Jangada Brasil | Tema do Mês – Folcloristas | Basílio de Magalhães

Basílio de Magalhães

Guilherme Santos Neves

A ciência folclórica no Brasil acaba de perder uma das suas mais eminentes figuras, com o falecimento do venerando folclorista Basílio de Magalhães.

A notícia me foi dada através de um registro do meu prezado amigo Mesquita Neto, em sua seção Hoje, edição de 20 do corrente.

Nascido em Minas Gerais a 7 de junho de 1874, Basílio de Magalhães de há muito se vinha dedicando aos estudos do populário nacional que ele conhecia a fundo, como o comprova sua vasta obra, reunida em livros ou dispersa em jornais e revistas. Seu livro mais conhecido nesse setor cultural é, sem dúvida, O folclore no Brasil (Rio de Janeiro, 1939), no qual, publicando uma coleção de contos populares organizada pelo doutor João da Silva Campos, lhe acrescenta inúmeras notas de marcante erudição, além do esboço histórico dos estudos do folclore em nosso país. Esse livro constitui, também, a primeira tentativa séria na divulgação da bibliografia folclórica brasileira, reunindo ali o maio rol de fontes nacionais em tal sentido.

Outra obra de Basílio de Magalhães é a que ele escreveu para a Coleção Brasiliana da Companhia Editora Nacional (5ª série, volume 171) — O café: na história, no folclore e nas belas-artes. Na terceira parte desse interessante livro, estuda o consagrado autor: O café no lendário oriental, no lendário ocidental, no lendário americano e no lendário brasileiro. Este último capítulo compreende: Lendas de fundo histórico, Lendas políticas, O café na medicina e nas superstições, O café na poesia popular e o café no anedotário brasileiro.

Nas páginas da antiga revista Cultura Política, divulgou Basílio de Magalhães na seção “O povo brasileiro através do folclore”, número inumerável de artigos, estudos e ensaios, focalizando vários aspectos do populário nacional: lendas e mitos, poesia e música do povo, coreografia folclórica, folclore místico-religioso, festas e folguedos populares, folclore no negro, folclore geográfico-econômico, folclore poético-político etc. etc. — páginas que valorizavam sempre aquela revista (que o DIP, infelizmente, controlava).

Todo esse acervo de estudos folclóricos aí publicados — tão ricos de informações preciosas — bem poderiam ser reunidos em livro — sugestão que se deve, em primeira mão, a mestre Câmara Cascudo, como nos informa o próprio Basílio de Magalhães (cfr. Cultura e Política, abril de 1942, nº 4, p.208): “É bem provável que seja oportunamente atendido Luís da Câmara Cascudo, quanto a serem estes meus artigos (naturalmente revistos e melhorados) compaginados em volume, como repositório de matéria prima oferecida ao exame e crítica dos doutos em assunto que tão de perto fala às nossas tradições, isto é, às verdadeiras raízes da alma e do caráter do povo brasileiro”.

Infelizmente, não pôde o ilustre folclorista mineiro ver realizado esse desejo, o que não impede seja o valioso material aproveitado e publicado ainda, quer pela Editora Epasa (a que ele prestou sua colaboração inestimável), quer pelo Governo Federal, ou pelo Governo de Minas Gerais, que, assim, prestariam à memória do insigne polígrafo brasileiro, a devida homenagem de sua reverência e gratidão.

Mas não apenas na seara do folclore era senhor e mestre Basílio de Magalhães.

Poliglota emérito, investigador paciente e sábio, de outros setores da nossa cultura, também aos estudos históricos dedicou ele muito de sua inteligência e do seu tempo, tendo publicado, na Coleção Brasiliana: Expansão geográfica do Brasil colonialEstudos da história do Brasil e História do comércio, indústria e agricultura.

Tal foi a importância que a crítica atribuiu ao primeiro desses livros, que, mais tarde, esgotada a edição, dela tirou outra, corrigida e ampliada, a Editora Epasa, do Rio de Janeiro (1944), incluindo-a como volume V da Biblioteca Brasileira de Cultura.

A Basílio de Magalhães já havia sido conferida a direção dessa biblioteca, tendo ele apresentado e anotado os livros Viagem na América Meridional, de Condamine, Villegagnon, de M. T. Alves Nogueira, e Uma festa brasileira, de Ferdinand Denis.

Este o polígrafo que o Brasil acaba de perder, desfalcando-se com o seu desaparecimento, os estudos históricos e demológicos de um dos seus mais cultos e eminentes mestres.

Ao registrarmos aqui esta breve nota sobre Basílio de Magalhães, queremos também prestar nossa reverência ao nome ilustre sob tantos títulos, ao mesmo passo que enviamos o nosso pesar à Comissão Nacional de Folclore, da qual era ele um dos mais queridos e preclaros integrantes.

(Neves, Guilherme Santos. “Basílio de Magalhães”. A Gazeta. Vitória, 27 de dezembro de 1957)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Copyright © All rights reserved. | Newsphere by AF themes.