Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Tema do Mês

Agosto 2010 - Ano XII - nº 139

A vida de João Malazarte
Encontro de Cancão de Fogo com Pedro Malasartes
As aventuras de Pedro Malazarte
As travessuras de Pedro Malasartes
Aventuras de Pedro Malasartes Segundo
As presepadas de Pedro Malasartes
As diabruras de Pedro Malasartes
As palhaçadas de Pedro Malazarte

 

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Pedro Malasartes na literatura de cordel

Encontro de Cancão de Fogo com Pedro Malasartes

Minelvino Francisco Silva

O leitor deve saber
Quem era Cancão de Fogo
Também Pedro Malazarte
Que nunca perdeu no jogo
Ambos fizeram o diabo
Ficar sofrendo de gogo

A esse Cancão de Fogo
Todo o povo admirava
Pois ele enganava a todos
E ninguém o enganava
Não tinha quem decifrasse
As charadas que ele dava

Como também Malazarte
Era mestre sem igual
Na astúcia ele iludia
Civil e policial
Era capaz de iludir
A majestade real

Nada tinha neste mundo
Que Pedro não arranjasse
Não existia impossível
Que ele custoso achasse
Enganava o mundo inteiro
Sem achar quem lhe enganasse

Soube um dia Malazarte
A notícia de Cancão
Na Paraíba do Norte
Vivendo pelo sertão
Como maior estrangeiro
Exercendo a profissão

Cancão de Fogo também
Sempre notícia sabia
Desse Pedro Malazarte
Que aonde residia
Quem com ele se metesse
De toda forma caía

Malazarte residia
Nas terras do Ceará
Na capital Fortaleza
Até Belém do Pará
Pensou de ir pra o sertão
Remir a vida por lá

Pensou então Malzarte
Por essa justa razão
— O povo do interior
É caipira e bobão
Garanto me sair bem
Lá para o alto sertão

Fez um fardo de molambo
Tecido velho rasgado
Amarradinho a capricho
Que ficou bem embalado
Pra marretar no sertão
Estava bem preparado

A esse bem feito fardo
Que com cuidado embalou
Para ver se conduzia
Contente experimentou
Depois, botou-o no ombro
E pra o sertão viajou

E também Cancão de Fogo
O gênio da esperteza
Pensou em seguir viagem
Pra capital Fortaleza
Dizendo: O povo e otário
Faço lá minha defesa!

No lixo da feira livre
Ele achou seu ideal
Encontrou mercadoria
Fez fardo descomunal
Só de espinhas de peixes
Viajou pra capital

Só de espinha e barbatana
Ele fez um amarrado
Escreveu em cima: "peixe"
E com bastante cuidado
Botou na cabeça e disse
Com este eu vou preparado

Seguiu Cancão, seguiu Pedro
Com seus planos traiçoeiros
Um de lá, outro de cá
Com pensamentos certeiros
Um do outro não sabia
Eram dois aventureiros

Com dois dias de viagem
Um com o outro se topou
Dizendo: Amigo, bom dia
Também o outro o saudou
Botaram os fardos no chão
Ali conversa aumentou

Cancão perguntou a Pedro
O que ele ia levando
Naquele tão grande fardo
Ele então foi se explicando
Dizendo: Isto é tecido
Eu vivo mascateando!

Malazarte, nesse pé
A Cancão interrogou
E seu fardo de que é?
Cancão de Fogo falou:
Isso é peixe que de gordo
Minha roupa já sujou

Então naquele momento
Se puseram a conversar
Cancão falava com Pedro
Pra aqueles fardos trocar
Pedro disse: Tu és louco
No meu modo de pensar

Dar meu fardo de tecido
De seda e brim de algodão
Sem volta, por um de peixe?
Lhe respondeu o Cancão:
Agora é Semana Santa
Peixe dá um dinheirão

Malazarte se influiu
Logo ali negociaram
E entre dois mercadores
Nem um cruzeiro voltaram
Um do outro despediu-se
E contentes se apartaram

Cancão saltando de alegre
Dizia no coração
Eu fiz um ótimo negócio
Com aquele paspalhão
Este fardo de tecido
Vai dar gaita no sertão

Só barbatana de peixes
Aquele bobo levou
Vai morrer na caixa-prego
Cancão de Fogo falou
Adiante abriu o fardo
Só molambeira encontrou...

