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Bumba-meu-boi

Entre os folguedos populares brasileiros mais tradicionais e de maior significação estética e social, destaca-se o bumba-meu-boi, manifestação viva do folclore nacional.

O rufar dos bumbos, o toque-toque dos atabaques, o estrídulo dos agogôs, confundindo-se com o tilintar dos pandeiros, os lamentos esganiçados de velhas rabecas e a soada de outros instrumentos, produzem sons cadenciados, os quais se ouvem a consideráveis distâncias, podendo servir de orientação sobre o local onde se realiza o bailado dramático, cheio de originalidade e muito colorido.

Os espetáculos, sempre impressionantes, diferenciam-se de uma para outra localidade.

Grande parte da população reúne-se na folia. Forma-se um cortejo, que percorre as principais vias públicas e faz-se a representação diante das residências de famílias abastadas, porque estas podem compensar melhor o esplendor da folgança.

Exibe-se, então, o foco das atenções gerais, dando a nota máxima da alegria coletiva.

Um homem hercúleo, que se oculta sob uma armação de madeira, recoberta de pano, à maneira do boi guadimar, com exageradas guampas, brande fitas policrômicas e tenta cadências, descambando em todas as direções e fazendo nuvens de poeira, com os pés descalços. Saltando, rodopiando, rugindo e contorcendo-se, ele recebe a ovação do povo, que se exprime em palmas, exclamações e assobios, interrompendo o coral ululante das outras figuras do rancho no ritmo soturno de “Oi, olha o boi! Olha o boi, olha o boi!”.

Em torno do boi, bailam os músicos. Seus adornados instrumentos vibram, enquanto a assistência participa dos cantos e danças, fazendo voltear no espaço, como expressão da cortesia e do entusiasmo da alma coletiva, chapéus de palha, bandeirolas, lenços e galhardetes coloridos.

O bumba-meu-boi, segundo uma das versões mais correntes, teve origem no conhecido Monólogo do vaqueiro, de Gil Vicente, encenado pela primeira vez nas câmaras reais de dona Maria, rainha de Portugal e mulher de dom Manuel, o Venturoso, a 8 de junho de 1502, quando nasceu o príncipe dom João.

Por aqueles tempos, andavam em voga em toda a Europa atlanto-mediterrânea as agnálias, autos constantes de drama e coreografia, fontes de inspiração do poeta para suas honras ao Infante luso.

Entretanto, ao que se pode presumir, só nos fins do século XVI, através da colonização portuguesa, penetrou nos costumes brasileiros, aparecendo em terras baianas, de onde se irradiou para todo o Nordeste e Amazônia, bem como para o Espírito Santo, Minas Gerais, São Paulo, Santa Catarina, Goiás e outros Estados, apresentando-se com inúmeras variações e interpretações diversas, de uma para outra região.

A transformação, aliás, é natural, pois que o folclore, como se fosse um corpo vivo, não permanece em suas formas primitivas, antes evolui continuamente, influenciado pelos mais diversos fatores, que lhe emprestam o tom dominante da paisagem local.

As versões mais fiéis do bumba-meu-boi são próprias das regiões de vaqueiros e criadores, onde se revigoram, irmanando-se à mística dos aboios sentimentais. Isto pode ser observado na Bahia, Sergipe, Pernambuco, Ceará, Maranhão e no Pará, onde a tradição é rediviva, apesar de suas variações, nas cidades do interior assim como no sertão e em todo o Polígono das Secas.

O bumba-meu-boi é uma folia ou reinado e se caracteriza por um drama e uma dança com vários personagens que cantam em solo, quadras do enredo, em alegorias várias, preludiadas por uma chula em coro, destacando-se, no elenco, como “figuras principais”, um vaqueiro e seu boi:

Olha o boi, olha o boi
Que te dá
Ora entra pra dentro
Meu boi marruá

Olha o boi, olha o boi
Que te dá
Ora, ao dono da casa
Tu vais festejá

Olha o boi, olha o boi
Que te dá
Ora, dá no vaqueiro
Meu boi guandimá

Olha o boi, olha o boi
Que te dá
Ora, espalha este povo
Meu boi marruá

Olha o boi, olha o boi
Que te dá
Ora, sai da catinga
Meu boi malabá

No decurso da peça e após ter cada um cantado sua parte, o grupo entoa em uníssono uma espécie de velório, a cujo som o boi salta e dança, em trejeitos e piruetas, atacando a assistência, até cair “morto”. Em seguida, fazendo por ressuscitá-lo, o vaqueiro dança em torno dele, numa longa e monótona cantilena. Ao derradeiro verso, contorce-se e ergue-se de salto o “sacrificado”, sob saudação apoteótica de seus comparsas e também do povo, que é marrado pelo boi, enquanto os componentes do farrancho colhem sua paga, sem sempre generosa, para o “sumo” da consagração.

Não cabe aqui uma análise do tema em toda a sua extensão, mas são dignas de realce as particularidades da morte e ressurreição do boi, em perfeito enquadramento com os temas de fecundidade ligados ao touro. Demonstra, afora isto, tal minúcia, que persiste na celebração do reisado a motivação psicológica milenar da alma-mater coletiva, o ego individual. Sem dúvida, psicologicamente, a razão de ser do bumba-meu-boi é equivalente à da antiga simbologia egípcia, encontrada na escritura hieroglífica, onde se registra, acaso inconscientemente, a passagem do swn (o oturo vivo) para jhj (o touro decapitado).

Convém mencionar que são poucos, na verdade, os temas folclóricos, mas suas variantes geram outras tantas e tão diversificadas que a muito custo e somente através da análise minuciosa, com as chaves da filologia, arqueologia, história e, precipuamente, psicologia profunda, seguindo-se as pegadas de Freud, Jung, Neumann e outros iniciados, logra o especialista penetrar-lhes o segredo, para perfeito conhecimento das emoções das coletividades humanas, reveladas pelos provérbios, contos bailados e canções populares.

Assim é o folclore. Assim, o bumba-meu-boi, com seus variados aspectos, a demonstrar que também nas diversões do povo, embelezadas por sentimentos quase ingênuos, se encontram reflexos de inúmeros fatores que concorrem para a evolução social.

(“Bumba-meu-boi”. Tribuna da Imprensa. Rio de Janeiro, 22 de abril de 1957)

 

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