Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Tema do Mês

Agosto 2010 - Ano XII - nº 139

A vida de João Malazarte
Encontro de Cancão de Fogo com Pedro Malasartes
As aventuras de Pedro Malazarte
As travessuras de Pedro Malasartes
Aventuras de Pedro Malasartes Segundo
As presepadas de Pedro Malasartes
As diabruras de Pedro Malasartes
As palhaçadas de Pedro Malazarte

 

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Pedro Malasartes na literatura de cordel

A vida de João Malazarte

Luiz Rodrigues de Lira

Quem nunca leu a história
Do tal João Malazarte
Aproxime-se e ouça
O valor de sua arte
O ente mais presepeiro
Conhecido em toda parte

Morreu Pedro Malazarte
Porém deixou o seu neto
De presepada e mentira
O João ficou completo
Nos lugares que andou
Não ficou ninguém quieto

João nasceu em Lisboa
Porém deixou Portugal
Emigrou para o Brasil
Quando chegou em Natal
Seu pai comprou uma loja
Na rua comercial

Naquele tempo Natal
Era bastante atrasada
Uma cidade pequena
De matos arrodeada
Porém já havia um porto
E uma gente abastada

Deixo Natal e agora
Prossigo noutro tratado
Sobre João Malazarte
Da forma que foi criado
Era perverso demais
Mentiroso e malcriado

Devido às trelas, João
Apanhava todos dia
Porém não se emendava
No lugar aonde ia
Fazia grande alvoroço
E para casa corria

João Malazarte um dia
Encontrou-se com um padre
Disse: abença meu padrinho
Mamãe a sua comadre
Mandou eu passar o dia
Com vacê na santa madre

O padre levou João
Porque tinha um afilhado
Porém não o conhecia
Chegou bastante cansado
Deitou-se na sacristia
Ferrou num sono pesado

Enquanto o padre dormia
João se achando só
Melou a cara do padre
De rouge, batom e pó
Depois destrancou o cofre
Tirou dinheiro sem dó

Um gato do capelão
João pode agarrar ele
Fez um facho de molambo
Amarrou na cauda dele
Ensopou de querosene
Depois tocou fogo nele

O padre estava dormindo
Não viu João fazer nada
O gato enguiçou ele
Com a cauda incendiada
Trepou-se no altar-mor
Fez uma grande zoada

Incendiou-se o altar
Cobriu-se todo em fumaça
João disse: seu padre acorde
E pule pela vidraça
Se não o gato lhe morde
E o senhor se desgraça

O padre se acordou
Naquele grande alvoroço
Correu atrás de João
Para cortar-lhe o pescoço
João na frente gritava
— O bom eu levo no bolso

Adiante João entrou
Na casa de uma velhinha
O padre parou na porta
João saiu na cozinha
Entrou numa capoeira
Que por trás da casa tinha

Reuniu-se o pessoal
Pra saber do ocorrido
O padre todo melado
Cansado e aborrecido
Um rapaz disse: Seu padre
O seu rosto está tingido

Uma moça anarquista
Dessas que tem no Brasil
Perguntou ao capelão:
— Vai dançar hoje, seu Gil?
O senhor ainda é padre
Ou velho de pastoril?

O povo todo sorrindo
E o vigário encabulado
Reparou-se num espelho
Chorou de envergonhado
No mesmo dia deu parte
Pra João ser processado

Seguiu um soldado velho
À procura de João
Com ordem do delegado
Para levá-lo à prisão
Mas caiu numa cilada
Que morreu do coração

O praça encontrou João
Pôs-se a conversar com arte
Ele contente e sorrindo
Fazendo grande descarte
O soldado perguntou-lhe
— Conheces João Malazarte?

João lhe disse: conheço
Hoje mesmo encontrei ele
Se for um que o vigário
Deu uma carreira nele
Me dê um tostão que eu
Vou mostrar a casa dele

O soldado que queria
Prender e dar em João
Deu-lhe o tostão enganado
Com boa satisfação
João recebeu e disse
Eu ajeito esse ladrão

Naquela rua morava
Um oficial malvado
Um coronel do exército
Muito bruto e respeitado
João disse: para lá
Vou mandar este quadrado

Depois do plano frmado
Na calçada pôs-se em pé
Disse: João Malazarte
Mora naquele chalé
— Naquele? — pergunta o praça
Malazarte disse: É

João lhe disse: É ali
Que mora o cabra covarde
Agora eu volto daqui
Porque já é muito tarde
Se eu demorar na rua
Na peia o meu lombo arde