Danou-se, disse Cancão
Aquele cabra é passado!
Eu apliquei-lhe o calote
Mas quase saí roubado
Quem me passasse uma dessas
Eu nunca tinha encontrado!...

Só eu voltando atrás dele
Até um dia encontrar
Para andar junto com ele
E a toda gente enrascar
Ver de nós o mais sabido
Preciso experimentar

Malazarte muito alegre
Sua viagem seguia
Fizeste um ótimo negócio
Seu coração lhe dizia
Foi quando chegou-lhe a fome
Na hora do meio-dia

À sombra dum arvoredo
Malazarte descansou
Para tirar um peixinho
Logo o fardo desatou
Quando abriu o amarrado
Somente espinha encontrou!

Murmurou supreendido:
Mas que caboclo danado!
Nunca ninguém enganou-me
E hoje fui enganado
É cobra engolindo cobra
Assentou bem o ditado!...

Eu agora vou voltar
Atrás daquele ladrão
Para nós andarmos juntos
No interior do sertão
Roubar rico, roubar pobre
Roubar padre e sacristão

De regresso na estrada
Malazarte viajou
Não caminhou meia légua
A seu colega encontrou
E fazendo ar de riso
A Cancão cumprimentou

Cancão falou para Pedro
Mas você é um danado!
Este, bastante sorrindo
Disse: Não. Sou viajado.
Você é muito pior
Pois me deu o bonde errado!...

Como chama-se o amigo?
Malazarte perguntou
Cancão de Fogo é meu nome
O outro assim explicou
Eu sou Pedro Malazarte
A canga aí se abraçou...

Sua fama eu já conheço
Assim lhe disse Cancão
Somos colegas de arte
Pela zona do sertão
Quer andar junto comigo?
Pedro lhe disse: Pois não!

A sua fama eu conheço
Há muitos anos atrás
Que nunca foi enganado
É muito astuto e sagaz
E se houver precisão
Engana até satanás

É verdade, respondeu
Naquela hora o Cancão
Pois eu sei me defender
E não sou tão bobalhão
Porque na terra de cegos
Quem tem um olho é barão

Malazarte perguntou-lhe:
E este cancão de lado
Soltando tanta fumaça
Que me faz amedrontado?
Cancão disse: É quem me livra
Quando me vejo apertado!

Disse Pedro: Qual motivo
Do pássaro lhe defender?
Cancão disse: Um inimigo
Meu passarinho prevê
Desvenda todo segredo
Depressa vem me dizer!

E disse assim para Pedro:
Agora vamos pensar
Como devemos fazer
Pra todo o mundo enganar
Malazarte respondeu-lhe
Um plano eu pude formar

Você se finge de cego
Eu também de aleijado
E vamos pedindo esmola
Já está tudo acertado
Muito bem, disse Cancão
Teremos bom resultado

As juntas de Malazarte
Faziam toda manobra
Virava a cara pra trás
Se enrolava como cobra
Era igualmente borracha
Que facilmente se dobra

Então Pedro Malazarte
Para armar uma cilada
Na perna deu um jeitinho
Que ficou toda aleijada:
Com a batata pra frente
E a canela revirada

Cancão aí batizou-se
Por nome Serapião
Não queria que chamasse
Nem o pássaro de Cancão
Um ladrão indo roubá-lo
Ele roubava o ladrão

Foi quando Serapião
Nos olhos deu um jeitinho
Ficou um cego que corre
A baba pelo focinho
Cada qual com um bastão
Seguiram pelo caminho

Ao cego, por um bastão
O aleijado puxava
E foram pedindo esmola
À gente que ali morava
Da astúcia deles dois
Um doutor não escapava

Muito adiante uns tropeiros
A eles dois encontraram
Os mendicantes na hora
Uma esmola imploraram
Que andavam sem dinheiro
Os tropeiros lhes falaram

Então lhes diz um tropeiro
Sem nada desconfiar:
Nós vamos ali para o rancho
Vocês querendo voltar
Pela comida nós damos
Que comem até se fartar

O cego e o aleijado
Essa proposta aceitaram
Direto lá para o pouso
Os tropeiros viajaram
Malazarte e Cancão
Pra lá então se botaram...

