Onde às vezes termina a rua
Versos de presos
O criminoso é um homem como outro qualquer. No primeiro
momento, sob o pavor dos grandes muros de pedra, com um guarda que nos mostra os
indivíduos como se mostrasse as feras de um domador, a impressão é esmagadora.
Vê-se o crime, a ação tremenda ou infame; não se vê o homem sem o movimento anormal,
que pôs à margem da vida.
A galeria superior
A galeria superior é dividida por um tapume, com portas
de espaço a espaço para o livre trânsito dos guardas. Os presos não podem ver os
cubículos fronteiros. Os olhos abrangem apenas os muros brancos e a divisão de
madeira que barra a cal das paredes. Quando a vigilância diminui, falam
de cubículo para cubículo, atiram por cima do tapume jornais, cartas, recordações.
As quatro idéias capitais dos presos
Às vezes, numa volta pelo pátio, a conversar com Obed Cardoso, eu via o elegante
doutor Saturnino de Matos passar, como se fosse dar milho às pombas. E, se depois de admirar o
doutor Saturnino apontavam-me, enfiado no zuarte do estabelecimento, com o número de metal à cinta,
um modesto gatuno ou um simples assassino cujo comportamento exemplar os transformava em serventes,
eu deixava o gentil Obed e gozava o calão dessas interessantes flores de patifaria.
Onde às vezes termina a rua
Pois vá ver esses criminosos. O assassino por amor é o único
delinqüente que confessa o crime. Alguns chegam mesmo a reviver detalhes
insignificantes. Ao passo que os gatunos, os incendiários e os homicidas vulgares,
mesmo tendo a cumprir sentenças longas, negam sempre o crime; essas vítimas da paixão
não se cansam de contar a sua história, cada vez com maior número de minúcias e
mais abundância de memória.
Mulheres detentas
O chão de pedra estava cheio de lama. A água suja escorria da soleira da sala em
dois grossos fios e as mulheres, de saia arregaçada, com pulos estranhos,
davam gritinhos estridentes. Um cheiro especial, esquisito,
pairava naquela galeria batida de sol, em que os metais reluziam. Os guardas tinham a
fisionomia fechada.
O dia das visitas
A força de policia é aumentada. Quatro ou cinco guardas
contêm a multidão ao lado do porteiro, que distribui os cartões. A onda dos visitantes
cresce a cada momento, impaciente e tumultuosa. São 11 horas da manhã. O sol queima.
Há no ar uma poeira sufocadora. O saguão está cheio, a calçada está cheia. Do outro
lado da rua, doceiros, homens de refrescos, vendedores de frutas estabeleceram as
caixas e as latas e mercadejam em alta voz.