meus pulinhos"
Enquanto a coisa melhora
No mundo capitalista
É preciso ser sabido
Se eu banco o trouxa, me engolem
Tenho de ser prevenido...
O mole que se derreta
Eu cão, não perco o sentido
Tirar do pobre, eu não tiro
Porque ele é igual a mim
Mas o rico se previna
Porque comigo é assim:
Granfino nas minhas unhas
Só come é da banda ruim
O Brasil está errado
Um dia há de consertar
Quando o povo organizado
Resolver modificar
Esse mundo de misérias
Que vive a nos maltratar!
Desse jeito é que pensava
O dom Pedro Malazarte
Brasileiro de verdade
Conhecido em toda parte:
Não dava murro sem luva
Empregava "o engenho e a arte"
Era filho do Nordeste
Esse sujeito de tino
Sofreu no inferno da seca
Quando ainda era menino
Correu por todo o Brasil
Que andar era o seu destino
A Paraíba do Norte
Foi o seu berço natal
Lá fez muita peripécia
Deixou muita gente mal
Deixou ricaço sem tanga
Delegado no hospital!
Suas primeiras façanhas
Fez ainda no sertão
Quando enganou um vigário
Com a ajuda de um sacristão
Até hoje ninguém sabe
Como foi essa "questão"
O que é certo é que o vigário
Tinha guardado bom cobre
O sacristão, descobrindo
Disse: "Eu não serei mais pobre!
Malazarte faz o roubo
Me entrega e ninguém descobre"
O sacristão chamou Pedro
Que contava os seus dez anos
Disse: "Amigo Malazarte
Façamos como os ciganos
Vamos ter vida folgada
Sem dores nem desenganos
O vigário é muito rico
Não tem para quem deixar
Além de tudo está velho
Não há de muito durar
Mas é sovina e se a gente
Pedir, ele vai negar
Outro dia entrou no quarto
Eu olhei na fechadura
Ele tirou uma chave
Que traz presa na cintura
Só vendo o que eu vi lá dentro
No quatro do padre-cura
Junto da cama do padre
Tem um armário embutido
Ninguém percebe este armário
Porque está bem escondido
Por detrás do oratório
Escute e ponha sentido
O vigário com cuidado
Afastou o oratório
Procurou a fechadura
Como um gatuno finório
Abriu o armário e tirou
Montes de "bom papelório"!
Nunca vi tanto dinheiro
Malazarte, eu lhe confesso
Tem cada monte de notas
Que só de ver me entonteço
Vai ser tudo meu e seu
Não deixe nada, eu lhe peço!
No vinho que o padre bebe
Eu vou botar dormideira
Quando ele pegar no sono
Corra na sua algibeira
Tire tudo que for chave
Sem barulho e na carreira
Depois você vai ao quarto
Do vigário capelão
Abre o armário, tira o cobre
(Não deixe nem um tostão...)
Eu fico olhando as entradas
Para evitar confusão!
Como o sacristão lhe disse
Pedro Malazarte fez...
Só, que saiu pelos fundos
Exclamando: Até pra o mês!
Sacristão, muito obrigado
Nada eu lhe dou desta vez
O sacristão descobrindo
Que tinha sido enganado
Fugiu pra longe, dizendo:
— Meu Deus! Estou desgraçado...
Quando o vigário acordar
Na certa eu vou encanado
O vigário capelão
Quando acordou estava morto...
A dose foi muito forte
Perdeu seu luxo e conforto
O sacristão, inda hoje
Viaja de porto em porto
Malazarte com o dinheiro
Fez todo o bem que podia
Comprou terra e deu pra os pobres
Ajudou quem conhecia
Enquanto teve dinheiro
Junto a si ninguém sofria
Muitas outras peripécias
Malazarte praticou
No estado da Paraíba
Que foi onde se passou
Esse caso do vigário
Que dito acima ficou
Alguns anos decorreram
Sem quase se ouvir falar
O dom Pedro Malazarte
Que tratou de viajar
Tempos depois, no Amazonas
Vamos de novo o encontrar
Malazarte no Amazonas
Trabalhou num seringal
O dono era um tatuíra
Que só pensava no mal
Quis enganar Malazarte
Mas isso lhe foi fatal
No seringal, Malazarte
Viu miséria e escravidão
O seringueiro oprimido
Sob o guante do patrão
"Justiça" é bala ou dinheiro
Nesse longínquo sertão
Para trabalhar dois anos
Malazarte contratou
Quando foi no fim do tempo
O seu patrão procurou:
No acerto de suas contas
O tatuíra estrilou
Malazarte tinha um salto
De quase dez mil cruzeiros
O tatuíra fez mesmo
Como fazem os caloteiros
Disse que ele ainda devia
Como os outros companheiros
Malazarte revoltou-se
Reuniu seus camaradas
Pegaram esse tatuíra
Mataram de cacetadas
Todos eles receberam
Suas contas atrasadas
Queriam que Malazarte
Ficasse no seringal
Dirigindo os companheiros
Tratando a todos igual
Mas ele disse: "Eu só quero
O meu dinheiro integral"
Recebidos seus dez contos
Malazarte viajou
Algum tempo no Pará
Pra ver as coisas, ficou
Tirou castanha e borracha
Mas quase nada ganhou
Andou nas tribos de índio
Foi cacique e foi pajé
Vendeu couro de pintada
Sucuri e jacaré
Disse: "O pobre é quem faz tudo
Mas nunca que toma pé"
O que ele viu na seringa
Viu na castanha também
Injustiça e exploração
Disse: "Aqui não me convém
Vou procurar outras terras
Até outra vez, Belém"
No Maranhão, Malazarte
Colheu coco babaçu
Viu que ali, também, quem planta
Tem fome e quase anda nu
Quem mora à beira dos rios
Vive é de pirarucu
No estado do Piauí
Malazarte foi tropeiro
Também quiseram enganá-lo
Mas ele enganou primeiro
Com cera de carnaúba
Esperou fazer dinheiro...