Cancão de Fogo ligeiro
Os olhos desavessou
Também Pedro Malazarte
Sua perna endireitou
E pondo os bastões nos ombros
Cada um, são, regressou...

Ao avistarem os tropeiros
Com o lote carregado
Cancão revirou os olhos
Como era acostumado
Pedro entortou a canela
Como d'antes, aleijado

Então os pobres tropeiros
Que nada desconfiaram
Deram comida aos dois
Comeram que se fartaram
Deram um couro a cada um
Eles fartos se deitaram

Carregado de fazenda
O lote de burros ia
Porque até esse tempo
Caminhão não existia
Somente em lombo de burro
Andava a mercadoria

Meia-noite, mais ou menos
Malazarte com Cancão
Cinco fardos de fazenda
Ligeiros passaram a mão
Foram esconder esses fardos
Na Serra do Espigão

Na hora que amanheceu
O cego e o aleijado
Cada um em seu cantinho
Ali estava deitado
Foi quando um tropeiro vu
Que os fardos tinham roubado

Procuraram em todo canto
Não conseguiram encontrar
Do cego e do aleijado
Não iam desconfiar
Pelejaram que suaram
Nada puderam arranjar

O cego e o aleijado
Ficaram penalizados
Dizendo: É uma miséria
Oh! Que amaldiçoados
Roubaram a mercadoria
Desses homens tão honrados!

Os tropeiros procuraram
Não podendo encontrar
Resolveram ir-se embora
Para ali não demorar
Botaram a carga nos burros
Puseram-se a viajar

Depois que a turma saiu
Malazarte e Cancão
Também seguiram viagem
Pra Serra do Espigão
Aonde estavam escondidos
Os fardos num buracão

Chegando foram pensar
O que era que se fazia
Cinco fardos de fazenda
Vender em que freguesia
Aí Pedro Malazarte
Pra Cancão assim dizia:

Colega, eu vou te dizer
O que pude planejar
Você vá lá na cidade
Para uma casa alugar
Instalamos uma loja
E vamos negociar

Cancão lhe disse: Colega
Acho boa opinião
Nós indo negociar
Conforme nossa união
Mais tarde iremos ser
Os mais ricos do sertão

Cancão de Fogo seguiu
Em direção da cidade
E Malazarte pensou
Em outra sagacidade
Pra roubar de Cancão
Todos fardos ou metade

Agarrou ali um fardo
No seu ombro carregou
Num enorme buracão
Malazarte atiçou
Jogou todos, um a um
Até que tudo jogou

Ficou bem calmo, escondido
Com muito jeito e cuidado
Procurando um animal
Calculou bem acertado
Pra tirar todo o tecido
E dali ser transportado

Então Cancão na cidade
Um bom cômodo arranjou
Voltando procurou Pedro
O canto limpo encontrou
O colega me traiu!
Cancão assim exclamou

Dizia Cancão, bem triste:
Eu nunca fui enganado
Tenho vinte e cinco anos
Sem ninguém ter me logrado
Malazarte me roubar
Isso é que acho pesado!

Já vi que é certo o ditado
Da gente do interior
Que por detrás do pau grosso
Tem outro superior
Porém, quando eu pegar Pedro
Mostro a ele o meu valor!

