Jangada Brasil | Tema do Mês – Carnaval

A propósito do Maracatu Leão Coroado

Mário Câncio

O maracatu, gênero de música/dança de origem afro-brasileira se insere no carnaval pernambucano por suas características dramáticas, de um dramático carnavalesco e regional. A sua existência nos festejos momescos tem suscitado polêmicas e controvérsias. De um lado, alinham-se aqueles que propugnam afirmando a sua não importância por inadequado aos ditos festejos, dado, sobretudo, à inaderência do popular, cujo interesse circunscreve-se a uns poucos cultores. Por contra, há os que consideram o maracatu como o frevo, música/dança de nações profundamente folclóricas, merecendo ser, por isso mesmo, defendidas e preservadas. Com efeito, encontram-se aí, da maneira mais autêntica, boa parte das raízes culturais da nossa gente. Pelos hábitos, costumes e folguedos de implicações religiosas, ou sincrético-religiosas, e até político administrativas revividos por representações simbólicas, mas, nem por isso menos representativas de um status transplantado de ultramar.

O significado etimológico do termo maracatu enseja algumas explicações. Aplicado a um tipo de “dança dramática” de origem africana, é Mário de Andrade quem confessa não haver encontrado a palavra em qualquer documento anterior ao século XX. Trata-se possivelmente de vocábulo formado por aculturação, o que se infere, dessa forma, de interpretá-lo — o maracatu — “como voz africana, porque ele se assimila facilmente a fonemas guaranis”. E explica ainda: “Maracá é um instrumento ameríndio de percussão conhecidíssimo. Catu, em tupi, quer dizer bom, bonito, aglutinando, em seguida, lembrando a formação maracá — catu, do que resulta maracatu fundidas as duas sílabas cá”.

Há ainda a interpretação de T. Sampaio que admite a procedência, vinda de marã, que significa “a guerra”, a confusão, a desordem etc. Daí marãcatu que deu, posteriormente, por assimilação, maracatu, isto é, “guerra bonita, a briga bonita, a briga de enfeite, invocando o cortejo real festivo mas guerreiro”.

Fala-se muito na “morte” do maracatu, na sua degenerescência ou desaparecimento lento e progressivo. Lembro-me das polêmicas que o assunto suscitou ainda não faz muito tempo em carnavais próximos passados. E uma reação se esboçou entre os seus cultores e compositores de músicas do gênero, no sentido de preserva-lhe a presença nos cortejos carnavalescos. Muito oportuna a atitude que nós aplaudimos no tempo. Porém, ainda que não admitindo “essa morte lenta” que alguns propalam, somos forçados a constatar alguma modificação nos seus costumes e organizações. Pra começar, citemos este trecho de Mário de Andrade: “nos maracatus antigos havia muitos dignitários de corte, casa qual com o seu título essencial. Era assim, ainda no princípio do século o maracatu do Cacau, na Cidade dos Palmares, e assim foram os que Pereira da Costa descreveu. Hoje esta tradição está se perdendo rápido, se já não se perdeu de todo”.

Alguns fatores terão concorrido para essa mudança. Fatores econômicos: a libertação, permitindo ou induzindo à iniciativa própria, à auto-independência, forçando uma aculturação adequada natural e integração ao novo modus vivendi. Étnicos, históricos ou sociais pela progressiva diminuição de motivações existenciais, já pela diluição étnica resultante do fenômeno miscigenador, já pela ausência de resposta aos apelos dos mais velhos, e por isso, mais próximos das origens.

No Recife, ha um exemplo. O Maracatu Leão Coroado, cujas origens remontam ao ano de 1863. Mais que secular, ele arca, hoje, com as maiores dificuldades para sobreviver. Aglutinados em torno do chefe Luiz de França dos Santos, reúnem-se os seus associados uma vez por ano para os festejos do carnaval. Afora isso, quase nunca. Mário de Andrade faz notar que eles se reuniam para as festas da Abolição a 13 de maio de cada ano, quando dançavam frente ao monumento de Joaquim Nabuco. Creio que, até esse hábito se perdeu… E a descaracterização é um fato. É o próprio Luiz de França que nos relata a existência de maracatus com influência indígena, por exemplo, o que está em franco desacordo com as suas origens.

A Nação Centro Grande Leão Coroado é o nome completo. Alguns grandes líderes animaram, através dos anos, as festanças do maracatu. Um deles, o Veludinho, falecido recentemente aos 100 anos de idade, foi, talvez, o mais famoso.

O econômico, como disse acima, é fator importante para a sobrevivência do maracatu. Na realidade, a sua formação inclui, — como num verdadeiro reinado — as presenças em seus cordões de rei, rainha, príncipes, princesas, duques, duquesas, embaixador, embaixatriz, dama do passo, baianas e batuqueiros. O que ocorre constantemente é que, não havendo condições para vestir — e no maracatu tudo é pomposo! — tanta gente, os cortejos/cordões reduzem-se, segundo as disponibilidades eventuais.

O Maracatu Leão Coroado, segundo o seu atual presidente, senhor Luiz de França dos Santos, é o único no Recife que possui o “baque virado”. O seu acompanhamento musical é feito com instrumentos de sons indeterminados, onde se encontram a caixa de guerra, o melão, o zabumba ou marcante, gonguê, ganzá e atabaque.

Alguns reis e rainhas que reinaram no Leão Coroado: Estanislau, João Baiano, José Nunes da Costa, Loriano Manoel dos Santos, Gertrudes “Boca de Sóia”, Martinha (Maria Marta da Conceição) e dona Santa (Maria Júlia do Nascimento).

A Boneca, figura central conduzida pela dama do passo, tem o nome de dona Isabel. No Maracatu Leão Coroado, dona Isabel é, por sinal, um nome decantadíssimo, conforme se vê nas estrofes:

Salve um brigue de guerra embandeirado
Salve todas as fortalezas
Dona Isabel é nossa princesa

Ou ainda:

Leão Coroado com seu braço forte
Nasceu no norte, dá vaia em quem quer
Se se encontrar com outra nação
Seu pavilhão mostra dona Isabel!

(Câncio, Mário. “A propósito do Maracatu Leão Coroado”. Diário de Pernambuco. Recife, 28 de fevereiro de 1971)

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