No Ceará, Malazarte
Resolveu ser pescador
Disse: O sertão não tem água
E para lá eu não vou
O mar tem peixe à vontade
Só precisa é "ter valor"
No Rio Grande do Norte
Se empregou numa salina
Mas o trabalho é pesado
E a renda é bem pequenina
Decidiu: — Antes que eu morra
Vou andar, que é minha sina!
Em Pernambuco, empregou-se
Nos grandes canaviais
Mas ali também notou
Que a exploração é demais
Em Alagoas foi tudo
E fez o que ninguém faz
Em Sergipe, Malazarte
Tirou dinheiro no bicho
Desejou ir pra a lavoura
Mas sustentou seu capricho!
Disse: "Sem terra, eu não planto
Quem quiser que coma lixo"
O lavrador sem a terra
É ferreiro sem fornalha
Tudo o que faz é dos outros
Pois só pra os outros trabalha
Morre, e não sai da miséria
Em ferro frio ele malha
De Sergipe, Malazarte
Entrou na terra baiana
Andou no mar de saveiro
Disse: Aqui ninguém me engana
Vou trabalhar no cacau
Ver se junto alguma grana
E foi Pedro Malazarte
Pra as fazendas de cacau
Mas notou que em qualquer parte
Todo tatuíra é mau
Todo lavrador, cativo
Disse: Não vai, nem a pau!
Deixando a Bahia, Pedro
Entrou em Minas Gerais
Foi vaqueiro nas fazendas
Onde se sofre demais
Também tentou garimpar
Diamante, ouro e cristais
Daí, Pedro Malazarte
Entrou no Brasil Central
Em Goiás, foi ver de perto
A Colônia Nacional
Viu que o colono ali sofre
A exploração mais brutal
Esteve por Mato Grosso
Estudando a região
Como nos outros estados
Viu miséria e exploração
Disse: "O jeito é ser malandro
Vai ser a minha profissão"
De Mato Grosso, dom Pedro
Quis São Paulo conhecer
Nas plantações de café
Pôde de perto aprender
Que ao lavrador sem terra
Só resta mesmo é sofrer!
Continuando a viagem
Penetrou no Paraná
Tirou pinho, apanhou mate
Fez muita coisa por lá
Mas já estava convencido
"Jeito" pra o pobre, não há
Foi a Santa Catarina
E ao Rio Grande do Sul
Colheu uva, vendeu mate
Mas nada não estava azul
Viu que o brasileiro pobre
Vive ali faminto e exul
Por mar deixou Porto Alegre
Saltou no Espírito Santo
Na terra dos capixabas
Demorou-se um mês e tanto
Viu o mesmo que já vira
Miséria! por todo o canto
Deixando o Espírito Santo
Entrou no estado do Rio
Viu que ali, também, o pobre
Tem um destino sombrio
Faz fartura e passa fome
Faz a roupa e sofre o frio...
Chega, afinal, Malazarte
No Distrito Federal
Dizendo: Daqui não saio
Só se for caso fatal
Por toda parte há miséria
No Brasil tudo vai mal
Trabalhou somente um dia
Na Light de trocador...
O dinheiro recebido
Naturalmente gastou
Disse: "Eu não encho a barriga
De estrangeiro explorador"
Passou contos do vigário
Em diversos "coronéis"
De uma madame, em São Paulo
Furtou vinte e quatro anéis
Ganhou com seus "trabalhinhos"
Milhões de contos de réis
Um dos seus grandes amigos
Foi o Zé do Bico Doce
Também com Cancão de Fogo
Malazarte acolegou-se
Mas... "trabalhava" sozinho
Com ninguém associou-se!
Hoje, Pedro Malazarte
Das suas ainda faz
Agora ele está lutando
Na Grande Frente da Paz
Dizendo: "Sou contra a guerra
E todo o mal que ela traz"
Se eu furto, não é porque gosto
Mas por pura precisão
Furto o dinheiro furtado
Da boca da multidão
Tudo é roubado do povo
Liberdade, Terra e Pão!
Com a gaita que eu defendo
Vou combater contra a guerra
Contra a horrível bomba atômica
Que quer acabar com a terra
Contra o monstro Imperialismo
Que tudo o que é mau encerra
Até outra vez, amigos
Não tenham medo de mim
Não faço mal à pobreza
— Aos tubarões, isso sim!
Por Pão, Terra, Liberdade
E Paz luto até o fim