Ele há de procurar
Com certeza um animal
Para conduzir os fardos
Isso é muito natural
Eu vou comprar um chocalho
Ele vai sair-se mal

E voltando pra cidade
Logo um chocalho comprou
Para trás ligeiramente
Cancão de Fogo voltou
Pra Serra do Espigão
Aonde o outro ficou

Chegando ficou no mato
Com o chocalho batendo
Fazia como animal
Quando a erva está comendo
Pedro no som do chocalho
Vinha danado correndo

Pedro dizia, contente:
Ali tem um animal
E vou pegá-lo e levar
Meus fardos pra capital
Nessa hora nem pensava
De encontrar o seu rival

Malazarte abaixado
Seguiu entre os matagais
Pensando que era um
Ou então dois animais
Foi quando Cancão gritou:
Alto lá, cabra sagaz!

O outro com essa voz
Quase morreu assustado
Porque encontrou Cancão
Sem nunca ter esperado
Foi dizendo: Meu amigo
Você é cabra danado!

Aonde estão nossos fardos?
Cancão assim perguntou
Estão ali escondidos
Malazarte lhe falou
Porque vi alguém que vinha
Guardei-os, ninguém notou

Vamos lá, vá me mostrar
Assim lhe disse Cancão
E ambos dali seguiram
Foram até o buracão
Que se olhava pra baixo
Só se via escuridão

Cancão propôs para Pedro
Todos os fardos buscar
Dizendo: Você jogou
Por isso é quem vai tirar
Malazarte concordou
A nada quis reclamar

Tiraram um cipó no mato
Bem forte e de comprimento
Fizeram boa laçada
Porém Pedro no momento
Trabalhava com as mãos
E a treita no pensamento

Disse Cancão: Você desça
E quando em baixo chegar
Amarre um fardo seguro
Da forma que aguentar
Eu cá fora puxo a corda
Quando você balançar

Malazarte assim fez
Com o cipó se amarrou
Desceu de buraco abaixo
E Cancão lhe segurou
Foi rodando, foi descendo
Até que embaixo chegou

Os fardos de um a um
Malazarte os amarrava
E balançando o cipó
Cancão pra fora puxava
Saiu primeiro, segundo
Porém três inda faltava

Cancão de Fogo cá fora
Fez um juízo malvado:
No último fardo eu te deixo
No teu depósito guardado
Lá tu morres, com teu gênio
Pra deixar de ser danado

O pensamento de Pedro
Ainda foi mais além
Dizendo: Nos quatro fardos
Eu vou me amarrar também
Quem der em mim eu perdôo
Eu não aliso a ninguém

No quarto fardo também
Malazarte se amarrou
Aí balançou a corda
Cancão de Fogo o puxou
Sentiu que estava pesado
Porém não desconfiou

E quando o fardo saiu
Cancão disse: Arre, bandido
Nem tua alma sai daí
Pra não ser tão atrevido!
Pedro disse: Eu estou fora
Vamos partir o tecido!

Cancão, és acostumado
A todo mundo enganar
Porém comigo você
Tem que se atrapalhar
Há de ser elas por elas
Pois eu sou de amargar!

Cancão disse: Malazarte
Fiquei até sem ação
Pensei qu'era eu sozinho
Nestas zonas do sertão
Mas você quer dá em mim
Seu bolo vá dar no cão!

Cancão aí despediu-se
Dizendo: Adeus, companheiro
Tu és amigo da onça
Pedro lhe disse ligeiro:
Muito pior é você
Cabra sagaz, estradeiro!

Cancão se assombrou de Pedro
Ele também de Cancão
Dois duros não fazem muro
Nos diz o velho rifão
Um seguiu pra capital
O outro para o sertão

Mas, antes, horrorizado
O Cancão pelo que viu
Todos os fardos de pano
Direitinho os dividiu
Disse adeus a Malazarte
Sua viagem seguiu!