João voltou na carreira
E o pobre do soldado
Seguiu direto ao chalé
Bastantemente vexado
Chegou na porta bateu
Com um talento danado

O oficial estava
Tomando um forte café
Nisso o soldado chegou
Na porta meteu o pé
Perguntou: — Que dê o corno
Que mora neste chalé

O coronel levantou-se
Da mesa muito abusado
Disse quando viu o praça
— Eu não gosto de soldado
Nem levo nada a polícia
Por ali cabra safado

O soldado disse: Eu sei
Que o coronel não gosta
O coronel disse: Cale-se
Eu não quero ouvir proposta
Meteu-lhe a mão pela cara
Que ele caiu de costa

Quando o praça levantou-se
Recebeu um ponta-pé
Doutro murro foi cair
Na calçada do chalé
Com a cara ensanguentada
Correu, deixou o boné

Chegou na delegacia
Disse para o delegado
— Apanhei que quase morro
Não quero mais ser soldado
O senhor mesmo que vá
Prender aquele danado

João vendo o delegado
O perseguindo demais
Emborcou pra Pernambuco
E quando saltou no cais
Seguiu por ali chorando
Com saudade de seus pais

Um polícia viu João
Num choro tão desmedido
Dirigiu-se e perguntou
Se ele andava fugido
João disse: Não, senhor
Choro com dor de ouvido

— E você aonde mora
João respondeu com tédio:
— Se quer saber quem eu sou
Vá ali naquele prédio
Que eu vou para farmácia
Comprar pra mim um remédio

Nisso João Malazarte
Numa marcha contínua
Dizendo: Não me interrompa
Com essa besteira sua
O meu pai disse que eu
Não demorasse na rua

O guarda disse: Seu corno
Está com malcriação
João lhe disse: respeite
O filho de um barão
Se eu contar ao meu pai
Você vai para a prisão

O guarda ficou com medo
Deixou João ir embora
No fim da rua João
Encontrou uma senhora
Disse: Abençoa, minha tia
Como vai? Aonde mora?

A mulher disse: Estou boa
Moro ali numa choupana
João disse: Eu vou agora
Conhecer sua cabana
E também com a senhora
Eu vou passar a semana

A mulher tinha um sobrinho
Parecido com João
Morava no Cariri
Na fazenda do Grotão
Levou ele para casa
Chamando-o Sebastião

A mulher era viúva
Tinha uma filha mocinha
João perguntou: Titia
Como se chama a priminha
A velha disse: Menino
Esta não é Terezinha!

Depois da ceia a viúva
Perguntou: Sebastião
O teu pai ainda é dono
Da fazenda do Grotão
João disse: E ele vende
Aquela situação?

Ele fez uma igreja
No pé de um grande monte
Um jardim e um banheiro
Na margem de uma fonte
No jardim tem uma estátua
Apontando o horizonte

Quando vem rompendo o dia
Que a passarada canta
Surge uma grande alegria
Todo povo se levanta
E pra adorar o santo
Vai à igrejinha santa

Quando João se calou
Perguntou-lhe Terezinha
— Sebastião, tu me levas
Pra eu ver a igrejinha
E também passar uns dias
Com minha prima Julinha?

João lhe disse: Pois não
Estou pronto pra levar
Se titia consentir
Você pode se arrumar
A velha disse: Eu consinto
Nele eu posso confiar

João consigo dizia
— A garota é bonitinha
A velha é besta demais
Pensa que é tia minha
Presta confiança a mim
Eu ajeito esta bichinha

A mulher disse a João
Quando ele foi embora
— Você leva Terezinha
Porém volte sem demora
Só passe por lá um mês
João disse: Sim, senhora

João largou-se no mundo
Com destino ao sertão
Foi parar em Vila Bela
Liso, sem um só tostão
Lá empregou Terezinha
Para apanhar algodão

Passou o resto do ano
Terezinha não voltou
A mãe dela impaciente
Para fazenda rumou
Deu a jornada perdida
Porque não a encontrou

A irmã disse: meu filho
Da fazenda não saiu
Foi outro Sebastião
Que a você iludiu
Porém o meu filho não
Quem disse isso mentiu

A pobre voltou chorando
Dizendo: aquele sujeito
Me carregou Terezinha
E faltou-a com respeito
Chegando em casa deu parte
A um juiz de direito

Ela contou ao juiz
Tudo quando foi passado
Como João Malazarte
A ela tinha enganado
Devido àquela leseira
O juiz falou zangado