Viajou Cancão de Fogo
Falando em todo lugar
Que com Pedro Malazarte
Não queria viajar
Ele enganava o diabo
Que viesse o enganar

E dizia Malazarte
Consigo no coração:
Não quero mais encontrar-me
Com esse tal de Cancão
Seguiu um pra Fortaleza
O outro pra o Maranhão

Pois Pedro para jogar
Era mais do que terror
Porque ele no baralho
Nunca temeu jogador
Se na conversa era bom
No dedo tinha valor

Pedro pegava o baralho
Fazia o que bem entendia
Porque se ele quisesse
No jogo nunca perdia
Pois a carta que chamava
Ela a ele obedecia

Vinham muito sjogadores
Para com Pedro jogar
Porém só vinham no jogo
Dinheiro a Pedro entregar
Não tinha este ou aquele
Para da unha escapar

Um dia na casa dele
Pobre velhinho chegou
— Esse velho era Jesus —
Uma hospedagem implorou
Malazarte com carinho
A Jesus Cristo hospedou

Jesus dormiu sossegado
Que nada lhe incomodou
Então, no dia seguinte
Bem cedinho viajou
Dizendo a ele: O que queres
Com muito gosto te dou!

Pedro pediu a Jesus
No sue modo de pensar
Que somente o que queria
Era apenas no lugar
Que ele calmo se sentasse
Ninguém mandar levantar

Jesus Cristo prometeu
O que ele então lhe pediu
De Malazarte na hora
Contente se despediu
E dali com seus apóstolos
Viagem longa seguiu

Continuou Malazarte
Na rendosa profissão
Na ronda no vinte e um
Nunca perdia uma mão
Já fazia do baralho
O seu livro de oração

Foi do Rio de Janeiro
Um jogador afamado
Pra jogar com Malazarte
Ia de corpo fechado
Porque um velho xangô
O deixou bem preparado

Mandou chamar Mazarte
Para com ele jogar
Levava cem mil cruzeiros
Pra esse jogo arriscar
Dizendo: Eu quero do cabra
Até as calças tirar!...

Pedro pegou dois cruzeiros
E caminhou pra o salão
Onde era a mesa do jogo
Teve toda informação
Pra assistir eles jogarem
Afluiu a multidão

Então começaram o jogo
Que foi terrível porfia
O povo fazia apostas
Sempre de grande quantia
Isso da boca da noite
Até o romper do dia

Então quando amanheceu
O senhor Manuel João
Tinha perdido o dinheiro
Não lhe restava um tostão
Cem pacotes, Malazarte
Passou todos no goelão

Para o Rio de Janeiro
Chorando o bamba voltou
O seu passe Malazarte
De camarada pagou
Mas numa roda de pau
Caiu o velho xangô

Pedro já muito velhinho
Bem perto de falecer
Chamou a si um irmão
Por esta forma a dizer
Você bote meu baralho
No caixão, quando eu morrer

E quando ele morreu
Ficou João, seu irmão
Que fez logo seu pedido
Sem haver murmuração
Pegando o tal baralho
Botou também no caixão

A alma de Malazarte
Entrando num avião
Por ser formado de vento
Foi tomando direção
Nas alturas não tirava
O seu baralho da mão

A morte que dirigia
Aquele avião no ar
Mandou cobrar a passagem
Ali por Santo Aguiar
Mas foi um rolo danado
Pois Pedro não quis pagar

O santo zangado disse:
Não gosto de jogador
Homem que vive no jogo
Para mim não tem valor
Perde dinheiro e vergonha
Perde a fé do Criador

Malazarte respondeu-lhe:
Eu nunca lhe conheci!
Se jogo é com meu dinheiro
A você nunca pedi
Não gosto é de bebe-molho
Nem também de discutir

Não aumentou a conversa
E nem houve alteração
Porque naquele momento
Chegaram à santa mansão
A morte no porto aéreo
Aterrisou o avião

Pegaram um táxi ligeiro
A fim de não demorar
Correram cinco minutos
Pra todos no céu chegar
E Pedro olhava o baralho
Com vontade de jogar

Deixou o carro e seguiu
Muito adiante esperou
Pegando uma grande pedra
Sobre a estrada rolou
Ali era grande curva
Pedro escondido ficou

O carro ia sereno
Em cento e vinte puxando
Ao entrar na grande curva
A morte foi barbeirando
E quando montou na pedra
Um pneu foi estourando

A morte disse: Foi Pedro
Sujeito astuto e sagaz
Saindo do carro disse:
O que é que a gente faz?
O jeito foi irem a pé
E Pedro seguiu atrás

No céu chegando foi Pedro
Falar com Nosso Senhor
São Miguel avistou ele
E lhe disse, sem temor:
Desça, que nesta mansão
Não se aceita jogador!

Disse Pedro: Eu desço mesmo
Porém não por seu mandado
Porque eu quero encontrar-me
Com o Lucifer, falado
Dizem que ele é bom no jogo
E eu vou deixá-lo enrascado

Logo desceu pra o inferno
Chegou na porta e bateu
Lucifer nesse momento
No portão apareceu
Malazarte saudou ele
Que contente respondeu

Pedro disse: Aqui tem jogo?
Disse ele: Sim, senhor
Eu me chamo Lucifer
Sou o deus do jogador
Disse Pedro: Então aperte
Minha mão, por seu favor!

Eu venho aqui informado
Consigo quero jogar
Pois já venho prevenido
Para perder ou ganhar
Puxou na hora o baralho
E mandou ele cortar

O cão cortou o baralho
E uma alma apostou
Quando virou, bem alegre
Da boca Pedro ganhou
Lucifer disse: Caramba
Você nesta me roubou!

Pedro traçou o baralho
Lucifer tornou cortar
Duas almas de uma vez
Ele tornou apostar
Quando de boca virou
Pedro tornou a ganhar!

Com essas duras paradas
Lucifer foi se zangando
Foi aumentando as paradas
E Malazarte ganhando
Lucifer inchou as veias
Já quase se afobando

Com esse jogo trincado
Lucifer se afobou
No jogo, bem disputado
As almas Pedro ganhou
Botando todas na frente
Para o céu logo voltou

E quando chegou no céu
São Miguel foi avistando
Conversou com Jesus Cristo
Daquilo se admirando
Dizendo que Pedro ia
As almas todas levando

Jesus olhando também
Na porta do sexto andar
Disse para São Miguel
Tenha calma singular
Abra a porta para as almas
Mas Pedro não deixe entrar

São Miguel abriu a porta
As almas foram chegando
E todas, de uma a uma
Na porta do céu entrando
Mas Pedro, para entrar
Um plano estava formando

Quando a alma derradeira
Na porta do céu passou
Que Pedro tentou entrar
Mas São Miguel não deixou
Ele então no limiar
Da porta um dedo imprensou

Ficou gritando: Ai, meu dedo!
Abra a porta devagar
Que era pra São Miguel
A porta facilitar
Só assim dessa maneira
Podia no céu entrar

A porta abriu um pouquinho
Um braço Pedro empurrou
E gritou pra São Miguel
Ainda mais me apertou
Deixe eu tirar o meu braço
Doeu que agora danou!...

São Miguel não atendeu
Pedro pediu ao Senhor
Mande Miguel me soltar
Estou morrendo de dor
Para eu tirar meu braço
Tenha pena deste horror!

Para o santo abrir a porta
Jesus ali ordenou
Quando São Miguel abriu
Um pouco facilitou
No trono de São Miguel
Malazarte se sentou

São Miguel com grande raiva
Mandou ele levantar
E Pedro não dava ouvidos
Sem se bulir do lugar
Disse: Não mexa comigo
Que é um pará-pra-acertar

São Miguel disse a Jesus
Assim por esta maneira
Mande Pedro Malzarte
Procurar outra cadeira
Porque ele está levando
A verdade em brincadeira

Jesus na hora mandou
Pra Malazarte sair
Do trono de São Miguel
E procurar outro ali
Mas Pedro disse: Senhor
Não se lembra o que eu pedi?

Nessa palavra de Pedro
Jesus Cristo se lembrou
Do que prometera a ele
Quando na terra passou
E então pra São Miguel
Outro trono procurou

Malazarte virou santo
Deixou de ser trapaceiro
Na vida de jogador
Foi um grande aventureiro:
São Miguel foi pesar almas
"São" Pedro foi ser chaveiro!