A senhora é a culpada
Pois deu à moça ao rapaz
Quem é besta desse jeito
Sofre desta e outras mais
Depois da desgraça feita
Você mesma vá atrás

— O caso está resolvido
Disse o juiz de direito
— Vá arranjar outra filha
Aquela não tem mais jeito
Ou então vá atrás dela
Pra tomá-la do sujeito

A viúva foi pra casa
Muito triste envergonhada
Além de perder a filha
Sofreu mais essa maçada
Com o desgosto morreu
Numa corda pendurada

Agora o leitor se lembre
Da moça lá no sertão
Já tinha perdido a honra
Estava na perdição
Levou o caso à polícia
Mandaram prender João

João com medo correu
Deixou Terezinha só
Seguiu por ali cortando
As zonas do Piancó
Atravessou Paraíba
Foi sair em Seridó

Chegou no Seridó liso
Não tendo do que viver
Arranjou umas pimentas
E foi pra feira vender
Porém no caminho fez
Um português se morder

Encontrou um português
Com um jumento acuado
Carregado com panelas
Sobre o caminho parado
E português dando nele
Porém o burro emperrado

João disse: Camarada
Eu tenho um remédio aqui
Deu-lhe as pimentas dizendo
— Como este nunca vi
Esfregue no fundo dele
Depois puxe-o por ali

Ele passou as pimentas
No lugar que João mandou
O jumento deu dois coices
Que a cangalha virou
As panelas se quebraram
E o burro desembestou

João disse ao português
— O jumento já correu
Com o remédio no fundo
Ele desapareceu
E você só pega ele
Se também passar no seu

O pobre do português
Para pegar o jumento
Passou a pimenta ardosa
No lugar que sai o vento
João disse: oh! cabra besta
Desgraçaste o fedorento

Quando o português sentiu
O ardor no fiofó
Puxou a faca da cinta
João disse: Fique só
Duma carreira que deu
Foi parar em Mossoró

Chegou em uma fazenda
Perguntou ao fazendeiro
Se lhe arranjava um emprego
Nem que fosse de vaqueiro
Pela comida e a roupa
E também algum dinheiro

Perguntou-lhe o fazendeiro
— O senhor de onde vem
João Malazarte disse:
— O senhor perguntou bem
Venho do oco do mundo
Sou filho de muito além

Hoje eu estou por aqui
Mas nasci em Portugal
Na capital de Lisboa
Porém o meu pessoal
Emigrou para o Brasil
Eu me criei em Natal

Aprendi ler e contar
Tenho arte com fartura
Mas estou desempregado
Sofrendo grande amargura
Disse o fazendeiro: agora
Gozarás grande aventura

Você aqui tem direito
A um conforto necessário
Como administrador
Vai ser o meu mandatário
Tem almoço, janta e ceia
Dormida e um bom salário

João ficou manobrando
Aquela propriedade
Passou dois anos quieto
Sem usar perversidade
Já gozava do patrão
A maior intimidade

Porém satanás um dia
Manifestou-se em João
Ele armou uma cilada
Para a filha do patrão
Ela por ser inocente
Caiu no laço do "cão"

João disse: Madalena
Seu pai por ser meu amigo
Mandou dizer que você
Dormisse um sono comigo
Ela foi porque pensou
Que não corria perigo

A patroa de João
Estava lá na cozinha
E não viu quando os dois
Entraram na camarinha
Ele dormiu à vontade
Com todo prazer que tinha

Ainda estavam deitados
O fazendeiro chegou
A moça gritou do quarto
Com João aqui estou
Cumprindo com meu dever
Porque papai ordenou

O velho conheceu logo
Que era uma traição
Deu um pontapé na porta
Que ela rolou no chão
João correu de cueca
E a moça de camisão

O velho correu atrás
Adiante os agarrou
Disse: Vão morrer sabendo
Pelo punhal arrastou
João gritou: — Ora, sebo
Foi ela quem me chamou!

Com essa voz o patrão
Mandou-lhe um soco direto
João rodou e caiu
Dizendo: — Seu Anacleto
Não me mate, por favor
Deixe-me criar seu neto

A mulher disse: Meu velho
Você não mate João
Se a menina ficar
Perdida em cotação
João disse: eu só caso
Porque comi o pirão

O velho se convenceu
Depois do serviço feito
Fez depressa o casamento
E o juiz de direito
Disse: — João vá viver
Com ela bem satisfeito

FIM

(Lira, Luiz Rodrigues de. A vida de João Malasartes [folheto de cordel)

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