Vamos vê Cancão de Fogo
Qual foi o seu resultado
Quando ficou no sertão
Cumprindo o seu triste fado
Enganando a todo mundo
E por ninguém enganado

Até que chegou o dia
De sua consumação
Lhe disse a morte: Eu não levo
Ninguém no meu avião
Para levar caloteiro
Só levo de caminhão

Cancão de Fogo lhe disse
Leve lá no que quiser
Eu nunca temi a homem
Pra hoje temer mulher
Subiu na carroceria
Foram as almas na boler

Santo Aguiar deu a ordem
Ligeiro a máquina virou
A morte foi destrancando
O motor acelerou
Deu a volta marcha-à-ré
Pegou primeira e pisou

O carro em cento e cinquenta
A morte ia puxando
Cancão na carroceria
Ia até se abusando
O ar frio do espaço
Tudo ia congelando

No reino da madrugada
Cancão ali saltou fora
E numa pedra de gelo
Se firmou sem ter demora
A morte não pressentiu
No caminhão foi embora

Naquela pedra de gelo
Ficou sentado o Cancão
Quando chega uma velhinha
Fazendo interrogação:
— Pra onde vai, meu netinho
Nesta vida de ilusão?

Vou pra o céu, minha avozinha
Cancão assim respondeu
Então com essa resposta
A velha empalideceu
Dizendo assim: Meu netinho,
Por isso, padeço eu!...

Então, quem é a senhora?
Cancão lhe interrogou
Eu sou a mãe de São Pedro
A velhinha se explicou
Que é o ex-Malazarte
Morreu, se santificou...

Eu ia até lá no céu
Pra ele me socorrer
Montei num talo de couve
A velha pôs-se a dizer
Quebrou-se o talo, eu fiquei
Sem subir e sem descer

Meu filho era pedido
Jogador e lambanceiro
Enganava todo mundo
Era louco por dinheiro
E hoje santificou-se
Do céu ele é o chaveiro

Quando a velha disse isto
Falou ligeiro Cancão:
Eu vou mesmo pra o inferno
No céu não piso mais não
Porque Pedro estando lá
Não chego nem no portão

Agora vou ao inferno
Cancão de Fogo falou
Eu quero ver Lucifer
E para lá viajou
Com dez ou quinze minutos
No inferno ele chegou

Ali chamou: Ó de casa!
Quando na porta bateu
Em menos de dois segundos
Um sujeito apareceu
Perguntou: Quem é você?
E Cancão lhe respondeu:

Menu nome é Cancão de Fogo
Residia no sertão
Pelos meus procedimentos
Não fui à santa mansão
Desejo ser hospedado
Aqui nesta região

Lucifer lhe respondeu
Com uma cara de ferreiro:
Caia fora que eu não quero
Mais aqui cabra estradeiro
Já estou cheio de gatuno
Vagabundo e trapaceiro

Um tal Pedro Malazarte
Me botou sal na moleira
Carregou as minhas almas
Numa bruta brincadeira
E por isso dê um fora
Ou então cai na madeira!

Cancão dali retirou-se
Para evitar a questão
Nem olhava para trás
Seguia sem direção
Procurando se encarnar
Pra renascer no sertão

De Cancão a Malazarte
Aqui faço paradeiro
Malazarte virou santo
Hoje do céu é chaveiro
E Cancão voltou pra terra
Como o pior marreteiro

Quem gostar de dar risadas
De se enrolar pelo chão
Procure a Segunda Vida
Do trapaceiro Cancão
Escrita por Minelvino
Um trovador do sertão

Isso nunca aconteceu
O leitor deve saber
Vive a aranha do que tece
Galinha cisca pra viver
Eu vivo de poesia
Rimo o verso noite e dia
Porque preciso viver

(Silva, Minelvino Francisco. Encontro de Cancão de Fogo com Pedro Malasartes. São Paulo, Prelúdio, 1957 [folheto de cordel])

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